Crítica | Robin Hood (2010)

estrelas 3

O filme de Ridley Scott anterior a Robin Hood foi Rede de Mentiras (2008), que mesmo com grande agilidade narrativa e câmera sempre inquieta, aliada a uma edição de dar dor de cabeça, não convenceu. O filme se mostrou incapaz de sustentar a própria trama, tornando todo o enredo superficial, embora o tema central da história tivesse fôlego para alcançar altos voos. Ao que parece, imerso nessa agilidade de câmera e das modulações de narrativa durante o filme — a alternância cansativa entre cenas muito lentas e cenas muito rápidas — Scott passou para a produção de seu novo projeto sem novas preocupações de mudança estrutural, o que quase lhe custou o filme.

Robin Hood retoma a linha da “película histórica-lendária”, uma área bem conhecida por Ridley Scott, que estreou no cinema em 1977 com o drama Os Duelistas, ambientado na Era Napoleônica. Depois deste, seu próximo “filme histórico” seria um fracasso de bilheteria, porém, um primor de filme, 1492: A Conquista do Paraíso (1992). Em 2000, o cineasta traria às telas o sucesso Gladiador, outro filme histórico. A Idade Média também recebeu sua atenção com o belo Cruzada (2005). Robin Hood, também ambientado na Idade Média, é produto de um cineasta-designer já veterano em trabalhos com temática desse porte, o que faz parecer estranho a superficialidade da obra.

Talvez o filme tenha encontrado sua minimização no fato de contrapor duas realidades: a histórico-factual e a lendária. O Robin Hood de Scott não emociona ou não funciona porque sua força mina para todo o elemento de “reconstrução & construção” da lenda, terminando no momento em que elas começam. Não fixado nem no mundo histórico nem na lenda, o Robin Hood de Scott é um personagem etéreo, sem força suficiente para fazer valer ou sobressair-se satisfatoriamente em algum dos dois mundos. E a interpretação carente de vigor de Russell Crowe (que deveria ter trazido um pouco do ‘excesso’ de Gladiador e um pouco da simpatia de Um Bom Ano) intensificou essa sensação de indiferença. O roteiro do filme, portanto, perde-se entre dois polos e não poderia ser mais insosso.

O tempero a obra poderiam ser as imagens, o visual bem elaborado, tão usado pelo diretor durante toda a sua carreira. Mas mesmo as imagens do filme são dissonantes para com o restante do que a câmera captura. Não que essas imagens não tenham beleza ou valor estético. São imagens lindíssimas: o estuário do rio Tâmisa, as florestas e o litoral do norte da França, a região próxima ao Canal da Mancha; são esplêndidas imagens. Mas elas destoam do filme, causam uma espécie de estranhamento negativo e certamente essa não foi uma opção do diretor, posto que sua formação como designer o impele a encantar com as imagens, não afastar.

A fotografia de John Mathieson, muito escura e [quase?] caindo no monocromatismo, até chega, em alguns momentos, a impressionar, especialmente em duas sequências: nas passagens de Robin Hood pela floresta, durante o dia; e toda a sequência do interior da casa de Marion Loxley e seu sogro, Sir Walter Loxley. Afora estes momentos, vale apena citar as panorâmicas finais, onde, a tentativa de uma fotografia naturalista saiu melhor do que os artífices de deslocamento usados para a criação de uma aura visual exótica nos flashbacks, que surgem em momento tardio e aos borbotões, matando o que poderia ser o segundo melhor momento epifânico do filme (o primeiro é quando nos é apresentado uma série de fades e fusões envolvendo imagens de diferentes regiões em um mapa antigo, seguidas do massacre de sua população sob as ordens do rei João I).

O elenco de Robin Hood é invejável, mas não tão bem aproveitado como deveria. Um dos exemplos mais chocantes é o de Max von Sydow, porém, na mesma linha de subaproveitamento, temos Cate Blanchett e William Hurt.

Como produto fílmico, Robin Hood é insatisfatório, mas algumas categorias devem ser aplaudidas: o figurino, a trilha sonora, a edição e mixagem de som seguram-se bem, especialmente as batalhas ou as cenas leitmotiv para uma grande ação, sejam elas a curto ou longo prazo.

A música, especialmente, concentra elementos minimalistas à la Philip Glass que são muitíssimo agradáveis de se ouvir e funcionam perfeitamente o filme inteiro. A montagem deve ser citada apenas por ter um criativo papel na exposição das cenas de batalha. O trabalho restante é muito comum, com uso de raccords e elipses básicas que se arrastam e não fazem muito para ajudar a contar a história. Além disso, por infelicidade, Scott resolveu fazer uso de narrativa paralela, tentativa que aplicada a um filme como Robin Hood (ação-história-lenda) dá um passo para desanimar o espectador e empobrecer a obra, visto que nenhuma das duas histórias será contada/resolvida/fechada a tempo.

Para um cineasta do porte de Ridley Scott, Robin Hood é uma pequena vergonha, mas, curiosamente, consegue se manter acima da média. A obra pode encantar pelo porte, pela grandeza das imagens, mas pouco traz de realmente notável para a nova versão de um dos personagens mítico-históricos mais interessante que já existiram.

Robin Hood (EUA, UK, 2010)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Brian Helgeland, Ethan Reiff, Cyrus Voris
Elenco: Russell Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt, Mark Strong, Oscar Isaac, Danny Huston, Eileen Atkins, Mark Addy, Matthew Macfadyen, Kevin Durand, Scott Grimes, Alan Doyle, Douglas Hodge, Léa Seydoux
Duração: 140 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.