Crítica | Resident Evil 5: Retribuição

estrelas 3

Após alguns (vários) filmes e uns poucos (muitos) milhões de dólares, já não era nenhuma surpresa até onde a franquia Resident Evil iria chegar. Em seu quinto capítulo, e até mesmo antes disso, os zumbis mutantes da franquia de games da Capcom nos cinemas já denotavam cansaço dentro de histórias que, se evoluíam em a cada em ambientação, já se repetiam na constante de situações acumuladas que apenas serviam como desculpa para uma sucessão de tiros, explosões e slow motions, isso permeado por uma gama de personagens estereotipados e mil frases de efeito, até o momento, sem efeito algum.

Mas o que de mais interessante aconteceu na franquia Resident Evil, assim como seu principal realizador Paul W. S. Anderson, foi a percepção coletiva tão explicitada neste quinto capítulo, e que nos anteriores estava apenas anunciada, de que a mais popular adaptação de uma série de jogos estava mais para uma “nova” forma de se engajar numa linguagem narrativa menos técnica e mais experimental. Se Anderson deixou claro que Recomeço começava a ser um estudo cênico do espaço, Retribuição (que aliás, ainda não descobri que retribuição é essa) eleva essa ideia a uma nova potência ao adotar, sem amarras, a estética de video-game filmado, o que lhe cabe perfeitamente para suas experimentações visuais de campo, e não só isso, é também um capítulo de algumas boas novas ideias.

Depois de tanto corre-corre, é realmente difícil ter uma noção de onde realmente está nossa protagonista Alice (Milla Jovovich), mas basta dizer que sua busca por vingança contra a Corporação Umbrella segue incessante, que aqui aprisiona Alice numa espécie de complexo que, veja só, simula realidades experimentais que muito se assemelham as fases dos jogos que precisam ser vencidas nos populares jogos eletrônicos. Mais uma vez, Alice terá ajuda para escapar de mais esse desafio, assim como irá se deparar (numa artifício inteligente do roteiro) com o retorno de alguns rostos já conhecidos da franquia.

Salta primeiro aos olhos a grandiosidade aplicada pela tecnologia 3D, que realça tanto a profundidade campo quanto o impacto visual das cenas, como a impressionante abertura em skip back. E já com extrema consciência do que sua franquia se tornou, Anderson enxerta um quê de auto-ironia nos diálogos (a brincadeira com a roupa de Alice dialoga diretamente com o que muitos haters sempre apontaram sobre a sexualização nas roupas minúsculas e apertadas de Jovovich), e até mesmo se dá a liberdade de construir sua própria metalinguagem cinematográfica, não apenas resumindo-a com a semelhança narrativa dos jogos: “Uma arma é como uma câmera. É só apontar e atirar.”

Pra além das pequenas boas sacadas do roteiro (que não valem ser ditas aqui, é muito delicioso descobri-las por si só), o quinto capítulo desperta uma satisfatoriedade pelo retorno de rostos antigos (Michelle Rodriguez é péssima atriz, mas como conter um sorriso quando sua personagem Rain aparece com uma metralhadora em mãos) e que servem bem aos propósitos de potencializar os vários tiros e confrontos corporais. Anderson também amadurece na composição de suas cenas de ação, apesar de suas óbvias inspirações em Matrix ainda soarem mais como uma forma desesperada de se firmar como um grande maestro dessas cenas.

Mas após tantos anos, é de se impressionar que a franquia, enfim, comece a funcionar após as tentativas pouco bem-sucedidas dos longas anteriores em firmar sua identidade. Retribuição é o primeiro que diz para o quê a franquia existe, seja para seu próprio realizador ou para o público, e é uma pena que esse auge só tenha sido atingido tão perto do fim.

Resident Evil 5: Retribuição (Resident Evil: Retribution) — Alemanha, Canadá, França, EUA, Reino Unido, 2012
Direção:
 Paul W.S. Anderson
Roteiro: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Sienna Guillory, Michelle Rodriguez, Aryana Engineer, Bingbing Li, Boris Kodjoe, Johann Urb
Duração: 96 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.