Crítica | Revenge (A Série Completa)

estrelas 3,5

Amor, guerra, sequestro e a vingança são temas recorrentes no cinema, na literatura e nas demais artes. Sentimento ancestral e com trânsito intenso na contemporaneidade, como apontou Francis Bacon, “a vingança é uma espécie de justiça selvagem”. A sua compreensão ganha variações a depender do contexto cultural: no Japão feudal, por exemplo, tal atitude é tida como uma espécie de honra da pessoa acometida por uma ação. A Bíblia também trata desta questão: o lema “olho por olho”, presente no livro Êxodo, do Velho testamento, capítulo 21, versículo 24, é uma das passagens emblemáticas, sem falar no Deus de vingança que perpassa toda a primeira parte da obra literária mais famosa e polêmica da história.

Em Hamlet, uma das peças mais famosas do dramaturgo William Shakespeare, a vingança é o ponto de partida para o desenvolvimento dos atos, pois depois da revelação do assassinato de seu pai, o jovem Hamlet resolve se vingar, tornando-se um reparador da injustiça no reino da Dinamarca. Muito antes, entretanto, na Grécia Antiga, Medéia, de Sófocles, possibilitou a construção de tempestivas encenações através desta temática.

No cinema e na literatura as abordagens são numerosas: Kill Bill, A Noiva Estava de Preto, Sexta-Feira 13, V de Vingança no cinema; O Conde de Monte Cristo, Senhora e Moby Dick, na literatura. De acordo com a sabedoria popular, “a vingança é um prato que se come frio”. Já no bojo da indústria cultural, a vingança é um prato quente para o aquecimento das relações entre as narrativas audiovisuais e o público.

Em Revenge, série concebida por Mike Kelly, somos apresentados a um dos temas mais recorrentes na história do teatro, da literatura, e, por tabela, do cinema e da televisão: o instigante e perigoso desejo de vingança. Assumidamente baseada em O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, para a construção do seu argumento inicial, a série nos apresenta Emily Thorne (Emily VanCamp) de volta aos Hamptons, seu lar de infância, tendo em mira vingar a condenação e suposta morte de seu pai, David Clarke (James Tupper), um homem traído pelas pessoas que confiou, sendo responsabilizado por um ataque terrorista de proporções catastróficas no passado.

Durante a sua infância sofrida, Emily, que na realidade é o disfarce de Amanda Clarke, viveu em lares de adoção e, posteriormente, passou boa parte da adolescência num reformatório. Ao sair, recebe das mãos de Nolan Ross (Gabriel Mann) uma caixa contendo toda a verdade até então escondida: o seu pai havia sido vítima de um meticuloso jogo de traição. O que inicialmente pareceu um tormento, pois foi levada a acreditar que o seu pai era um assassino, mudou com o recebimento destas valiosas informações.

Tomada pelo desejo de vingança, a moça retorna ao local, com dinheiro suficiente para manter o seu disfarce, tendo como apoio o arauto das mensagens póstumas de David Clarke, o anteriormente citado Nolan Ross, um excelente especialista em informática. Em seu plano de vingança, o foco é a família Grayson, formada pelo casal Conrad (Henry Czerny) e Victoria (Madeleine Stowe). Para aproximar-se da família, ela se aproxima de Daniel Grayson (Joshua Bawnan) e através do seu charme e carisma, “prende” o rapaz, mantendo-se próxima, também, da futura cunhada Charllote Grayson (Christa B. Allen). A garota também conta com a ajuda de Ashley Davenport (Ashley Madekwe), assistente de Victoria Grayson, responsável por conectá-la ao “clã”.

Em sua primeira temporada, temos um episódio que nos deixa claro que “esta não é uma história sobre perdão”. Seguindo a linha maquiavélica de que “os fins justificam os meios”, Emily chega ao local planejado, adquire a casa de uma peça chave do jogo vingativo, elimina vários participantes da traição, incluindo uma psicóloga, um candidato a senador, a melhor amiga de Victoria Grayson e outros coadjuvantes do caso que condenou David Clarke.

Na segunda temporada, Emily continua com a sua vingança, descobre que a sua mãe ainda está viva e diante de tantas dispersões, retorna ao Japão, interessada em reorganizar a sua agenda de vinganças e se reequilibrar. Perdida entre os seus sentimentos por Jack, Daniel e Aiden, a heroína vai contar com a ajuda de Takeda para colocar os seus planos no lugar. Ao contrário do que pensávamos no final da primeira temporada, Victoria está viva, pois o acidente de avião foi apenas uma mera encenação para que ela se reorganizasse. Eis que surge a Iniciativa, corporação responsável pela queda do voo 197. Helen Crowley (Wendy Crewson) surge como a representação física da empresa, obstáculo no caminho de todos, inclusive de Emily e Victoria.

Após desavenças com a produção, Mike Kelley se demitiu do programa e deixou a condução ao cargo de Sunil Nayar. Com um ritmo razoável e várias dispersões nos caminhos de todos, a temporada segue o que tendo chamado de “Síndrome de The Walking Dead”: episódios arrastados e cansativos e geralmente muita adrenalina nos momentos finais, tendo em vista compensar o marasmo durante quase toda a temporada. Destaque para o desfecho, com a revelação bombástica de que David Clarke está vivo, a morte de Conrad Grayson e o duelo entre Emily e Victoria num cemitério.

