Crítica | “Reputation” – Taylor Swift

É impressionante como o “formato” cantoras pop vem alcançando uma popularidade inabalável desde o início dos anos 2000. Procure os artistas de maior influência no atual mercado musical e a grande maioria será formada de cantoras pop, ou rappers, isso quando não funcionam como ambas. E Taylor Swift tem sido uma figura de destaque nesse meio, grande parte devido a sua imagem de empreendedora, tomando atitudes bem fortes quanto a sua música (retirada de serviços de streaming, por exemplo) e polêmicas sempre presentes em tabloids. Taylor não é a primeira e nem será a última a sofrer na mão de revistas e papparazis, mas sua personalidade um tanto dramática e misteriosa ao lidar com tais problemas parece motivar ainda mais tal mídia a correr atrás dela.

Após o abandono das raízes country e sua entrada completa no mercado pop no comentado 1989, Taylor segue o mesmo fluxo em seu sexto álbum, Reputation, dessa vez pagando de bad girl e utilizando um discurso de “resposta” aos ataques que sofreu por parte da mídia e ex-colegas artistas. Look What You Made Me Do, primeiro single, é uma resposta com uma lista de destinatários que vão muito além de Kanye West. Vale lembrar que o número de rumores e polêmicas que Taylor enfrentou nos últimos anos é extensa, incluindo um processo judicial que entrou contra um DJ em Denver, alegando assédio sexual.

Acontece que essa “nova” e “bad ass” Taylor, como tenta divulgar em seu novo álbum, é uma caricatura já explorada milhares de vezes dentro do gênero. Look What You Made Me Do e …Ready For It? pegam emprestado bases típicas de hip-hop pra criar um rítmo demasiadamente upbeat e apelar para o impacto. O problema é que tais batidas estão longe de soarem frescas, muito pelo contrário. E pior, a própria cantora não consegue convencer com seu novo papel, cantando quase como se estivesse encarando uma personagem artificial.

Veja a faixa I Did Something Bad, por exemplo, que parece dar quinze passos retrógrados na história do pop. Soa como algo que Britney Spears faria no início dos anos 2000, parecendo ultrapassada demais para um gênero que se preocupa tanto com tendência e momento. Acaba soando apenas com o que realmente é: música pop preguiçosa e de mal gosto mesmo, se aproveitando de um refrão fácil e de uma produção alta e exagerada para ganhar público. O mesmo vale para outras faixas esquecíveis. Ninguém vai lembrar de Don’t Blame Me ou So It Goes, tenha certeza disso. Por sorte, a primeira metade do disco contém o bom chamariz de End Game, que faz um belo uso de upbeats, dessa vez com um teor mais melancólico e um bom revezamento entre os convidados Future e Ed Sheeran (embora ver o britânico tentar bancar o rapper seja um tanto vergonhoso).

Um grande problema é que, diferente do que parte da mídia pode dizer, Taylor não evoluiu em nada como letrista, continuando com características bem medíocres. E aqui eu não digo esperando que ela fuja de seu clássico romantismo, mas que pare de aborda-lo com uma visão tão imatura e piegas. Em um ano que recebemos uma obra como Melodrama, chega a ser ridículo comparar trechos das atuais composições de Taylor à mais recente obra de Lorde. E sim, o paralelo entre os dois discos é perfeito – até mesmo na produção em momentos eles se assemelham – o problema é que enquanto a neozelandesa encara sua vida e relações românticas de forma única, Swift encara tudo como uma duquesa esperando seu príncipe encantado chegar a cavalo. Em resumo, a cantora continua fazendo uma música pouco palatável e cansativa demais para se criar empatia.

Não me leve a mal, há muito o que se aproveitar de material pop em Reputation. Gorgeous é um belo candidato a guilty pleasure. Guilty apenas devido à letra risível de tão fraca (“Você é tão maravilhoso/ Não posso dizer nada na sua cara/ Pois olho pra seu rosto/ E fico tão furiosa”), pois a deliciosa base rítmica obedece a lições que datam desde os anos 60 da escola Brian Wilson de música pop: açucarada, inocente e, acima de tudo, divertida. O mesmo vale para a ótima Getaway Car, faixa onde a cantora canta um velho e mágico clichê da história da música: romances, viagens e carros. De forte pegada oitentista, junto com Dancing With Our Hands Tied é um dos destaques do álbum graças a sua honestidade e seu carismático synthpop, evocando momentos do auge de Cindy Lauper.

That’s Why We Can’t Have Nice Things é uma resposta nada discreta da cantora aos problemas que teve com Kanye West. A letra faz questão de não deixar dúvidas sobre o alvo da faixa, tocando em cada detalhe que circulava como rumor no desentendimento entre os artistas, o que se extende até mesmo à mãe da cantora. E a faixa funciona bem e com bom humor, por mais que a resposta rebuscada de Taylor pareça leve demais frente a acidez babaca dos dois polêmicos versos de Kanye em Famous (“I feel like me and Taylor might still have sex/ Why? I made that bitch famous”). Vale destacar ainda Call It What You Want, um dos poucos momentos que Taylor se sai bem como letrista – ao menos dentro de seus típicos temas white girl problems – assim como flerta de maneira interessante com características de R&B em uma doce performance.

Muitos artistas mergulham em suas vidas, seu cotidiano e experiências para construir um álbum. Contudo, a qualidade do compositor/artista/intérprete e a forma de apresentar sua vida nas canções é determinante para o resultado. Seja Frank Ocean abordando sua vida de maneira misteriosa e com belas referências poéticas, Kendrick Lamar compartilhando seus diversos medos, ou Beyoncé explorando as fraquezas de seu relacionamento, é preciso existir empatia, sinceridade e um mínimo de entretenimento nas composições, de forma que possamos mergulhar na mente do artista. Talvez Reputation nem seja um disco ruim se analisado meramente pela perspectiva pop, mas é algo descartável e supérfluo demais pra tanto drama e publicidade envolvidos.

Aumenta!: End Game
Diminui!: I Did Something Bad

Reputation
Artista: Taylor Swift
País: Estados Unidos
Lançamento: 10 de novembro de 2017
Gravadora: Big Machine
Estilo: Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.