Crítica | Réveillon Maldito

                                                     

Há filmes que são muito ruins, mas não deixam de serem merecedores de um texto que se debruce e através de muito esforço, venha a torná-lo um objeto de análise. Reveillon Maldito, slasher lançado diretamente em VHS no Brasil, é um destes casos. O filme é uma interessante radiografia da cena urbana estadunidense no período de transição entre os turbulentos e vanguardistas anos 1970-1980: há gangues, muita maquiagem, violência extrema e caixas de som “explodindo” ao som do punk rock.

Todo este cenário é palco para a representação de mais um filme de assassinatos em datas comemorativas. É certo que Wes Craven é um dos pioneiros na temática, haja vista que produziu o seu Aniversário Macabro em 1973, tendo Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter como espécie de precursor desta indústria de filmes envolvendo datas e crimes brutais. Apesar de ser clichê e cheio de problemas no que tange aos ditames da condução narrativa, Reveillon Maldito é anterior ao processo de saturação da temática. Antes dos pesadelos com Freddy Krueger, das chacinas protagonizadas por Jason Voorhees e das numerosas continuações do maníaco mascarado Michael Myers, o campo dos filmes de terror conheceu “Evil”, um psicopata abobalhado que decide atacar na noite de réveillon.

Dirigido por Emmet Alston, com roteiro assinado em parceria com Leonard Neubauer, Réveillon Maldito, como todo slasher, começa com uma cena de assassinato para tentar estabelecer o clima. Há uma cortina, uma goteira indevida no camarim: alguém por acaso pensou em Psicose? Se pensou, é bem coerente, tendo em mira que o primeiro assassinato ocorre através de uma cortina, com uma lâmina bastante afiada. O assassino utiliza luvas pretas, numa espécie de aproximação com os giallos, produções italianas com características específicas e que foram imitadas numerosas vezes pelo cinema hollywoodiano, canadense, bem como das demais cinematografias europeias.

O filme nos leva para o próximo ato. O “projeto” de final girl da produção é Diane Sullivan (Roz Kelly), uma famosa apresentadora de rádio local. Ela festeja com o seu público uma versão especial do seu programa, situado na noite de véspera do Ano Novo, com direito à ligações dos ouvintes solicitando as suas canções prediletas. Como nos Estados Unidos há quatro momentos diferenciados para a contagem regressiva clássica das 23:59, por conta do fuso horário, o psicopata denominado Evil liga para o programa e diz que cometerá crimes a cada badalar de um relógio indicando meia-noite. Se tudo fosse assim, ótimo. Mas o filme, ao tentar forçar o máximo a barra por conta da necessidade de manutenção dos crimes na tal noite de festividade, começa a recorrer à abusos que tornam o roteiro uma piada e a narrativa arrastada, absurda e que provoca risos, ao invés de situar o nível de tensão que se espera de um enredo deste tipo.

Há de se pensar se o diretor Joseph Zito, de Sexta-Feira 13 parte 4 – O Capítulo Final, não se inspirou na enfermeira deste filme para o epílogo do quarto episódio da franquia do Jason. Coincidência ou não, há uma cena bem curiosa e típica dos filmes deste gênero. Uma enfermeira, profissional que deveria estar cuidando dos seus pacientes, resolve relacionar-se sexualmente com um colega de trabalho durante o expediente. Loira, com performance caricata e “jeito” lascivo, a personagem é surpreendida pelo parceiro sexual e solta a pérola: “só conheço você há dez minutos, mas isso não faz diferença, não esta noite”. Ao proferir este único e “profundo” diálogo em cena, a moça assina a sua sentença de morte, por sinal, sangrenta, mas não apresentada ao público, pois as elipses vetam a postura voyeur do espectador em acompanhar os tais assassinatos brutais.

Ademais, esteticamente tudo é horroroso: os personagens são caricatos, a maquiagem é circense, os conflitos praticamente inexistem e a máscara do antagonista parece retirada de uma comédia dos Trapalhões. A mixagem de som tenta causar algum tipo de efeito nos raccords sonoros, mas a transição entre gritos e outros sons não funciona adequadamente, tornando a experiência tediosa para o espectador mais exigente. Algumas cenas ao estilo Os Embalos de Sábado à Noite são mal conduzidas, numa espécie de germe de videoclipe que não consegue alcançar um processo narrativo que evolua.

O figurino não possui nada de especial porque apenas aproveita-se das roupas da própria época, com personagens que expressam as suas respectivas rebeldias através do vestuário. A montagem precisa dar conta de três eixos: as trapalhadas e o modus operandi do psicopata, o filho perturbado da apresentadora “desviada” e as cenas de música e dança envolvendo o público do evento promovido pela protagonista. Nenhum dos “núcleos” consegue apresentar consistência ou causar simpatia no espectador, pelo contrário, a apresentadora é tão apática e egoísta que a torcida pelo antagonista acaba se tornando mais numerosa que o esperado. A fotografia “suja” também não ajuda, somada ao final que deixa espaço para uma continuação (obrigado, senhor!) que nunca existiu.

Interessante notar que o ego do psicopata em orgulhar-se dos seus crimes e registrá-los através de alguma mídia tecnológica não foi prerrogativa da dupla psicopata do ótimo Pânico 4 e seus assassinatos postados nas redes sociais. Já em Réveillon Maldito, o serial killer da vez grava os gritos de pavor das suas vítimas e os transmite nas ligações que faz para a apresentadora do programa, personagem alvo dos seus ataques. Apesar do recurso tecnológico diferenciado, haja vista a época e a disponibilidade, o filme já apresentava um assassino preocupado com os recursos memorialísticos dos seus crimes, o que não torna a produção menos desprezível e talvez um dos piores filmes do gênero lançado nos anos 1980.

Esse slasher foi promovido pela Cannon Films, a mesma produtora de outras pérolas dos anos 1980-1990, como a saga Desejo de Matar, protagonizada pelo canastrão Charles Bronson, bem como os filmes do seu colega de profissão, o “detonador de inimigos” Chuck Norris. E por fim, haja encontros e desencontros metalinguísticos neste filme: o cartaz original nos remete ao clássico moderno Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Qualquer semelhança, entretanto, é mero abuso por uma coincidência, pois essa pérola esquecível do gênero terror em nada se aproxima do teor psicológico e estético promovido pelo mestre da cinematografia moderna, sendo talvez, um recurso de identificação para atrair espectadores.

Réveillon Maldito  (New Year´s Evil) – Estados Unidos. 1980.
Direção: Emmett Alston.
Roteiro: Emmett Alston e Leonard Neubauer.
Elenco: Roz Kelly, Kip Niven , Chris Wallace, Grant Cramer, Louisa Moritz, Jed Mills, Chris Wallace, Grant Cramer, Jeannie Anderson, John Alderman, John London.
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.