Na quarta e última temporada, novos personagens surgem para dar mais ritmo. Louise (Elena Satine) aparece como uma surtada riquinha que conhece Victoria no sanatório (veja o final da terceira e entenderá) e interessada na matriarca da tempestuosa família Grayson, segue os seus passos. Jack, agora um policial, tem como parceiro Ben Hunter (Brian Hallisay), rapaz que entra na história apenas para dar uns apertos em Emily e morrer violentamente próximo ao final.

Centrada na rivalidade entre Victoria e Emily, a temporada também ganha novo rumo do meio para o final, com Margaux Lemarchal (Karine Vanasse) interessada em sem se vingar de Emily. Todo este reinício não deu em muita coisa, pois o cancelamento foi anunciado durante a veiculação dos episódios finais. Com um desfecho clichê e um final anticlimático e mal feito, a série perdeu o brilhantismo dos primeiros episódios e encerrou a sua jornada sem fôlego.

No que tange aos aspectos semióticos, Revenge possui uma estrutura bem elaborada: a série não segue o óbvio padrão linear, e, ao investir numa montagem eficiente, aproxima-se das narrativas cinematográficas. Os ganchos entre os cortes que determinam os intervalos comerciais seguem bem a cartilha folhetinesca dos bons romances do movimento romântico do século XIX: distribuem a ação durante o episódio, com montanhas-russas de emoção ao longo dos 42 minutos de duração. Isso, quando estamos diante de uma sequência de bons episódios.

Em relação aos demais aspectos visuais, a série é eficiente e cuidadosa, ganha com facilidade os admiradores de um bom design de produção e uma competente direção de arte, principalmente por conta do equilíbrio que há entre os feixes verbais e visuais, em especial, na primeira temporada. De acordo com relatos dos produtores, o estilo implantado para o espaço cênico buscou inspiração em filmes como Janela Indiscreta e Psicose, com atenção específica para o ponto de vista, a dinâmica entre as protagonistas, principalmente no que se refere ao posicionamento de suas casas.

Com uso equilibrado de chroma-key, Revenge soube utilizar os seus registros visuais para a projeção em 1080p (resolução de imagem com 1080 linhas horizontais e verticais de varredura progressiva), graças ao excelente visual possibilitado pelas câmeras digitais Arri Alexa, pouco populares quando a série estreou. Sendo assim, diante do exposto, no que concerne aos aspectos semióticos, Revenge não apresentou problemas narrativos. Os seus ruídos estiveram sempre no desenvolvimento do roteiro, em especial, no desenrolar da segunda e da terceira temporada, longas e confusas, bem como o fatídico e último ano, com uma temporada mais perdida que naves espaciais em filmes de ficção científica.

Ao observamos a estrutura geral, é possível observar que Revenge não deveria ter temporadas. Não há história suficiente para isso, principalmente em períodos anuais de 22 episódios. Uma minissérie daria conta do recado e marcaria a memória da televisão, mas os interesses financeiros falaram mais alto e os produtores levaram a série até quando puderam.

Até o último episódio da terceira temporada, Emily esteve mergulhada nas malhas da vingança: detonar qualquer um que tenha destruído o seu pai fazia parte do plano. Mas o que fazer quando se descobre que David Clarke esteve vivo o tempo todo? Pois é. O pai da garota vingativa foi retirado machucado da prisão durante um motim e levado para a área de trabalho de um perigoso traficante.

É o que descobrimos na quarta temporada, graças ao trabalho de investigação de Emily e Nolan. David, que inicialmente reconhece a paternidade de Charlotte, une-se a Victoria, o que deixa Emily em frangalhos. Mas muitas reviravoltas surgem, como já era se esperar em Revenge. Victoria une-se brevemente a Emily, mas só para salvar a sua pele, Jack entra para ajudar David e Emily na perigosa chegada do traficante do passado na cidade, Charllote interna-se numa clínica para reabilitação e durante uma investida perigosa de Victoria, Emily é atacada por um inimigo, e, ao ser protegida por Daniel, acaba tendo a vida salva, em detrimento do rapaz, que morre tragicamente.

Ao total, Revenge contou com 89 episódios. Tendo como tema de abertura Dissolution, de Izler, a série foi lançada em setembro de 2011 e chegou ao fim em maio de 2015. Madeleine Stowe chegou a ser indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz, mas não venceu. Como curiosidade, Revenge deu origem ao prelúdio em HQ, intitulado As origens de Emily Thorne (tradução livre), além de um livro homônimo, inspirado numa moça também interessada em vingança.

Revenge – A Série Completa (EUA – 21 de setembro de 2011 a 10 de maio de 2015)
Criador e showrunner: Mike Kelley
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Emily VanCamp, Madeleine Stowe, Joshua Bowan, Christa B. Allen, Brian Hallisay, James Tuper, Henry Czerny, Gabriel Mann, Karine Vanasse, Roger Bart, Elena Satine, Wade Willians.
Duração: 89 episódios (42 minutos cada)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.