Crítica | Resident Evil: O Hóspede Maldito

estrelas 2

Há mais do que um apego do diretor Paul W. S. Anderson pelas adaptações cinematográficas de videogames populares. Há um forte quê de fetiche, de fato, isto devido muito ao estilo e identidade firmados pelo diretor em cima dessa estética, que se estende também para seus filmes não-baseados em games, por vezes funcionais (Corrida Mortal), por vezes equivocadas (Pompeia).

Resident Evil: O Hóspede Maldito deu vida à uma das mais longevas franquias que não apenas se baseiam em games, mas que ostentam o orgulho de adotar essa estética em prol de um espetáculo de horror que se mistura ao sci-fi de maneira até inusitada e de claro potencial, algo claramente sob o comando de um Anderson consciente de onde está se metendo. E é por isso lamentável o desperdício do que poderia ter sido um grande exercício de gênero e menos de técnica/estética, especialmente considerando o quão mal envelheceu O Hóspede Maldito.

E pouco adianta se estender em explanações sobre a trama de Resident Evil quando até minha avó centenária já sabe do que se trata a Umbrella Corporation, o vírus mutante e as intermináveis missões da protagonista Alice (Milla Jovovich, inexistente no jogo) ao longo da franquia. E considerando que Anderson perde pouquíssimo tempo estabelecendo seus personagens iniciais, apenas ratifica a ideia de que o que interessa em Resident Evil está para além do desenvolvimento de sua história, personagens e blá blá blá.

E há uma clara noção, para o próprio espectador, de que Resident Evil começa, antes de tudo, como um filme-homenagem para suas fontes de ideias, estilo e ambientação. Os 30 minutos iniciais, bem explanados e eficazes em estabelecer a rápida compreensão da situação, inegavelmente remetem ao horror dos filmes de George Romero alimentados por toques contemporâneos e tecnológicos que casam organicamente com a proposta de Anderson. E se logo de cara não há interpretações ou rostos carismáticos o suficiente para se interessar (alguns irão se provar involuntariamente cômicos lá pelas tantas), é no clima sugestivo sobre o que há por detrás das portas da Umbrella que O Hóspede Maldito nos fisga.

Mas isto não dura muito, e é curioso que, numa obra com temática zumbi, os próprios mortos-vivos tragam os primeiros problemas. Pois à partir do primeiro momento que os monstros aparecem, Anderson se perde num jogo de corre-corre e barulheira desmedida (a trilha de punk-rock de Marilyn Manson e Marco Beltrami mais distrai do que acrescenta) que dilui a diversão e deixa a impressão de que o filme acaba mais rápido do que deveria. O Hóspede Maldito perde sua identidade e cai no famigerado lugar-comum.

E se o plano final deixa a promessa de uma sequência mais aberta a oportunidade de aproveitar o efeito apocalipse zumbi, O Hóspede Maldito acaba se limitando ao entretenimento ligeiro, pouco inventivo, e do qual há pouco para se orgulhar de seu datado exercício de técnica e estilo.

Resident Evil: O Hóspede Maldito (Resident Evil) — Reino Unido/ Alemanha/ França/ EUA, 2002
Direção:
 Paul W.S. Anderson
Roteiro: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Michelle Rodriguez, Ryan McCluskey, Indra Ové, Heike Makatsch, Jaymes Butler, Stephen Billington
Duração: 100 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.