Crítica | Rio 2

estrelas 3,5

Carlos Saldanha é um diretor com um ótimo tino para animações divertidas e que falam bem a linguagem do público. Desde a sua primeira experiência como codiretor em A Era do Gelo (2002) e de seu primeiro longa-metragem solo A Era do Gelo 2 (2006), Saldanha vem construindo alguns motivos fílmicos interessantes, personagens com características cada vez mais simples e ao mesmo tempo humanamente complexas, uma trilha que sempre vai cair em uma intricada teia familiar, vide o exemplo de A Era do Gelo 3, Rio e o presente Rio 2.

Depois da adaptação ao Rio de Janeiro, o casamento com Jade e a luta contra os contrabandistas de aves exóticas, Blu agora enfrenta outro de seus grandes medos: o mundo selvagem. Se no filme anterior, a arara azul se defrontou com o medo de voar, neste segundo filme ela vai precisar manter a família unida, adaptar-se à Amazônia, achar Linda e Tulio – perseguidos pelo dono de uma madeireira, tem vê nos pesquisadores uma ameaça ao seu império – e lidar com a ameaça de Nigel, que volta de forma patética e sem nenhuma pinta de vilão para uma participação no mínimo estranha em toda a aventura.

O filme começa com menos atrativo visual e principalmente narrativo do que o anterior, mas a excelente canção de abertura, What is Love (na voz de Janelle Monáe) cumpre um papel de suma importância para dar uma aparência quase épica ao prólogo que se passa na noite de Ano-Novo, com direito a uma gigantesca concentração de pessoas em Copacabana, muita dança, oferendas a Iemanjá e panorâmicas pela Baía de Guanabara, com destaque para o Cristo Redentor e as aves protagonistas da obra mais o Bulldog Luiz.

Do prólogo no Réveillon partimos para o primeiro bloco cênico, ou seja, a vida de casado de Blu e Jade mais os três filhotes, Carla, Bia e Tiago. Jade conserva muito de sua característica natural ou “selvagem”, indo buscar castanha-do-Pará pela manhã ou desejando estar cada vez mais em contato com a natureza, enquanto Blu faz panquecas com os filhos na casa da Reserva criada por Linda e Tulio. As pequenas araras azuis ainda ouvem iPod e assistem TV, ou seja, vivem uma vida completamente domesticada.

Esse início é importante porque cria uma oposição temática com o que vem a seguir: a viagem da família de Blu para a Amazônia, o feliz encontro do Santuário das Araras e o reencontro de Jade e seu pai. Além disso, temos o estabelecimento da família de Blu nesse ambiente novo e ameaçado pela madeireira, um contexto que ainda terá uma cacatua, uma rã pseudo-venenosa e um tamanduá vindos de Manaus. Perceba que não só estamos falando de uma mudança geográfica mas também de algumas tramas paralelas, o que talvez explique o incômodo enigma para uma série de pontos de continuação em relação a Rio. Com um bom número de elementos a serem trabalhados, é evidente que o roteiro não teria tempo de explorar tudo a contento, como deveria ser.

Mesmo que em Rio 2 não tenhamos o mesmo frescor, beleza e novidade em animação vistas em Rio, o toque de Saldanha faz a obra se segurar bem até o final, com boas piadas (embora poucas, pra um filme de apelo massivo e mais infantil, a despeito da temática ambientalista) e configurações de conflitos familiares e de grupos, a exemplo da briga entre as araras azuis e vermelhas por uma região de castanhas e nozes, região essa disputada em uma maravilhosa partida de futebol, um dos momentos mais bem filmados e editados do longa.

O diretor também consegue fazer com que a estranha configuração de Nigel, por exemplo, ganhe ares cômicos e clássicos vez ou outra, com representações operísticas; uma versão caótica mas bastante engraçada de I Will Survive e um plano de fundo que desembocará na tragédia de Romeu e Julieta, embalada pelo ótimo tema de John Powell intitulado Romeo and Juliet’s Unfortunate Demise.

O belo colorido e o capricho das coreografias mais a fofura de algumas personagens ainda permanecem nessa sequência. A trilha sonora – que é ótima – também marca forte presença, exatamente como no primeiro filme, e o tom de festa e confraternização se fixa do início ao final, fechando um ciclo que, na minha opinião, não deve ser reaberto em forma de um Rio 3. A mensagem e a história já deram seus frutos e não necessitam de uma continuação do tipo “após a aventura na Amazônia”. Tomara que Saldanha não caia na armadilha de estender essa saga para além de Rio 2. Espero firmemente que não.

Rio 2 (EUA, 2014)
Direção: Carlos Saldanha
Roteiro: Carlos Saldanha, Don Rhymer
Elenco (vozes originais): Rodrigo Santoro, Anne Hathaway, Leslie Mann, Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, Kristin Chenoweth, Jemaine Clement, Amandla Stenberg, John Leguizamo, Jake T. Austin, Andy Garcia, Will i Am, Rita Moreno, Pierce Gagnon, Bruno Mars
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.