Crítica | Riverdale – 1X01-04

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estrelas 3,5

Fazendo sucesso desde 1941, Archie e sua turma constituíram uma importante faceta da cultura pop norte americana. Criado por Vic Bloom e Bob Montana, os personagens que povoaram e povoam a cidadezinha interiorana de Riverdale conseguiram facilmente transpor as páginas dos quadrinhos da Archie Comics, editora a qual ele deu nome, chegando rapidamente as rádios e televisões. Quem acompanhou as manhãs do SBT ou tem mais de cinquenta anos, deve se lembrar de Archie e sua Turma, desenho produzido pela antológica Hanna-Barbera e seu tema ”Sugar Sugar”, ou ainda do seriado Sabrina, a Bruxinha, spin-off surgido nas páginas da turma.

Fica fácil entender, assim, o frisson gerado pelo anúncio da CW da nova adaptação, Riverdale. Seguindo a esteira do sucesso gerado pelas novas publicações da editora, capitaneada por Roberto Aguierre-Sacasaca, quem também roteiriza o seriado. Primeiramente oferecido a FOX, que a negou por ser muito violenta, Riverdale logo caiu na mão de Greg Berlanti, o produtor por trás de todas as séries de quadrinhos da CW.

Primeiramente devo admitir que fiquei com muito receio pela emissora envolvida, não me levem a mal mas o estilo Vampire Diaries nunca fez sucesso comigo, por mais que eu tenha visto muito Supernatural… até hoje. Mas para minha surpresa a série acabou se mostrando surpreendendo: não, não veremos nada de muito novo no front das TVs norte americanas mas o valor de produção aqui é alto, assim como a direção é hábil e o roteiro bem amarrado.

Começando pelo início, o primeiro episódio é bastante procedural, tem por intenção apresentar os personagens de maneira bastante básica, incutindo o drama principal, o assassinato do rico capitão do time de futebol americano, Jason entre dramas adolescentes. Vemos, por esse primeiro episódio, a acuidade tanto em aspectos gerais de produção como na arte, a direção de Toland Krieger opta por uma atmosfera de suspense muito bem tecida, com cores frias e uma predominância de tons escuros, com uso de neblina aqui e ali. Senti, contudo, nesse início de série, e temporada, um certo receio no uso dos temas, por exemplo, o roteiro tende á recorrer a determinados clichês vez ou outra, como o caso de amor não correspondido.

Falando dos personagens e da sua adaptação, temos Archie, interpretado por K. J. Apa; Jughead feito por Cole Sprouse; Bety de Lili Reihart e Veronica feita pela brasileira Camila Mendes. De início, existe uma certa falta de profundidade em alguns personagens. Betty, por exemplo, não é apresentada de modo interessante, assim como os exageros e predominâncias de Archie, sempre com seu abdômen de fora. Porém, o que começa comum e repetitivo acaba se desenvolvendo bastante no segundo e terceiro episódios. Para minha surpresa, a série acaba tomando rumos  bastante inesperados.

A série, que parecia recorrer a Archie como fio condutor, começa a dar mais importância a Verônica, à maneira como ela tenta se adaptar a vida em uma cidade pequena e sua amizade com Betty, que acaba se revelando uma garota fragilizada, mas cheia de força, o mesmo para a proporção que Jughead acaba tendo no desenrolar da trama do assassinato, que dura pouco, como para o amadurecimento de Archie. Em linhas gerais, o segundo episódio volta com brilhante mise-en-scène mas também com um roteiro mais profundo e maduro – falando-se de CW é claro!

Dessa forma, chegando aos episódio três, não sabia o que esperar. Afinal, depois de matarem o que me parecia ser o plot da temporada, e que de certa forma continua sendo, não podia esperar qual rumo a série teria mas a criação de novos conflitos, dessa vez englobando assuntos bastante atuais como machismo e preconceito racial – com a incrível participação de Josie and the Pussycats – a série deu um passo além. Ela lida, também, com uma certa atemporalidade, é difícil precisar pela arte quando a série se passa,  assim como Gotham, por exemplo, assimilando certas características contemporâneas.

Já no quarto capítulo, dirigido por Mark Pizmarrski, nome conhecido por dirigir pequenas produções e uns poucos episódios de algumas séries como Gossip Girl e iZombie, e na outra ponta com roteiro assinado por Michael Grossi, que recentemente escreve alguns capítulos de Supergirl. A princípio me pareceu preocupante a dupla escolhida pra tocar o episódio mas na prática não foi tão ruim. Esse quarto capítulo não consegue manter o mesmo ritmo dos anteriores, mas envereda por outros caminhos , destacando outros personagens assim como acrescentando a mitologia da cidade, que parece aos poucos tornar-se personagem principal do seriado. Mas não me entendam mal, mesmo positivo, o saldo foi de queda, muito pela repetição de alguns clichês de gênero como pela falta de um caminho para a trama em geral.

