Crítica | Rio Violento

estrelas 4

O espectador médio da atualidade talvez sinta um notável estranhamento ao se deparar com Rio Violento. A obra de Kazan, um dos pais do renomado Actor’s Studio e defensor ferrenho do método de atuação de Stanislavski, investe unicamente no drama dos personagens, exigindo de cada ator o máximo de seu trabalho, opondo-se, é claro, aos tempos atuais, onde hollywood investe quase que unicamente em produções megalomaníacas, repletas de efeitos especiais, que conseguem até mesmo transformar livros de criança em odisséias longas e vazias.

Elia já deixa claro seu foco na simplicidade através dos minutos iniciais de seu longa. Somos contados a historia de um homem da TVA, uma instituição governamental que visa minimizar as vítimas das enchentes de um rio específico criando uma grande represa. Isso, porém, significaria o alagamento de grande parte da região e os habitantes de uma pequena ilha fluvial em específico se recusam a abandonar suas casas. Ella Garth (Jô Van Fleet) é a espécie de líder de tal região e se demonstra ser uma verdadeira pedra no sapato de Chuck Glover (Montgomery Clift), que tenta ao máximo convencer a velha senhora a se mudar. No processo, contudo, ele acaba se apaixonando por uma bela jovem, Carol (Lee Remick) e, ao mesmo tempo, entendendo o ponto de vista da teimosa idosa.

Kazan introduz um evidente bucolismo em sua projeção através do uso emblemático da trilha sonora de Kenyon Hopkins, que perfeitamente se encaixa com a retratação antiga das moradas dos homens dali, que nos levam de volta ao início do século XX. Expandindo essa noção, temos a própria aversão da população local à tecnologia – mesmo a luz elétrica chega a ser uma novidade para eles, o que gera algumas bem-vindas sequências de alívio cômico. Permeando essas casas antigas de madeira temos uma vegetação em completa harmonia com o homem, transmitindo uma ideia de tranquilidade ao local.

É claro que essa harmonia é quebrada comam chegada do burocrata da cidade, que visa eliminar aquele meio de vida em nome do “progresso”. O conflito entre o velho e o novo é evidente e Elia investe em tal conceito através da própria personalidade de cada personagem. Enquanto Ella e seus vizinhos são mais durões ou simples, Chuck conta com uma educada passividade que chega a ser suspeita. Não temos aqui o típico herói do cinema clássico e sim um homem frágil, que claramente resolve tudo na base da conversa ao invés dos punhos. Glover se torna a figura do colonizador, trazendo a civilização para aqueles que não a desejam, ainda se sentindo como um herói no processo.

O diretor, porém, não não deixa fácil para o espectador. Cedo na projeção já começamos a nos questionar qual o lado certo daquele conflito de interesses. Junto de nos, é claro, temos a própria figura do protagonista, que passa a identificar as motivações da população local. O trabalho que mais se destaca é aquele de Jo Van Fleet, que garante uma notável profundidade à sua personagem meramente através do olhar. Com a direção precisa de Kazan vemos a rígida senhora se transformando no retrato daqueles que perecem em nome do progresso.

Diante de tal complexidade, alguns pontos não chegam a agradar completamente. A montagem de William Reynolds, desses, é a que se destaca, trazendo alguns cortes prematuros é uma intercalação demasiadamente rápida entre sequências, prejudicando o ritmo da obra que soa apressada em determinados pontos. A construção da relação de determinados personagens é prejudicada por tal fator, por não ser oferecido ao espectador o tempo necessário para acreditarmos nessas interações.

São erros pequenos, porém, que não tiram o mérito dessa retratação da simplicidade, da guerra das gerações. Rio Violento demonstra em sua totalidade a maestria da direção de Elia Kazan, que não precisa de enredos gloriosos para compor um dramático quadro de nossa constante realidade.

Rio Violento (Wild River – EUA, 1960)
Direção:
Elia Kazan
Roteiro: Paul Osborn
Elenco: Montgomery Clift, Lee Remick, Jo Van Fleet, Albert Salmi, Jay C. Flippen, Frank Overton, Malcolm Atterbury
Duração: 110 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.