Crítica | Réquiem para um Sonho

estrelas 4,5

Antes de explodir para o mundo com este Réquiem para um Sonho, Darren Aronofsky já havia chamando peculiar atenção da crítica com o intrigante Pi, filme realizado de maneira completamente independente por Aronofsky com a ajuda de amigos, mas que foi o suficiente para lhe render três indicações ao Independent Spirit Awards, reconhecimento este que lhe permitiu trazer, de forma definitiva, seu estilo singular para seus filmes.

Apesar de sua filmografia ser composta de projetos que são, em sua maioria, um verdadeiro soco no estômago, Réquiem para um Sonho é a síntese do cinema de Aronofsky: um filme de imagens pesadas e desafiadoras, clima atordoante e um efeito entorpecente que se agarra ao espectador por um bom tempo após o término da projeção. É um filme que nos deixa, quase que literalmente, exaustos.

O diretor leva seus personagens até  as últimas consequências, ultrapassando os limites de qualquer outra produção que já havia abordado a questão da degradação pelas drogas (curioso notar que o filme chegou ao circuito no mesmo ano de Traffic, de temática semelhante). O diretor causou certa repulsa de boa parte do público (embora isto também faça parte de seu objetivo) ao utilizar, sem pudor e sem pena, diversos recursos estilísticos que ressaltavam a decaída dos personagens rumo ao inferno devido ao vício das drogas, tornando o filme um experiência absurdamente incômoda e impactante. E Aronofsky alcança tal feito não apelas pela força de suas imagens, mas também pela identificação inusitada gerada entre personagens e espectador. Para alguns, Réquiem para um Sonho pode soar como uma viagem extremamente pessoal.

De narrativa picotada, repleta de cortes e tomadas (cerca de duas mil), clima de pesadelo e atuações carregadas de angústia, Réquiem para um Sonho é expansão tanto do estilo nada convencional de Aronofsky quanto do próprio tema, uma vez que os efeitos das drogas sobre o ser humano já havia sido dissecado com bastante competência em filmes como Trainspotting – Sem Limites e Diário de um Adolescente – mas ao contrário destes exemplos, Aronofsky nos faz experimentar, quase que de forma intima, os delírios dos personagens e sua inevitável descida à loucura.

Personagens estes muito bem interpretados por um elenco que tal qual seu diretor, parecem estar profundamente mergulhados no clima de paranoia da obra. Como o filme é, basicamente, sobre três pessoas viciadas em drogas e a mãe de um deles, o roteiro se apoia quase que integralmente a estas figuras dilaceradas pelo vício. Jared Leto, vencedor do Oscar de ator coadjuvante por Clube de Compras Dallas, surpreende pela maneira profunda com que interpreta o jovem Harry Goldfarb, tendo perdido cerca de doze quilos para interpretar o papel. Sua namorada Marion é espetacularmente interpretada por Jennifer Connelly (que viria a ser agraciada com um Oscar no ano seguinte por Uma Mente Brilhante), inclusive participando de uma das cenas de sexo mais bizarras e desconfortáveis do Cinema. Marlon Wayans, mais conhecido por atuar em comédias como Todo Mundo em Pânico e As Branquelas, também é uma grata surpresa como o amigo negro Tyrone, mas é Ellen Burstyn quem se destaca como a solitária dona-de-casa Sara, mãe de Harry, e que começa a tomar pílulas para emagrecer com o objetivo de ir ao seu programa de TV favorito com um vestido que já nem lhe cabe mais. O trabalho de Burstyn é visceral e dilacerante (a atriz não fazia algo tão forte desde O Exorcista), o que lhe garantiu uma indicação ao Oscar naquele ano, tendo injustamente perdido para Julia Roberts em Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento.

Ao final, percebe-se que Aronofsky disseca não apenas o vício pelas drogas, mas todo e qualquer apego irracional que tornam as pessoas seres completamente dependentes daquilo, permitindo que se tornem figuras inertes, entregues à solidão e ao apego da vida moderna. Com coragem e ousadia, Aronofsky acompanha esta degradação de maneira arriscada e condenável para alguns (os inúmeros recursos estilísticos, sem dúvidas, irão incomodar os mais sensíveis), mas que atinge seu objetivo com êxito, e ao final, resta apara o espectador ter que lidar com a sensação de exaustão e as imagens fortes concebidas pelo diretor.

Filme para fazer refletir por dias e horas.

Publicado originalmente em 7 de março de 2014.

Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream) — EUA, 2000
Direção:
Darren Aronofsky
Roteiro: Hubert Selby Jr.
Elenco: Jared Leto, Ellen Burstyn, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Keith David, Louise Lasser, Mark Margolis
Duração: 100 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.