Falando sobre os arcos, primeiro (ainda) temos o de Jason, que parece (ainda) ser o fio condutor da trama, mesmo que de maneira bem indireta, o que, diga-se, foi uma excelente escolha, afinal impede a história de ficar parada no mesmo ponto, já Cheryl Blossom já não pode dizer o mesmo, a personagem parece estacionada nas próprias lamentações e não aparente ter mais relevância, em geral.  Do lado de Archie vemos um franco amadurecimento do personagem, que transgrediu de forma muito relevante seu status de ”galã” e teve um aparente progresso, parte desse episódio é centrado em sua relação com sua professora de música, que reverbera na maneira como ele se porta tanto com seu como com Betty, que aos poucos vai ganhando força e deixando para traz a aparência de menina desprotegida e indefesa. Assim mesmo ele ainda parece um personagem perdido, não se tornou claro para que lado ele deverá ir, de certa foma, permanecendo mal explorado.

Contudo o centro desse episódio foi Jughead, o geek da série nunca foi um personagem deixado de canto mas dessa vez se  alça como protagonista, em uma trama envolvendo a demolição do drive-in da cidade a qual depois entenderemos ser sua casa…literalmente. Essa mudança de centro foi importante também por apresentar as serpentes do sul, grupo de motoqueiros da cidade. Pela primeira vez olhamos de fato o  lado podre de Riverdale, que não esta só no dia a dia do pequeno colégio mas qual atinge também as esferas políticas, e nesse ponto o núcleo da Veronica ganhou mais interesse.

De certa forma a série ainda tenta encontrar-se: entre erros e acertos o saldo continua não só sendo interessante como superior a vários seriados da CW, longe de parecer estacionada como Arrow a jovem série, assim como seus personagens, parece estar atras de um futuro – e temporadas – melhores.

Nas áreas mais técnicas sinto falta de Lee Toland Kreiger, ele certamente tem um estilo muito mais seu do que  Pizmarrski, diretor procedural, mesmo com o tom e a atmosfera ainda sendo mantidas, muito pelo virtuoso controle de Greg Berlanti, Contudo o uso de planos e transições se tornou mais simples e desinteressante que os de episódios anteriores, há alguns bons momentos mas nada memorável,  sim, estamos na TV mas contemporâneos como o recente Legion estão se arriscando mais. Os atores, depois de 3 episódios, aprecem bem mais confortáveis em seus papeis, destaque para Camila Mendes que sempre acaba roubando atenções e Cole Sprouse, quem acaba dando mais profundidade ao esquisitão do grupo. Na área do roteiro, como dito, apresentou-se um decréscimo em relação aos dos episódios anteriores, mas o verdadeiro risco é, novamente, a série cair no procedural e no comum.

Riverdale continua muito boa e, como dito muitas vezes aqui, promissora mas necessita de mais ataque, de investir em tramas mais sólidas, claro ainda estamos no quarto episódio, mas a serie promete apenas 13, afinal já não seria o momento de estarmos um pouco mais empolgados? Em todo caso há diversão e um forte valor de produção, porém sem o acuidade correta pode se tornar mais um show de mais um episódio semanal.  

Riverdale – 1×01-04 – EUA, Fevereiro de 2017
Showrunner: Greg Berlanti
Diretor:  Lee Toland Krieger, Mark Pizmarrski
Roteiro:  Roberto Aguierre-Sacasaca, Yolanda E. Lawrence, Michael Grossi
Elenco: K.J. Apa, Lili Reinhart, Camila Mendes, Cole Sprouse, Marisol Nichols, Medelaine Petsch, Ashleigh Murray, Madchen Amick, Luke Perry
Duração: aprox. 45 min. cada episódio

PEDRO ROMA . . . Antes de tudo, cinéfilo inveterado e amante de todo tipo de filme, mesmo que eu prefira um pouco mais russos e tchecos, em geral. Aspirante a cineasta, atualmente curso cinema e espero poder ganhar um longo podcast sobre mim um dia, haha. Para além das brincadeiras, quero contribuir de forma ativa com o pensamento cinematográfico, começando pela critica é claro, podendo colocar em palavras toda a emoção que sinto nesse prazeroso e ao mesmo tempo intrigante ato de simplesmente sentar e ver um filme.