Crítica | Ring 0: O Chamado (Ringu 0)

estrelas 3,5

O grande problema e temor em relação a prelúdios é justamente o quão bem a obra irá se vincular à original. Poucas são aquelas que conseguem se unir de forma tão orgânica que chega até a melhorar o seu sucessor cronológico – um exemplo dessas raridades foi o recente Rogue One: Uma História Star Wars, enquanto que podemos citar Prometheus e toda a trilogia prelúdio da saga criada por George Lucas como motivos para termos receio de prequels. O sucesso dos dois primeiros longa-metragens de O Chamado, evidentemente, acabaria gerando mais um filme, especialmente depois que Koji Suzuki, autor dos livros originais, começara a trabalhar em contos sobre a origem de Sadako. Eis que surge Ringu 0: Bâsudei, que promete nos mostrar a origem de toda a história da garota no poço.

 A história tem início com Akiko Miyaji (Yoshiko Tanaka), uma repórter cujo marido morrera no escândalo envolvendo a mãe de Sadako (Yukie Nakama) e que agora está em busca da menina. Após uma entrevista com uma das professoras de infância da garota, que já nos mostra os estranhos eventos que circulavam em torno dela desde cedo, encontramos uma Sadako com 19 anos, parte de um grupo de teatro, no qual entrara para tentar fugir de seus pesadelos que a assolavam durante as noites. A obra acompanha a relação da garota com os outros membros do grupo enquanto a repórter continua a buscando.

Mais que um filme de terror, Ring 0, estabelece uma atmosfera forte de thriller psicológico, que devidamente explora o preconceito em relação a Sadako por parte dos outros personagens. O roteiro de Hiroshi Takahashi gera um sentimento de claustrofobia no espectador, que surpreendentemente se identifica com Sadako, a protagonista – ficamos profundamente angustiados com o comportamento dos outros em relação a ela, a tal ponto que torcemos para que, de alguma forma, a garota com poderes sobrenaturais acabe com todos eles até o final.

De fato, o texto da obra estabelece um paralelo imediato com Carrie: A EstranhaO Fantasma da Ópera (a famosa máscara chega até a aparecer durante o filme) – é inevitável que comparemos a obra em questão com essas duas e Ringu 0 consegue aproveitar o que há de melhor nessas duas, dispensando qualquer forma de maniqueísmo, ao passo que oferece justificativas mais que plausíveis para qualquer uma das ações dos personagens. É preciso atenção do espectador, porém, já que o roteiro abandona qualquer tipo de didatismo e apresenta algumas dessas motivações apenas uma vez.

O grande problema da obra se encontra nos seus trechos finais, quando, ao invés de procurar encaixar tudo da forma mais orgânica possível, ela insere novos elementos que são completamente desnecessários e que rapidamente desaparecem, nos deixando mais dúvidas do que explicações. Felizmente, o filme consegue se unir bem ao original, não deixando muitas pontas soltas, ainda que gostaríamos de ver a criação da famigerada fita de vídeo, que jamais dá as caras aqui. Uma exploração maior dos eventos sobrenaturais que circundam a menina também ficou faltando, o que seria muito mais engajante que o romance adolescente forçado que surge entre Sadako e um dos rapazes do teatro.

Felizmente, a direção de Norio Tsuruta sabe construir muito bem tanto uma atmosfera de romance, quanto a de terror. Seus planos e contra-planos muitas vezes nos lembram o trabalho de Brian de Palma em Carrie e, nos trechos finais, o diretor consegue resumir muito bem o que significa ter medo de Sadako, limitando a aparição da menina, favorecendo um terror mais psicológico que expositivo. O assustador desfecho ainda nos deixa desesperançados tamanha a força da cena final, que consegue apagar, com os gritos de Sadako, nossas memórias dos deslizes da obra.

Dito isso, Ring 0: O Chamado consegue se firmar como um bom prelúdio, ainda que não conte com a força do filme original. Estamos falando de um filme que aposta mais na tensão criada pela maneira como a protagonista é tratada, que pelas cenas de terror em si. Isso, contudo, não deve ser enxergado como um defeito, afinal, ninguém quer uma cópia descarada do primeiro longa-metragem. Mesmo com seus defeitos, o filme consegue nos manter fixados em sua narrativa e curiosos pelo destino de cada um dos personagens.

Ring 0: O Chamado (Ringu 0: Bâsudei) — Japão, 2000
Direção:
 Norio Tsuruta
Roteiro: Hiroshi Takahashi (baseado no conto de Kôji Suzuki)
Elenco: Yukie Nakama, Seiichi Tanabe, Kumiko Asô, Takeshi Wakamatsu, Ryûshi Mizukami, Kaoru Okunuki
Duração: 99 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.