Crítica | Resident Evil 3: A Extinção

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estrelas 3

É clara como água o quanto as adaptações de games nos cinemas são fadadas a ter uma aura “maldita” em torno de si, e não digo isto somente pelas conhecidas obras de arte de Uwe Boll, mas pelo fato de que há pouco agrado nessas tentativas. A franquia Resident Evil, embora popular e satisfatória entre os aficionados pelo jogo, nunca foi bem recebida pelos demais, incluindo aí o trucidamento da crítica especializada sobre os filmes (alguns, com bastante razão). Não é toda hora que temos um novo Terror em Silent Hill.

Mas a coisa mudou (não muito, mas mudou) com Resident Evil 3: A Extinção, sequência que confere um seguimento natural aos efeitos do T-Vírus sobre o mundo. Paul W. S. Anderson permanece como roteirista (algo que oscila entre bênção e maldição), e quem assume a cadeira de direção na vez é Russell Mulcahy, que como poucos lembrar, já teve seus próprios dias de ouro nos anos 80 com o envelhecido Highlander – O Guerreiro Imortal. Como diretor, Mulcahy é mais firme e consistente que Anderson e Alexander Witt (do tenebroso segundo filme), sabe explorar visualmente a decadência árida que tomou conta do planeta e sabe divertir com suas cenas de ação, embora tudo isso jamais se sobreponha a mais um roteiro extremamente conveniente apenas quando lhe é necessário.

Novamente, não há muito o que falar sobre a trama: o mundo, agora tomado por espaços secos e desertos após a devastação causada pelo T-Vírus, é habitado por sobreviventes que fogem constantemente dos mortos-vivos, enquanto que Alice (Milla Jovovich) segue sua jornada ampliando seus poderes, porém constantemente vigiada pela impiedosa Corporação Umbrella. Sabendo que não há muito o que extrair daí, até porque tais possibilidades nem mesmo existem, Mulcahy demonstra uma bem-vinda preocupação em trazer uma ambientação condizente com o lugar sujo e perigoso que a Terra se tornou. Os planos abertos são eficientes em transmitir a solidão que toma conta dos personagens, e ajuda o capricho na direção de arte e nos figurinos, que conseguem relatar o quanto aqueles rostos já andaram pelo mundo.

Mulcahy também é habilidoso em levar os primeiros minutos da projeção com um leve tom de bom-humor que, se não chega a fazer com que nos importemos com quem quer que seja, funciona como contraponto funcional às cenas de ação bem filmadas e com uma crueza maior que nos filmes anteriores: o ataque dos corvos reserva um nível decente de tensão (referência à Os Pássaros, talvez?) e apuro visual, assim como o ataque dos zumbis em Las Vegas, onde o diretor explora com eficácia os elementos presentes e a movimentação naquele espaço. Lembranças com a atual situação de The Walking Dead serão inevitáveis.

Mas se há um problema que persiste em Resident Evil é a ingenuidade de seu roteiro que, lotado de personagens estereotipados, diálogos canhestros (reparem na última fala do vilão), detalhes que parecem encontrar dificuldades para serem esclarecidos (não há nenhuma justificativa clara para a transformação do Dr. Isaacs) e muitos vai-e-vens óbvios, apenas sabota a diversão e a leva para o lugar-comum, e nisso somamos a contínua necessidade em abusar de sons e aparições repentinas para assustar, recurso abusivo que detona o quanto os envolvidos ainda necessitam amadurecer com a franquia. E no caso Resident Evil 3, ainda somos “presenteados” com um monstrengo de última hora que está ali apenas para dificultar um pouco mais a jornada de Alice, o que leva o filme há uma barriga de quinze minutos sem qualquer funcionalidade.

Se Resident Evil 3 supera relativamente seus antecessores, é graças ao dedo experiente de Mulcahy, que enriquece a franquia enquanto entretenimento com seu bom apuro do que ocorre em cena, o que torna ainda mais lamentável a presença de tantos erros primários em algo que, sim, tem potencial para mais.

Resident Evil 3: A Extinção
Direção:
 Russell Mulcahy
Roteiro: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Ali Larter, Oded Fehr, Iain Glen, Ashanti, Christopher Egan, Spencer Locke, Matthew Marsden
Duração: 94 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.