Crítica | Ricki and the Flash: De Volta Para Casa

estrelas 2,5

Ao assistir  Jovens Adultos em 2012, percebi que o trabalho de Diablo Cody em Juno não fora sorte de principiante. Porém, agora me encontro confuso, porque mesmo tendo faturado um Oscar com sua estreia no maravilhoso filme com Ellen Page, Cody não parece encontrar um porto seguro em sua carreira, que transitou entre o mediano terror cômico Garota Infernal e o subestimado filme com Charlize Theron. Agora, a comédia musical Ricki and the Flash: De Volta para Casa representa mais um deslize em sua filmografia, decepcionando também por tratar-se do primeiro filme de Jonathan Demme em 7 anos.

A trama nos apresenta à roqueira Ricki Rendazzo (Meryl Streep), guitarrista e cantora da banda The Flash em Los Angeles. Sem dinheiro ou muito sucesso, ela precisa voltar à sua casa para ajudar a confortar sua filha Julie (Mammie Gummer), deprimida pelo fim de seu casamento.

Você já viu esse tipo de premissa pelo menos um milhão de vezes no cinema, literatura e televisão. Era de se esperar que Cody trouxesse algo ácido e inteligente – como geralmente se propõe a fazer – mas fica a triste constatação de que é uma obra irritantemente presa no lugar comum. As óbvias diferenças entre a radical Ricki e sua família careta estão lá, trazendo Kevin Kline num decepcionante piloto-automático, assim como as previsíveis transformações que sua presença trará na casa. Como todo bom clichê, é agradável ver como Ricki é muito mais eficiente em cuidar da depressão da filha do que o pai certinho, mas, novamente, não é nada que já não tenhamos visto em alguma Sessão da Tarde da vida. A propósito, o desnecessário subtítulo nacional indica que o longa estará confortável nas diárias sessões de cinema vespertinas da TV aberta.

O que nos leva à personagem titular (Ricki, não o Flash). Ricki Rendazzo é, assim como a Mavis Gary de Jovens Adultos, uma mulher presa no tempo, que ainda se deixa levar por glórias do passado e sonhos não realizados. A diferença é que Ricki parece feliz em sua situação, e é aí que a performance da sempre radiante Meryl Streep realmente dá vida ao mediano roteiro de Cody. Seu cabelo com tranças e o figurino saído diretamente dos anos 80 garantem forte presença à Ricki, e Streep se sobressai quando atua cantando e tocando guitarra. Não digo que Streep mereça mais uma indicação ao Oscar (um Globo de Ouro em Musical ou Comédia é mais do que suficiente), mas a atriz realmente é a responsável por salvar o filme.

E quanto a Jonathan Demme, que um dia nos presenteou com o imortal O Silêncio dos Inocentes? Bem, o diretor é ousado por apostar em diversos diálogos sem cortes, geralmente em um longo plano com um lentíssimo zoom que culmina em alguma reviravolta – como quando Ricki recebe a ligação de seu ex-marido, marcando o primeiro incidente catalisador da história. Com exceção desses planos longos, não é um trabalho realmente memorável, e nos lembra bem mais a estética de O Casamento de Rachel do que o suspense de Hannibal Lecter.

Ricki and the Flash: De Volta para Casa fornece mais uma curva estranha na filmografia de Diablo Cody, ficando muito abaixo de sua promissora estreia, em 2007. Meryl Streep é, como esperado, a grande atração, e fica a esperança de que Diablo Cody decida o que fazer de sua carreira.

Ricki and the Flash: De Volta para Casa (Ricki and the Flash, EUA – 2015)
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Diablo Cody
Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Mammie Gummer, Sebastian Stan, Rick Springfield, Rick Rosas, Joe Vitale, Berni Worrell, Ben Platt, Peter C. Demme, Keala Settle, Joe Toutebon
Duração: 101 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.