Crítica | RoboCop 2

estrelas 0,5

Enquanto Robocop é uma sátira ferina às corporações, à corrupção e às privatizações, com fortes pitadas de filosofia sobre o que é a humanidade, Robocop 2 é uma paródia do primeiro filme, mas só que uma paródia extremamente mal escrita e mal dirigida, que em nada acrescenta ao original, não conseguindo nem mesmo ser engraçada quando tenta.

Há que se saber a diferença entre uma coisa e outra e os roteiristas Walon Green, que nunca havia feito e nunca faria nada que prestasse e Frank Miller, que cometeu aquele atentado cinematográfico chamado The Spirit, assassinando fantástica obra de Will Eisner, simplesmente não sabem o que é uma coisa ou outra e acabam fazendo um desserviço à franquia. Mas o roteiro de Robocop 2 nem é o maior pecado nessa película. Se tiverem coragem, continuem lendo…

Para começar, os valores de produção de Robocop 2 são absolutamente patéticos. Se no primeiro filme o protagonista parece de verdade um robô feito de aço ou algum metal parecido, na continuação ele é visivelmente feito de plástico e, ainda por cima, com uma coloração azulada que empresta um tom excessivamente cartunesco a ele. Os efeitos especiais em computação gráfica – o filme é de 1990 e o CGI engatinhava nessa época – são da mais baixa qualidade, tornando evidentes as telas azuis (hoje a maioria dos chroma-keys é verde). O mesmo vale para o trabalho de stop-motion, tão detalhado e perfeitamente inserido nos set-pieces na obra original e que se transformam em horrendas caricaturas que lembram o começo dessa técnica, lá pela década de 30, com movimento entrecortado e desproporcional com o que se vê ao redor.

E olha que os produtores fizeram um enorme e vitorioso esforço de trazer de volta 100% do elenco. Peter Weller é de novo Robocop/Murphy e Nancy Allen é sua fiel parceira Anne Lewis. Voltam também todos os executivos da OCP, incluindo seu presidente, chamado apenas de Old Man, vivido por Dan O’Herlihy e Donald Johnson, vivido por Felton Perry, além do Sargento Reed (Robert DoQui) e a esposa de Murphy, Ellen (Angie Bolling). Mas o que antes era interessante, agora é raso. A narrativa paralela que envolve Ellen começa a ser desenvolvida, com Robocop vigiando sua ex-esposa, mas, de uma hora para outra, ela desaparece completamente, para nunca mais voltar. Nem mesmo Peter Weller tem muito que fazer a não ser andar como um robô, característica essa que é mal trabalhada por Irvin Kershner (como ele dirigiu O Império Contra-Ataca, ele está automaticamente perdoado por todo e qualquer atentando audiovisual que tenha cometido), pois ele expõe demais o lado desengonçado de Robocop, criando momentos involuntariamente jocosos.

E os personagens novos são extremamente estereotipados. Há o vilão drogado que se acha um deus (Cain, vivido por Tom Noonan), o prefeito de Detroit que é um histérico que veste um terno dois ou três números maiores do que deveria (Kuzak, vivido por Willard E. Pugh) e o garoto aprendiz de vilão Hob (Gabriel Damon). Todos estão péssimos em seus papeis, mas muito mais pelo fato de o roteiro maltratar seus personagens do que qualquer outra coisa.

Tentando repetir os temas do primeiro, mas falhando fragorosamente, os roteiristas caem no pastiche e não conseguem sustentar uma narrativa minimamente competente. A história é simples: Robocop patrulha a cidade, mas o crime aumentou e há uma nova droga – Nuke – tomando conta da região. Ao investigar, ele é quase morto por Cain e sua gangue e a OCP decide, então, embarcar em um projeto intitulado Robocop 2 (não é original?), mas não consegue material biológico “compatível” com os experimentos. Assim, uma brilhantemente imbecil psicóloga, Dra. Juliette Faxx (Belinda Bauer), resolve recrutar bandidos enlouquecidos para fundir com o projeto robótico. Se você revirou os olhos com essa explicação, você não faz ideia como é que essa história é a parte “boa” dessa fita.

Afinal de contas, até mesmo os vários e inteligentíssimos ingredientes midiáticos inseridos em Robocop são transformados em arremedos que tentam ser engraçados, mas que forçam tanto o lado cômico que o resultado é simplesmente ridículo. Vejam, por exemplo, o anúncio do bloqueador solar Sunblock 5000, uma pasta azul gosmenta com que uma modelo de biquíni besunta o corpo para se bronzear no sol da Califórnia que, nesse futuro, não conta mais com a proteção da camada de ozônio. É um daqueles momentos que dá vontade de pegar o controle remoto e jogar contra a televisão. Seria perfeito (ok, mais ou menos) em um esquete do Monty Python, mas, em Robocop 2, demonstra muito claramente que nenhum dos envolvidos fez um mísero esforço para entender o que os roteiristas do original quiseram passar.

Robocop 2 é uma excelente lição de como não fazer um filme, de como pisotear a obra original e, de quebra, de como tratar o espectador como idiota. É uma pena que essa fita tenha o rótulo “Robocop”, pois o original de Verhoeven não merecia essa desfeita.

Robocop 2 (Idem, EUA – 1990)
Direção: Irvin Kershner
Roteiro: Walon Green, Frank Miller
Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Dan O’Herlihy, Felton Perry, Robert DoQui, Angie Bolling, Tom Noonan, Willard E. Pugh, Gabriel Damon, Belinda Bauer
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.