Crítica | Requiem (2006)

estrelas 4,5

Requiem é um daqueles filmes dramáticos que nos prendem pela força dos personagens e pelo magnetismo do enredo. Diferente do turbulento e assustador O Exorcismo de Emily Rose, a trama radiografa a história de Anelise Michel, jovem alemã que nos anos 1970, foi submetida a seções de exorcismo que a levaram a morte. Ao lado do terror lançado alguns anos antes, Requiem torna-se um ótimo complemento, uma visão adicional da história que nos ajuda a entender mais sobre aquele universo em que a razão e a fé imbricavam-se numa linha tênue.

A protagonista, interpretada com bastante equilíbrio pela atriz Sandra Hussen, ganhadora do Urso de Prata por seu desempenho, desde o começo já se apresenta como uma garota estranha e solitária, em outras palavras, diferenciada e introspectiva.

Dirigido pelo cineasta Hans-Christian Schmid, o filme baseado em fatos reais nos mostra o cotidiano de uma jovem no auge dos seus 21 anos de idade. Interiorana, ela recebe uma carta da Universidade de Tubingen, na Alemanha Ocidental, situação que funciona como uma espécie de passaporte para dias diferentes, repletos de uma sensação de liberdade até então desconhecida. Oriunda de uma família católica extrema, a garota vive sob a observação de si mesma o tempo inteiro, vigiando-se a cada passo que dá.

 A liberdade alcançada, por sua vez, não é plena. Ela é doente e sofre de ataques epilépticos constantemente, juntamente com manifestações de alucinações que a tomam em alguns momentos de instabilidade psíquica. Desesperada depois de perceber que está a escutar vozes, a garota procura uma paróquia próxima, sendo atendida por um pároco que lhe indica um padre.

Pelo caminhar das manifestações psíquicas, ela acredita que está com problemas espirituais. Um padre lhe diz que “demônios são metáforas”, o que a deixa balanceada. O problema, entretanto, é que os aconselhamentos começam a não funcionar. As crises aumentam, e assim, nos leva a crer que a garota talvez esteja sob outra condição.

Apesar de não nos apresentar de forma explícita as sessões a que Anneliese Michel foi submetida, o filme consegue passar todo o sofrimento durante a sua jornada. Seguindo uma espécie de padrão narrativo europeu, o filme termina em aberto, sem predefinir as coisas, o que não impede que nos créditos finais, os letreiros nos informe que os pais e padres que realizaram os rituais foram penalizados judicialmente depois do falecimento de Michel.

Categorizada como drama, a narrativa possui elementos muito próximos do documentário. O cineasta responsável pela produção começou a sua carreira neste segmento, o que colaborou com a manutenção do estilo em alguns trechos de sua experiência ficcional (só uma maneira de se referir, afinal, sabemos que hoje as fronteiras entre documentário e cinema de ficção são mais que híbridas).

Enquanto em O Exorcismo de Emily Rose a narrativa nos levava intencionalmente para o lado sobrenatural, Requiem apresenta-se diferente, pois a sensação que se tem ao terminar o filme é a de total irresponsabilidade dos pais, pessoas aparentemente esclarecidas diante dos problemas psiquiátricos da filha. Basta ler qualquer livro básico de da área de psicologia para saber que historicamente, a epilepsia foi considerada uma possessão demoníaca, haja vista o descontrole do corpo e as expressões faciais da pessoa acometida pelo problema que afeta o lado físico e o psíquico concomitantemente. Mesmo com aspectos semióticos que nos conectam com o lado religioso que fez parte do universo daquelas pessoas, é com a razão e a ciência que o filme parece interessado em dialogar.

Os símbolos religiosos estão presentes ao longo dos 90 minutos de filme, numa direção de arte e cenografia cuidadosas. As cores frias e os tons pálidos sintetizam imageticamente o conteúdo do roteiro, material literário que recebeu atenção especial do cineasta, realizador que também assinou a concepção textual do filme. Segundo relatos durante a época de promoção em festivais de cinema, o público foi informado que há sempre um cuidado por parte do cineasta em discutir o roteiro juntamente com o elenco, captando ideias antes de tomar as decisões finais.

Requiem – Alemanha /2006
Direção: Hans-Christian Schmid
Roteiro: Bernd Lange
Elenco: Anna Blomeier, Burghart Klaußner, Imogen Kogge, Nicholas Reinke, Sandra Hüller, Eva Lobau, Alejandro Esquerra, Jens Harzer
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.