Crítica | “Remonta” – Liniker e os Caramelows

estrelas 4

A MPB – sim, aquele estilo difícil de classificar, mas que ao escutar o arranjo orgânico e tipicamente brasileiro é reconhecível a todos – pouco tem balançado o mainstream nos últimos anos. O gênero que um dia veio da parte mais humilde e pobre da sociedade viu uma mudança em sua estrutura desde que perdeu destaque frente ao surgimento do sertanejo e passou a ser, infelizmente e falsamente, considerado por muitos como um estilo de elite. Liniker – junto de sua banda de apoio, Caramelows – serve de retomada ao que a música popular brasileira possui de melhor e vinha sendo esquecido. Definindo a si mesmo como “bicha, preta e pobre”, Liniker produz um Soul nacional potente, extremamente técnico e inspirado, além de destaque para o poder das minorias.

O artista que acumula mais de 5 milhões de views em um vídeo no Youtube (um feito impressionante em tempos onde apenas o sertanejo universitário ou o axé conseguem arrancar esse número) lançou em setembro seu álbum de estreia e vem ganhando reconhecimento desde então. Seja a voz e interpretação brilhantes que evocam Ney Matogrosso, ou os arranjos da soul music que deixariam o Rei Tim Maia orgulhoso, tudo soa como um conjunto de referências do passado e do presente executadas de maneira primorosa. Aliás, a influência do Síndico existe até de easter egg na faixa Prendedor de Varal (“Como já diziam, não adianta vir com guaraná que eu quero é chocolate”) junto aos metais acompanhantes, o swing da guitarra, os backing vocals e os sintetizadores discretos. Se quer um resumo da razão pra tantos elogios ao cantor, escute o belíssimo samba de Você Fez Merda onde, em uma tacada só, toda a riqueza de personalidade e talento do cantor são demonstradas. Se trata de um grande playground do vocalista, brincando com os falsetes mais delicados até os graves mais hipnotizantes.

É importante não deixar que a forte personalidade e voz do cantor ofusque a competência de seus Caramelows. Atente a momentos como o inesperado e emocionante acordeon na abertura de Sem Nome, Mas Com Endereço, o groove destruidor que o espetacular baixista arranca em Fuzzy e Caeu (roubando a cena de maneira assustadora), ou a sutileza com que entram os metais e os backing vocals em Zero. Cada atitude da banda de apoio é feita com maestria. E ainda sobra uma esperta parceria com os experimentos sonoros sempre interessantes da banda Aeromoças e Tenistas Russas em BoxOkê, contando também com revezamento vocal com a nova revelação do rap, Tássia Reis. É uma espécie de pequeno dream team de revelações nacionais, todos reunidos.

Vale destacar as ótimas letras do disco, evocando o lado mais descompromissado da MPB, sem precisar de metáforas muito rebuscadas, se apropriando de versos urbanos e sinceridade poética. “Foram mais de dois cafés, mas da forma vazia e fria que olhava quando me peneirou” – ele canta na excelente Caeu. Veja como o artista consegue ir direto ao ponto em sua mensagem e de praxe fazer um belíssimo verso. “Ralei meu coração num ralador de pia” – o inteligente e marcante refrão encerra o disco em um estampido de riffs vibrantes de guitarra, uma bateria destruidora e belos vocais de Tulipa Ruiz, Assucena Assucena e Raquel Virgínia trabalhando em conjunto para dar cobertura a Liniker.

Liniker & Os Caramelows inicia sua discografia com o pé direito. Canções compostas com a sabedoria de um time que demonstra entender de música como poucos. Se trata de um trabalho tipicamente introdutório, sem pretensões conceituais ou produção muito caprichada, mas com uma destreza técnica e um nítido holofote ligado no grande talento do frontman e da banda de apoio. Fiquem atentos, estamos diante de possivelmente uma das maiores vozes a receber destaque nacional nos últimos anos.

Aumenta!: Ralador de Pia
Diminui!: 

Remonta
Artista: Liniker & Os Caramelows
País: Brasil
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de setembro de 2016
Estilo: Soul, MPB

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.