Crítica | Renascida do Inferno

estrelas 2,5

Não é novidade que o cinema comercial pende cada vez mais a balança em favor da forma, reduzindo o peso do conteúdo. Óbvio que a primeira pode ser uma extensão do segundo, mas para tanto é o conteúdo quem tem necessariamente de ditar a forma.

Em Renascida do Inferno, vemos o cúmulo dessa falta de diálogo entre um e outro, já que elementos como o elenco atrativo e a ambientação convincente agem como compensadores de uma narrativa de horror medíocre, ainda que alguns sustos funcionem bem, e de um roteiro que beira ao ridículo. Fazer o quê? Quem compra a mercadoria é o freguês. Ou será o contrário?

No longa, jovens cientistas descobrem um soro capaz de trazer seres (animais, a princípio) de volta à vida. Ainda assim, a descoberta é tratada por eles apenas como se tivessem, no máximo, encontrado a cura para o câncer ou algo parecido. Apesar de uma ou outra discussão instigante quanto às implicações científicas versos religião com respeito às consequências da aplicação do soro, o entusiasmo da equipe não é nem de longe proporcional ao feito e, nos primeiros minutos, fica evidente que não se pode levar o filme a sério. Só que os problemas estão longe de acabar por aí.

Em meio aos primeiros testes do soro com animais – fica claro que os bichos não voltam à vida como deveriam, salve o sinistro cão ressuscitado -, somos brindados com diálogos dos cientistas sobre questões científicas que, apesar de um esperado conhecimento avançado do grupo acerca de tais tópicos, são discutidos pelos personagens numa linguagem de senso comum, como a óbvia diferença entre o nível de memória do cão e a do ser humano. Claro, é natural que o filme quisesse ser didático, mas transmitiria verossimilhança à sua narrativa se esses diálogos fossem entre um cientista e um leigo, por exemplo. Por vezes, o texto também carece de sentido, como quando se justifica a não dissipação do soro pelo líquido estar no corpo de um cachorro e não de um ser humano, sem que se explique, no entanto, por que essa diferença é relevante – se em um momento o didatismo é mal aplicado, noutro está ausente.

Outro problema – felizmente amenizado na melhor fase do filme, após o acidente que leva a pesquisadora Zoe (Olivia Wilde) à morte e a ser ressuscitada com o tal soro, adquirindo poderes psíquicos e, pelo castigo divino ou pelo que for, matando um por um dos colegas no laboratório – é a repetição dos artifícios do longa para assustar o expectador. Em pelo menos duas ocasiões, animais dados como mortos saltam de repente e, por outras duas vezes, um personagem chega de mansinho atrás de outro e o assusta – não bastasse o clichê, parece faltar criatividade. Nem sequer o título original do filme, The Lazarus Efect (O Efeito-Lázaro), funciona bem, a não ser que o homem tenha ficado maluco após ter sido supostamente ressuscitado por Jesus.

Por outro lado, cabe elogiar a eficácia da produção em transmitir ao público a sensação de confinamento. Não tardamos a nos sentir limitados ao laboratório, onde a maior parte da trama se passa. Já a trilha sonora, conduzida por Brian Cachia, seria quase irrelevante se não pegasse emprestada a clássica composição de Mozart para ópera A Flauta Mágica, a Ária da Rainha da Noite, de fato, talvez até o melhor da experiência proporcionada pelo filme, apesar de funcionar como o marcador tão comum no gênero da influência de uma ameaça oculta sobre o ambiente. A abertura da fita também trabalha com uma faixa sonora muito interessante em termos de cacofonia, mas falta o desenvolvimento dessa proposta no restante da projeção.

Embora a premissa de Renascida no Inferno não seja nenhuma novidade, salve o clássico Frankenstein, por exemplo, o mero apoio em referências, em alguma credibilidade e técnica, porém sem uma sólida proposta própria para o desenvolvimento da história, na certa não é o bastante. Para quem, ainda assim, se sinta atraído a conferir a experiência, pague o seu preço.

Renascida do Inferno (The Lazarus Effect), EUA – 2015
Direção: David Gelb
Roteiro: Luke Dawson, Jeremy Slater
Elenco: Mark Duplass, Olivia Wilde, Sarah Bolger, Evan Peters, Donald Glover, Ray Wise, Scott Sheldon, Emily Kelavos, James Earl, Amy Aquino
Duração: 83 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.