Crítica | Rio Bravo

estrelas 4

A Trilogia da Cavalaria de John Ford encerra-se com Rio Bravo (em inglês Rio Grande, o que leva à pergunta: porque eles mudaram o título, por quê, por quê???), excelente obra também protagonizada por John Wayne, no mesmo papel que havia feito em Sangue de Heróis, Kirby Yorke, só que com a patente de tenente-coronel agora (ele fez um papel diferente em Legião Invencível, o segundo da Trilogia).

Há 15 anos longe de sua esposa e filho, Yorke é o comandante de um forte americano na fronteira entre o Texas e o México constantemente atacado por índios que usam o país vizinho como santuário. Sua vida muda quando seu filho Jeff (Claude Jarman Jr.), depois de ser expulso da academia militar de West Point alista-se no exército e acaba, coincidentemente, instalado sob seu comando. Ato contínuo, sua bela esposa, Kathleen (Maureen O’Hara), baixa no forte para levar seu filho de volta, esbarrando na teimosia dos dois e nos ataques dos apaches no meio do caminho.

Com uma fotografia em preto-e-branco tendo o icônico Monument Valley ao fundo, John Ford coloca o Homem em seu devido e diminuto lugar diante da natureza, mas quase que como um detalhe na fita, pois o embate verdadeiro está todo ele na solidão. E, novamente, as tomadas em plano aberto evocam muito claramente a solidão do Homem diante da expansão desértica, mesmo quando ele tenta manter um semblante de civilização.

O mais interessante, porém, é que o roteiro de James Kevin McGuinness, baseado em um artigo de jornal de James Warner Bellah, é enganosamente simples. Há uma perfeita transição entre o drama e a comédia e até o musical com que John Ford sabe trabalhar sem hesitação. Enquanto o tom pesado da solidão de Yorke é capaz de deixar o espectador entristecido, especialmente pela forma dura e fria com que ele trata o filho que não vê há 15 anos, essa atmosfera é quebrada pela inserção diegética e progressivamente mais constante da música, toda ela cantada em tela pelo grupo Sons of the Pioneers, um dos primeiros e talvez o mais famoso grupo de música “caipira” dos Estados Unidos, fundado por Roy Rogers (que, originalmente, se chamava Leonard Slye). Pode parecer estranho em um primeiro momento, mas esses “momentos musicais” realmente funcionam e não só comentam o estado de espírito dos atores, notadamente de Yorke e de Kathleen, como um coral grego, como, também, quebram os momentos mais pesados da fita.

E, no lado da comédia, temos o alívio cômico representado por Victor McLaglen, que vive o divertido e amável Sargento Major Timothy Quincannon. Como treinador dos 18 recrutas recém-chegados (dentre eles Jeff), como soldado e como ponte fazendo a ligação entre todos os atores, McLaglen dá um show de atuação e permitindo que façamos o contraste com a formalidade e dureza do papel de Wayne, também muito bem como Yorke.

Os índios – ou nativos, como o politicamente correto de hoje exige – são retratados como os grandes vilões da história, em oposição direta aos nobres e valentes soldados americanos. Visto pelas lentes atuais, esse maniqueísmo é artificial e talvez até mal-ajambrado, especial porque os nativos são trabalhados como uma amálgama, sem que haja um ou dois apaches mais destacados em relação aos demais. São todos maus. São todos sequestradores de criancinhas sem razões aparentes. São todos alvos da pureza do exército americano em seu dever cívico de exterminá-los. Mas todo filme é produto de seu tempo e Rio Bravo não é diferente. Incomoda muito mais a forma como a vilania indígena é tratada – meio à deriva, sem efetividade – do que o fato em si.

Um grande exemplar de história de cavalaria clássica, Rio Bravo fecha a Trilogia de John Ford com um olhar esperançoso sobre a fronteira, reunindo elementos dramáticos, musicais e cômicos que formam um conjunto harmonioso e redondo. Uma reunião por si só rara e que merece a atenção do espectador.

Rio Bravo (Rio Grande, EUA – 1950)
Direção: John Ford
Roteiro: James Kevin McGuinness (baseado em história de James Warner Bellah)
Elenco: John Wayne, Maureen O’Hara, Claude Jarman Jr., Victor McLaglen, Ben Johnson, Harry Carey Jr., Chill Wills, J. Carrol Naish, Grant Withers, Peter Ortiz, Sons of the Pioneers
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.