Crítica | Riverdale – 1ª Temporada

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estrelas 3
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Apesar de serem praticamente desconhecidos no Brasil, os quadrinhos da série Archie são muito populares nos Estados Unidos, estando em impressão desde 1941, tendo passado por diversos reboots e reformulações com o decorrer do tempo, sendo a mais recente em 2015, pelas mãos de Mark Waid (Reino do Amanhã). Quando o canal americano The CW anunciou que iria adaptar a série, a notícia gerou um misto de empolgação e incredulidade: por um lado, a emissora é famosa por suas adaptações de quadrinhos bem sucedidas, como Arrow e The Flash, mas por outro, Archie nunca foi um quadrinho de super heróis convencional. No entanto, os incrédulos aparentemente se esqueceram da outra especialidade do canal: o drama adolescente (One Tree Hill e Gossip Girl, entre outros sucessos, são produções deles).
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O episódio piloto da série já começa mostrando a que veio e estabelecendo muito bem o clima com uma narração estilo noir, chamando a atenção do espectador para as sombras que estão escondidas por trás da fachada de cidade pacata que é Riverdale. Somos, então, apresentados ao mistério da primeira temporada. Jason Blossom, filho de um magnata local e herdeiro da família Blossom morreu misteriosamente durante a manhã do feriado de quatro de julho, enquanto passeava de barco com sua irmã gêmea, Cheryl. De acordo com a garota, Jason acidentalmente caiu do barco e se afogou. A polícia inicialmente não consegue encontrar o corpo do rapaz e aceita sua história. No entanto, quando o corpo é descoberto, ele apresenta um ferimento de bala na cabeça, contradizendo a história de Cheryl. Está armado o grande mistério da primeira temporada de Riverdale.

Ao longo do episódio, somos apresentados aos personagens que povoam a cidade: Archie Andrews (KJ Apa), o protagonista da série, é um garoto sonhador que se vê dividido entre os desejos do seu pai (investir seus esforços como esportista) e os seus próprios (ser músico), enquanto balança o coração da maioria das garotas com seu charme inocente. Jughead (Cole Sprouse) é um garoto rebelde que está sempre em busca de desvendar algum mistério (conforme evidenciado pela sua narração no início da série, prática que acaba se repetindo durante a temporada), ao mesmo tempo em que busca o tema ideal para escrever seu livro de investigação criminal. Betty (Lili Reinhart) é a típica girl next door, num misto de doçura, inteligência e gentileza, ela mal consegue esconder sua paixão por Archie. Veronica (a brasileira Camila Mendes) é a rica e sofistica garota nova da turma, recém-chegada à cidade devido a um escândalo financeiro envolvendo seu pai. Cheryl (Madelaine Petsch) é a manipuladora e vingativa irmã de Jason que certamente sabe muito mais sobre a morte do irmão do que revelou à polícia.

Conforme mencionando anteriormente, a primeira temporada da série gira ao redor da morte Jason Blossom, e, no decorrer da temporada, diversas revelações bombásticas são feitas (geralmente no final dos episódios, claro), brincando com as expectativas do espectador e fazendo com que desconfie de cada personagem ao menos uma vez na série, desembocando em uma revelação final que pouco tem de surpreendente, mas satisfaz. No entanto, há algumas subtramas que não vão a lugar algum. Os dois exemplos mais gritantes são o relacionamento amoroso entre Archie e Miss Grundy, sua professora de música, cuja resolução é extremamente acelerada e insatisfatória. A subtrama envolvendo os crimes do pai de Veronica também não leva a lugar algum, apesar de ser parte considerável de alguns episódios. Essas são evidências claras de que o ponto fraco da série é o seu roteiro. Archie, supostamente o personagem principal, é facilmente o menos interessante de todos os amigos, servindo mais como um elo entre todos os personagens do que um protagonista interessante.

Se por um lado a série deixa a desejar no que diz respeito ao seu roteiro, o mesmo não pode ser dito sobre as atuações. O elenco jovem da série é ótimo, transmitindo confiança e firmeza em atuações que exigem um range emocional surpreendentemente variado. As duas atuações que merecem mais destaque são certamente a de Lili Reinhart como Betty, a personagem mais sensível da série, e a da belíssima Medelaine Petsch como Cheryl, em uma encarnação perfeita de uma femme fatale adolescente.

O grande destaque, no entanto, é a sua atmosfera sombria, resultado de uma ótima sintonia no trabalho de direção de arte e fotografia. Stephen Jackson e David Lanzenberg, que trabalharam, respectivamente, nos ótimos Cabana do Medo e O Sinal – Frequência do Medo, conseguiram criar talvez a série teen mais bonita de todos os tempos. Como a presença de luz é diminuída, cores fortes como a placa de neon da lanchonete Pop’s e as roupas (e cabelos) vermelhos da família Blossom ganham destaque, saltando na tela. Essa escolha de fotografia acaba, querendo ou não, dando uma cara de quadrinhos para a série, talvez até mais do que as outras séries do canal desse gênero. Aliás, o trabalho com as cores também é utilizado para atribuir características aos personagens de forma exemplar. Por exemplo, Cheryl, uma personagem perigosa, misteriosa e selvagem, está sempre vestindo roupas vermelhas e pretas. Já Betty, uma garota doce e sonhadora, veste tons claros e muito rosa, (exceto quando ela veste sua peruca preta e vira a versão dark de si mesma, resultando em um dos momentos mais interessantes da personagem).

É interessante perceber que Riverdale estreou no mesmo ano que o retorno de Twin Peaks, já que é possível traçar diversos paralelos entre a produção adolescente e a 1ª Temporada da famosa série de David Lynch, desde o assassinato de um adolescente em uma cidade pacata até as escolhas de enquadramentos e uma trilha sonora que alterna entre o sutil e o estridente, mas sem perder a morbidez. De qualquer forma, Riverdale serve como uma ótima iniciação ao mundo das séries sombrias para o seu público adolescente. Quem sabe daqui a alguns anos eles não se interessam pelo mistério da morte de Laura Palmer?

Riverdale – 1ª Temporada (EUA – 26 de janeiro de 2017 – 11 de maio de 2017)
Criação: Roberto Aguirre-Sacasa
Direção: Lee Toland Kreiger, Mark Piznarski, Jesse Warn, Steven A. Adelson, Allison Anders, David Katzenberg, Lee Rose, Dawn Wilkinson, Kevin Rodney Sullivan, Rob Seidenglanz
Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa, Yolonda E. Lawrence, Michael Grassi, Ross Maxwell, Tessa Leigh Williams, Nicholas Zwart, Aaron Allen, Julia Cohen, James DeWille, Britta Lundin, Brian E. Paterson
Elenco: KJ Apa, Lili Reinhart , Camila Mendes , Cole Sprouse , Marisol Nichols , Madelaine Petsch , Ashleigh Murray, Mädchen Amick, Luke Perry
Duração: 42 min. por episódio (treze episódios)

ANDRÉ DESCROVI . . . Professor de inglês formado pela Greendale Community College. Mestre em Língua Suméria pela Miskatonic University. Doutor em Psiquiatria pelo Lecter Institute of Mind Studies. Membro do conselho de diversas corporações, entre elas: Bluth Company, Dunder Mifflin, Kramerica Industries e Vandelay Industries. Atualmente reside em Carcosa, onde trabalha como consultor de crimes ritualísticos para a empresa Cohle & Hart. (93 é o sentido da vida.)