Crítica | Rio das Mortes

estrelas 3

Rio das Mortes é o filme de Fassbinder onde vemos o seu primeiro e sólido passo de distância do antiteatro. A obra marca o início de seu flerte com um aspecto muito mais forte entre indivíduo em sociedade, uma visão que, convenhamos, é o núcleo de sua carreira, mas que vez ou outra deu lugar a filmes que caminhavam pelas bordas dessa questão ou a traziam para o centro de uma discussão ainda maior em jogo.

Tecnicamente falando, estamos próximos à fase dos melodramas distanciados do diretor. A estética e a narrativa das obras que encabeçariam esse período ainda eram tenras, mas já se delineavam, mostrando um caminho diferente daquele que o cineasta apresentara até O Soldado Americano e cuja primeira efetiva mistura de estilos veio com A Viagem de Niklashausen.

A história constrói-se em torno de um trio de jovens que se encerram em utopias particulares, a começar por Hanna (Hanna Schygulla), estudante de pedagogia que tenta conseguir notas melhores na faculdade, decorar textos para as provas ou estudar enquanto espera que seu noivo Michel (Michael König) decida o que fará da vida ao lado do amigo Günther (Günther Kaufmann), ambos empenhados em conseguir dinheiro para uma viagem ao Rio das Mortes, no Peru – que na verdade não fica no Peru e sim no Brasil*.

A utopia familiar de Hanna e a fuga da realidade pretendida por Michel e Günther são contrastes em si e mostram-se frágeis desde o início. O roteiro de Fassbinder, que é baseado em uma ideia de Volker Schlöndorff, não se dispõe a dar atenção a nenhum dos personagens em particular. O principal elemento do filme é a ideia de mudança de uma realidade presente, como se o real não fosse o bastante e as ideias burguesas também não respondessem as mais diversas angústias de qualquer indivíduo, mesmo daqueles que de bom grado as aceitaram, por falta coragem, resistência maior ou opção melhor.

O trabalho e o cotidiano mecânicos (já denunciados por Fassbinder em Por Que Deu a Louca no Sr. R.?), o sonho da construção de uma família quando nenhuma das partes tem maturidade, dinheiro ou real vontade para isso (o desejo é apenas o reflexo de uma tag social) e a via crucis para fugir o mais rápido possível do mundo onde se vive em direção a um sonho perdido em uma região desconhecida são os maiores exemplos de que a juventude que Fassbinder queria retratar dividia-se entre os que queriam estar fora do sistema e aqueles que por algum motivo aceitavam as regras sociais e faziam projetos de vida a fim de se tornarem homens e mulheres de bem, por mais que não quisessem aquilo.

Essas ideias são trabalhadas pelo diretor em blocos mais ou menos isolados do filme, o que faz com que as partes individuais tenham um valor dramático mais interessante do que a ideia geral. Há um vácuo grande no roteiro quando consideramos as motivações de cada um – as quais o diretor tenta trazer à tona na reta final, pelo personagem de Günther, mas o resultado não é nada positivo – e a obra cambaleia bastante no quesito de unidade, elemento que também se reflete na estética mais solta e pouco exigente que, a despeito disso, combina bastante com a história.

O final de Rio das Mortes é de realização muda e decepção clara para a tríade protagonista. A viagem dos dois amigos para o Peru em busca de um tesouro escondido e a personagem amargurada de Hanna, que sequer tem coragem de puxar o gatilho para interromper o sonho dos dois e talvez realizar o seu, são indícios de que, acima de tudo, esses jovens vivem em constante conflito com a covardia e a coragem, seja para recuar nos momentos de crise interna, seja para avançar nos momentos de sonho e utopia. O quão isso é bom ou ruim para eles o diretor deixa para o público responder. E a resposta, como sempre, não é tão simples quanto parece.

* Existem dois rios com esse nome no Brasil, um no Estado do Mato Grosso e outro no Estado de Minas Gerais, este, inclusive, palco da Guerra dos Emboabas e provavelmente o rio citado no filme (considerando a mudança de país).

Rio das Mortes (Alemanha Ocidental, 1971)
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Hanna Schygulla, Michael König, Günther Kaufmann, Katrin Schaake, Harry Baer, Ulli Lommel, Marius Aicher, Walter Sedlmayr, Carla Egerer, Joachim von Mengershausen, Hanna Axmann-Rezzori
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.