Crítica | Rio, 40 Graus

Rio, 40 Graus é uma narrativa cinematográfica que começa de maneira bem direta no que diz respeito ao registro de sua mensagem: uma sucessão de planos gerais contemplam pontos ilustres da “cidade maravilhosa”, para mais adiante, a câmera flertar com o espaço máximo de representação da desigualdade, através de um zoom in didático e bem acoplado ao momento de abertura da história, trecho de mapeamento dos espaços onde a história se desenvolverá. Dirigido e escrito por Nelson Pereira dos Santos, o filme é uma triste constatação da desigualdade social que afunda alguns brasileiros há eras, desaguando em realizações contemporâneas, tais como o ágil e sofisticado Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. São problemas circulares que parecem nunca ter um projeto de erradicação.

O filme é considerado um prelúdio para Rio, Zona Norte, ao tratar de temas que gravitam em torno de temáticas sociais semelhantes. No calor escaldante da capital metonímica do Brasil, cinco jovens da favela vivem as suas existências miseráveis, vítimas da desigualdade social e do descaso com a população que beira à fome. Enquanto eles vendem amendoim para os transeuntes de locais sofisticados, tais como Copacabana, Pão de Açúcar e o grandioso Maracanã, a câmera enfoca as suas dificuldades cotidianas. Criminalidade, violência, fome, miséria, descaso e a invisibilidade destas figuras tratadas com indiferença por uma elite despreocupada com qualquer causa que não seja o seu modo de vida sofisticado e distante de qualquer sinal de pobreza.

Ao inaugurar uma linguagem numa época em que as produções estavam presas aos modelos clássicos hollywoodianos, Nelson Pereira dos Santos traz toda a sua energia política fermentada pelos ideais do PCB (Partido Comunista do Brasil), tendo como aliado o apego ao neorrealismo italiano e a admiração pelo cinema francês. A garra para fazer dar vazão ao cinema relevante e reflexivo que o Brasil precisava para o momento não significa que esteve isento das dificuldades de produção que são históricas no Brasil. Os negativos para rodar o filme foram contrabandeados, haja vista a incisiva censura. A câmera foi emprestada por ninguém menos que o experiente Humberto Mauro, na época, diretor do INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo).

As dificuldades não foram apenas de ordem operacional. Além dos problemas financeiros e estruturais, Nelson Pereira dos Santos passou pelo crivo da censura, em especial, de um notável perseguidor, chamado Geraldo Meneses Cortes, chefe de Segurança Pública, irritado com as informações que segundo ele, eram deturpadas, pois no Rio de Janeiro o clima nunca havia alcançado 40 graus, mas no máximo 39,6º. Absurdo, não? Onde fica a liberdade artística, o direito à expressão? O militar alegou também que a obra estava repleta de elementos comunistas e que parecia uma produção financiada por Moscou. Fica pior, caro leitor: o censor também demonizou o filme por seu apelo popular e uso constante de gírias, mas não ressaltou as críticas políticas do roteiro, numa demonstração de covardia que demarcou o nosso período militar.

Lançado em 1955, o filme de 100 minutos precedeu o bem recepcionado Vidas Secas, tradução intersemiótica do melhor romance de 30, obra-prima de nossa literatura, assinada pelo mestre Graciliano Ramos. Datado esteticamente, a produção possui imenso valor histórico para o cinema brasileiro, pois foi a mola propulsora para a geração que teve Glauber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Rogério Sganzerla, dentre outros, como parte de um dos movimentos culturais mais importantes de nossa trajetória cultural: o Cinema Novo.

Elogiado por nomes pomposos, tais como o teórico de cinema André Bazin, Rio, 40 Graus é um retrato do morro no Rio de Janeiro sem retoque algum, fotografado por Hélio Silva e acompanhado pela composição musical da dupla formada por Radamés Gnattalli e Zé Ketti, músicos que através do samba, delineiam a presença da Dialética da Malandragem sobreposta no roteiro do filme. Tal como Rossellini fez na Itália, o cineasta Nelson Pereira dos Santos o fez por aqui. Desmontou a construção cênica de um Brasil que posava de democracia racial e terra da felicidade, aplicou o zoom nos meninos vendedores do morro, cheio de dificuldades, denunciou tipos destrutivos, tais como Valdomiro (Jece Valadão) e imigrante charlatão Nacib, além emitir a mensagem de alerta que o público deveria captar para gritar pela mudança.

Escolhido pela ABRACINNE como um dos 100 Melhores Filmes Brasileiros de todos os tempos, Rio, 40 Graus não é palatável para as plateias que estão acostumadas aos temas cômicos do cinema industrial brasileiro contemporâneo, mas é uma obra importante para ser refletida como espelho do Brasil que vivemos agora, uma terra de ninguém entregue aos piores representantes que possamos imaginar, ao público letárgico e inerte aos acontecimentos absurdos e ao constante descaso das instituições.

Rio, 40 Graus — Brasil, 1955
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos
Elenco: Ana Beatriz, Glauce Rocha, Jece Valadão, Jorge Brandão, Mauro Mendonça, Pedro Cavalcanti, Renato Consorte, Roberto Bataglin, Sadi Cabral
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.