Crítica | Rio Vermelho

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estrelas 4

Um dos maiores exemplos da 2ª Renovação Clássica do Western, Rio Vermelho possui uma forte marca pessimista que o acompanha durante toda a sua duração. Da perda de um grande amor até velhos amigos se tornando inimigos, podemos enxergar as consequências de duas Guerras Mundiais (uma ainda muito recente) nesta obra cinematográfica. Dirigido por Howard Hawks, que, à época (1948), já nos trouxera Scarface – A Vergonha de uma Nação e À Beira do Abismo, o filme consegue sugar a atenção do espectador nessa odisseia da primeira condução de gado pela trilha de Chrisholm.

A projeção é iniciada com uma caravana de diligências, de onde Thomas Dunson (John Wayne), um homem decidido, que jamais troca de opinião, se separa, deixando para trás sua amada. Pouco depois, já longe e junto de seu companheiro Nadine Groot (Walter Brennan), a caravana é atacada por índios, já chocando o espectador pela rapidez com que esse conto foge de uma retratação demasiado romanceada do Oeste. Não tomem minhas palavras por engano, contudo, já que esse drama existe e mantém grande parte da tensão da obra, mas chegaremos a esse ponto mais adiante. Com apenas uma vaca e seu amigo, Dunson, encontra o perfeito lugar para montar seu rancho e ali perto encontra um menino, Matt Garth, que o ajudaria a conceber seu sonho de ter o maior gado já visto naquelas terras.

O objetivo é alcançado catorze anos depois, mas a Guerra Civil deixara poucos clientes ali no Sul que pudessem comprar todas aquelas, mais de mil, cabeças. Coube ao rancheiro, então, conduzir sua criação pelas pradarias desertas do Texas até o Missouri, onde poderia vender seu gado. Ao seu lado, o acompanham o velho amigo Groot e um crescido Matt (Montgomery Clift). Com essa premissa estabelecida, acompanhamos a jornada de meses desses três personagens, acompanhados pelos outros rancheiros. O roteiro de Borden Chase e Charles Schnee, porém, não apostam no óbvio e decidem explorar as relações humanas ao longo dessa extensa viagem. De motins, deserções a pequenos conflitos acompanhamos de forma orgânica a evolução de cada um dos personagens, em completa oposição à figura de Dunson, o objeto imóvel que, jamais, tem sua opinião alterada.

O ponto forte dessas interações se dá justamente através de Matt, que desenvolve uma relação de pai e filho com o velho cowboy. A química construída entre Wayne e Clift chega a ser palpável e a cada rixa entre os dois personagens a tensão rapidamente se eleva, trazendo consigo uma forte carga dramática. A partir dessa linha somos levados ao maior plot twist da obra, que não só garante a vida da segunda parte da projeção, como impressiona o espectador, alterando por completo a forma como a história é conduzida. Por outro lado as atuações e direção pecam no tratamento de personagens mais secundários, que chegam a nos trazer situações risíveis como uma mulher levando uma flecha no ombro e agindo com uma notável naturalidade.

Tais deslizes, porém, são facilmente ocultados pela beleza da fotografia de Russel Harlan, aliado da montagem de Christian Nyby. O primeiro captando, através de planos gerais, paisagens exuberantes, marcadas pela presença das inúmeras diligências e incrível quantidade de cabeças de gado, que por si só já fazem dessa uma produção gigantesca. O segundo, por sua vez, sabe intercalar tais enquadramentos com os inúmeros planos mais fechados, dando voz às emoções de cada personagem cujos olhares são tão precisamente capturados. Trata-se, sim de um trabalho clássico, mas não há motivos para não conseguir captar nossa apreciação.

Rio Vermelho, portanto, dificilmente não irá agradar o espectador, contando com leves deslizes que são facilmente deixados de lado. É um ótimo exemplo da 2ª Renovação clássica, que traz um notável pessimismo durante toda sua projeção, somente pecando nos minutos finais, através de seu encerramento exageradamente comportado. John Wayne e Montgomery Clift nos trazem uma dupla que certamente fisga nossa atenção, nos mantendo presos dos créditos iniciais aos finais da obra.

Rio Vermelho (Red River – EUA, 1948)
Direção:
Howard Hawks, Arthur Rosson
Roteiro:
Borden Chase, Charles Schnee 
Elenco:
John Wayne, Montgomery Clift, Joanne Dru, Walter Brennan, Coleen Gray, Harry Carey, John Ireland, Noah Beery Jr., Harry Carey Jr.
Duração:
133 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.