Crítica | RoboCop (2014)

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estrelas 3

Quando foi anunciado que o próximo filme de José Padilha seria um remake de RoboCop, instantaneamente instalou-se aquele temor justificável. Afinal, o filme de Verhoven, como dito pelo nosso editor, Ritter Fan, é o melhor filme de super-heróis, sem ser de super heróis, já feito. Sabendo, contudo, que seu longa somente se prejudicaria ao ser comparado com o original, o diretor optou por uma abordagem diferente, estabelecendo uma nova proposta para o policial cibernético.

O novo filme de Padilha (que, antes, quase foi de Darren Aronofsky e, depois, de David Self), desde seus primeiros minutos, aborda o questionamento sobre a utilização de drones, por meio de uma cena no Oriente-Médio. Nesta, diversos robôs humanoides e ED-209s (substancialmente o mesmo do filme original, mas em CGI) patrulham as ruas enquanto cidadãos são chamados para serem revistados. Assistimos esse acontecimento através de um noticiário tendencioso que apoia completamente o uso de tais máquinas. Pouco após, os patrulheiros são atacados pela resistência local que é finalizada violentamente, gerando mortes civis. Em seguida somos direcionados para a problemática que permeia a maior parte do filme: drones em território americano são proibidos pela Lei Dreyfus.

Sabendo das limitações impostas pela tal lei, Raymond Sellars (Michael Keaton), presidente da Omnicorp (empresa que fabrica as máquinas utilizadas fora do país), procura uma maneira de burlar a legislação vigente e lucrar através de um serviço de segurança ao menos parcialmente mecanizado. A solução é o RoboCop. A busca para o experimento é alguém que, por alguma razão, perdeu algum dos membros e tem de lidar com tal deficiência. Assim,  quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado contra sua vida ele, convenientemente, se torna o melhor candidato.

Existe, contudo, um problema que se apresenta desde a própria concepção da cidade de Detroit que vemos no longa-metragem. Se ambientando no futuro, a cidade está longe de apresentar o nível de violência esperado para que seja necessário o uso de um policial cibernético. A metrópole parece uma cidade normal de um país desenvolvido e não pede medidas drásticas. Isso pode ser exemplificado pelo próprio líder do crime da cidade que, até então, teme assassinar policiais. Para evitar comparações com o filme original, exemplificarei usando Batman Begins. Lá, Carmine Falcone, chefe da máfia de Gotham City, não teme assassinar Bruce Wayne em frente a um juiz. Ao contrário de Detroit, Gotham é uma cidade que, claramente, está no fundo do poço, fazendo o espectador entender e até desejar a presença de um super-herói/vigilante.

O maior problema da cidade apresentada no remake é a corrupção da força policial. Nesse ponto, entra uma vantagem do drone: maquinas são incorruptíveis. Tal característica, porém, é pouco abordada e, quando aparece, se dá de forma superficial. Isso é resultado da falta de foco do filme, que prioriza o lado emocional da família de Alex Murphy, em detrimento de um desenvolvimento efetivo da trama. Para a execução desse lado, vemos constantes esforços do roteiro para transformar o policial cada vez mais em máquina e menos humano, apesar de sua proposta inicial ter sido um humano com pedaços de robô.

Juntando-se ao foco na família para produzir um problema de ritmo no longa, existe também o lado do treinamento de RoboCop. Essas sequências, apesar de nos oferecer diversas cenas com ótimo uso de CGI, ocupa grande parte da projeção, ao ponto que vemos poucas vezes o policial de fato em ação. No fim, ficamos realmente com a sensação de estarmos assistindo um filme de origem de super-herói. Mais uma vez o questionamento que Padilha deseja colocar perde a força.

Contudo, o que mais distancia o longa de seu próprio objetivo são as referências ao filme original. Seja através do uso da música tema do filme de Verhoeven (composta por Basil Poledouris), de citações em diálogos (“I’d buy that for a dollar.”) ou da própria estética, o remake acaba forçando o espectador a compará-lo com o original.

Ainda assim, apesar de tais defeitos e de não chegar aonde quer, RoboCop proporciona boas cenas de ação, mesmo que algumas delas tenham o clássico problema dos filmes contemporâneos com sua câmera e montagem agitadas. Em termos visuais, o longa não deixa a desejar, trazendo um belo uso da computação gráfica que somente em alguns pontos se torna evidente. A nova roupa do policial poderia ter sido mantida na cor original, garantindo a identidade do personagem e evitando comparações com a famosa pergunta de Bruce Wayne: “does it come in black?” A trilha sonora, composta por Pedro Bromfman (de Tropa de Elite 1 e 2), em algumas cenas, é intrusiva demais, entregando o que acontecerá, mesmo considerando que o  roteiro de Joshua Zetumer seja bastante óbvio, sem gerar grande suspense.

Não poderia finalizar essa crítica sem tecer alguns elogios ao trabalho de Gary Oldman que nos entrega um cientista em um sério dilema de usar suas criações para fins bélicos e, mais importante, um dilema que conseguimos acreditar. Suas aparições são, muitas vezes, o ponto alto do filme, ao ponto que traz à tona a temática que deveria estar sendo abordada nos outros momentos: até que ponto o calculismo de um robô pode substituir o método de pensamento humano? No papel do policial, Joel Kinnaman convence, mas sem se destacar.

RoboCop é mais um fruto dos remakes desnecessários de Hollywood. É um filme de ação que entretém, mas não oferece nenhum elemento especial e, portanto, logo foge à memória. Padilha falha em sua abordagem deixando sua nova produção uma obra que somente arranha a superfície, sem propor os desejados questionamentos de maneira efetiva, nos forçando a intermináveis comparações ao ótimo filme de Verhoeven.

RoboCop  (Idem, EUA – 2014)
Direção: José Padilha
Roteiro: Joshua Zetumer
Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Samuel L. Jackson
Duração: 117 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.