Crítica | Resident Evil 4: Recomeço

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estrelas 2

Para os fãs, Resident Evil dificilmente já foi Resident Evil em algum momento. O Hóspede Maldito ainda denotava alguma tentativa em se aproximar do tom de horror dos games ao buscar óbvias inspirações em George A. Romero, mas a ligação com os jogos se diluia quando deram vida à Alice (Milla Jovovich), personagem inexistente na franquia da Capcom. Era dada a largada para as pedradas não só dos aficionados.

Após a franquia se assumir como uma série de ação, e chegando neste quarto filme, percebemos que o que mais interessa para o diretor Paul W. S. Anderson (roteirista de todos os filmes) é se apegar a elementos já conhecidos do game e colocá-los ao lado de suas ideias próprias, e nisso fazer dos filmes mais um exercício estilístico para o diretor do que um constante  fan service, termo que abomino, mas bastante cabível aqui. E nisso, dá até pra confundir Resident Evil com cinema autoral.

O fato é que, após três filmes não tão bem sucedidos (apesar do divertido terceiro episódio), o retorno de Anderson para a direção e sua liberdade criativa concedida após a rentabilidade dos filmes parece nos ter feito vislumbrar uma luz no fim do túnel para o crescimento maior da própria franquia, por mais que Resident Evil 4: Recomeço apenas sugira um bom número de novas ideias, mas se deixe estagnar nos próprios cacoetes insiste em pouco se preocupar com suas funcionalidades. Em resumo, Recomeço ainda parece mais um ensaio.

Dessa vez há menos história para Anderson contar, e quase que ignorando tudo o que já fora plantado nos filmes anteriores, isola Alice em sua busca vingativa contra a Corporação Umbrella, responsável por criar e deixar escapar o mortal T-Vírus, que transforma os mortos em zumbis. Se deparando com alguns novos (e estereotipados) personagens que desejam chegar até o Arkadia, um navio que oferece comida e proteção, o diretor segue uma narrativa bem desenvolta sobre o que deseja explicitar, mas que quando vista de perto, pouco oferece em termos de interesse, apesar da nova estética sombria e acinzentada ser interessante, ressaltada pela tecnologia 3-D que confere uma boa profundidade de campo.

Aliás, para ressaltar que Recomeço está mais para um “capítulo de treinamento” para Anderson, estão lá os inúmeros pretextos para potencializar a ação quando necessário através da tecnologia tridimensional que, sim, impressiona e cumpre sua função de deleite visual, algo que seria aprimorado no capítulo seguinte da franquia. Mas aqui, Anderson ainda parece pouco familiarizado com a tecnologia e apenas faz o óbvio com ela, chegando ao ponto incompreensível de fazer um monstrengo surgir do nada (e sabe-se lá de onde) apenas para dificultar a jornada dos personagens e fazer um machado gigante voar na direção do público. Divertido? Sim. Gratuito? Mais ainda.

Mas o fato é que, mesmo que ainda imaturo, Recomeço é o primeiro da franquia (e isso após três filmes) que realmente parece ter noção do potencial sensorial que algo como Resident Evil pode oferecer, mesmo que jamais se aproximando do clima de horror claustrofóbico dos jogos. Há boas intenções, há esforço por parte dos envolvidos, mas os filmes ainda precisariam de mais.

Resident Evil 4: Recomeço (Resident Evil: Afterlife) — Alemanha/ França/ EUA/ Canadá, 2010
Direção:
 Paul W.S. Anderson
Roteiro: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Ali Larter, Wentworth Miller, Kim Coates, Shawn Roberts, Sergio Peris-Mencheta,  Spencer Locke
Duração: 97 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.