Crítica | Rio, Eu Te Amo

estrelas 2,5

Demorou mais do que o pretendido, mas o terceiro capítulo da série de filmes Cities of Love, idealizada pelo francês Emmanuel Benhiby acabou saindo. Depois da Cidade Luz ser homenageada em 2006 e a Cidade que Nunca Dorme em 2008, um hiato de seis anos foi necessário para que finalmente a Cidade Maravilhosa ganhasse sua antologia de curtas-metragens tendo a cidade e o amor como temas.

Parece que Benhiby achou seu modelo preferido, ao prestigiar menos diretores em curtas um pouco mais longos. Assim como em Nova York, Eu Te Amo, a versão carioca tem apenas dez curtas que não são completamente independentes como em Paris, Te Amo. Isso acaba tirando a liberdade completa da tropa de diretores, com o agravante, no caso de Rio, Eu Te Amo, de terem tentado efetivamente transparecer que se trata de apenas um filme e não vários curtas. A cola entre eles se faz mais presente e o tom se torna pasteurizado.

E a pasteurização se dá com o uso de uma muleta bastante irritante, que não foi usada – salvo nas transições – nos dois filmes anteriores: as paisagens e monumentos da cidade homenageada. Ainda que se espere que o Pão de Açúcar e a Pedra da Gávea, além do Corcovado e as praias apareçam em qualquer filme que se passa no Rio de Janeiro, a grande verdade é quase a totalidade dos curtas faz uso desse artifício, como se fosse impossível falar sobre amor no Rio sem mostrar areia, água do mar e montanhas. O contraste entre Rio, Eu Te Amo e os outros dois filmes da franquia Cities of Love deixa isso às escâncaras e torna tudo muito mais maniqueísta, como se fosse uma peça publicitária para vender o Rio de Janeiro para turistas. Aliás, falando em peça publicitária, o marketing escancarado de algumas marcas e instituições (incluindo a Prefeitura e o Festival do Rio) distraem o espectador pela repetição e pela obviedade das inserções.

Considerando o calibre de diretores como Andrucha Waddington, José Padilha, Carlos Saldanha, Paolo Sorrentino e Nadine Labaki, sinceramente esperava mais conteúdo e menos visual. Bem menos aliás.

Não que a fita não tenha seus méritos, ela os tem, mas o desequilíbrio entre curtas não só é maior e mais presente em Rio, Eu Te Amo no que nos demais filmes da série, como a dependência de “lugares bonitos” torna tudo muito artificial e pouquíssimo sincero. Não fosse José Padilha (em “Inútil Paisagem”), com sua habitual delicadeza, desancar a “Cidade Maravilhosa” (aqui cabem as aspas!) diretamente para a estátua do Cristo Redentor usando seu parceiro Wagner Moura, Rio, Eu Te Amo seria mais parecido com um conto de fadas passado em uma cidade fictícia, em uma terra mágica.

Mesmo considerando esses problemas, além de Padilha, há que se salientar o trabalho quase experimental no segmento “A Musa”, estrelado por um silencioso Vincent Cassel como um escultor de areia na praia de Copacabana. Aqui, o uso do cartão postal do Rio funciona com ritmo e cadência, com ângulos radicais e planos próximos, sem que uma palavra seja necessário e com a câmera focalizando apenas uma pessoa de corpo inteiro (Cassel, claro). É Fernando Meirelles mais uma vez mostrando seu valor e fazendo-nos lembrar de certa forma – lá de longe – seu excelente Ensaio Sobre a Cegueira.

O mesmo vale para o inusitado e simpático “Dona Fulana”, com Fernanda Montenegro vivendo uma mendiga pelas ruas da cidade que é achada por seu neto de classe média, mas se recusa a voltar ao lar, por simplesmente gostar das ruas. A atriz trabalha debaixo de uma ótima maquiagem e, como sempre, cativa o espectador sob as lentes de Andrucha Waddington, que consegue, eficientemente, fugir da armadilha do “cartão postal”.

Há que se lembrar, também, de “Eu Te Amo”, de Stephan Elliott, que monta um inusitado – e surreal – caso de amor entre um australiano (Ryan Kwanten) e um motorista que vai pegá-lo no aeroporto, vivido por Marcelo Serrado, com direito à participação especial de Bebel Gilberto.  E, claro, o belo, mas fortemente inspirado por Proposta Indecente, segmento “Texas”, de Guillermo Arriaga, contando a luta (literal e figurada) de um ex-boxeador (Marcio Rosário) que perdera um braço no mesmo acidente que paralisou sua esposa (Laura Neiva) da cintura para baixo e que conta com uma participação sinistra de Jason Isaacs.

No entanto, os segmentos dirigidos por John Turturro (“Quando Não Há Mais Amor”), com o próprio Turturro e Vanessa Paradis; o de Carlos Saldanha (“Pas de Deux”), com Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer; o de Paolo Sorrentino (“Grumari”), com Emily Mortimer e Basil Hoffman, além da costura entre os curtas com Claudia Abreu deixam muito a desejar, quebrando fortemente o ritmo do filme e arrastando demais os aparentemente breves 90 minutos de projeção. Tenho certeza que todos esses diretores teriam se beneficiado de menos interdependência narrativa e menos necessidade de mostrar o “bonito” no lugar da história. E isso porque estou sendo misericordioso e deixando de fora verdadeiras bombas como “Vidigal”, com Tonico Pereira (direção de Sang-soo Im) e o bonitinho, mas para lá de ordinário – apesar de estrelado por Harvey Keitel e um simpático menininho, Cauã Antunes – “Milagre”, de Nadine Labaki.

Olhando apenas para as histórias que realmente chamam a atenção, Rio, Eu Te Amo poderia ser chamado de um triunfo. Mas o peso do que não funciona e a necessidade de se expor somente o lado ensolarado da Cidade Maravilhosa acaba puxando para baixo o conjunto todo, resultando em uma obra não mais do que apenas regular.

Rio, Eu Te Amo (Idem, Brasil/EUA – 2014)
Direção: César Charlone, Vicente Amorim, Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Sang-soo Im, Nadine Labaki, Fernando Meirelles, José Padilha, Carlos Saldanha, Paolo Sorrentino, John Turturro, Andrucha Waddington
Roteiro: Fellipe Barbosa, Rodney El Haddad, Stephan Elliott, Sang-soo Im, Nadine Labaki, Chico Mattoso, Khaled Mouzannar, Antonio Prata, Carlos Saldanha, Elena Soarez, Paolo Sorrentino, John Turturro, Mauricio Zacharias, Andrucha Waddington
Elenco: Ryan Kwanten, Rodrigo Santoro, Harvey Keitel, Emily Mortimer, John Turturro, Jason Isaacs, Vincent Cassel, Vanessa Paradis, Wagner Moura, Nadine Labaki, Débora Nascimento, Bebel Gilberto, Basil Hoffman, Sergio Kato, Fernanda Montenegro, Laura Neiva, Marcio Garcia, Caio Junqueira, Cleo Pires, Marcio Rosario, Camila Pitanga, Roberta Rodrigues, Claudia Abreu, Regina Casé, Hugo Carvana, Tonico Pereira, Stepan Nercessian, Cauã Antunes
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.