Crítica | RoboCop 3

estrelas 2,5

É incrível como a memória nos prega peças, não é mesmo? Havia assistido Robocop 3 apenas uma vez, no ano de seu lançamento (1993) e lembrava-me que havia odiado o filme. Mas essa percepção, juntamente com a única imagem que me restava na lembrança do filme, a de Robocop voando (sim, isso mesmo), ambas enraizadas em meu cérebro, foram desaparecendo na medida em que, vendo a fita novamente para preparar a presente crítica, a narrativa progredia.

Mas talvez haja outra explicação. Acabara de assistir Robocop 2 e, como minha crítica deixou muito claro, é um estupro audiovisual. Assim, depois de algo tão ruim, talvez qualquer coisa minimamente aturável seja percebida como boa, até maravilhosa, um verdadeiro alívio.

É claro, porém, que Robocop 3 não é um filme bom. Ele é apenas muito superior ao segundo capítulo da franquia em todos os quesitos. Se deixarmos de lado por um momento que nesse filme o protagonista troca a mão por uma metralhadora, coloca uma mochila voadora para passear por aí e luta contra um robô ninja absolutamente patético, o que sobra é um razoável e despretensioso filme de “super-herói” que, diferentemente de Robocop 2, não tenta ser mais do que é, não tenta imitar o primeiro, apesar de voltar a alguns temas e não é, de forma alguma, uma paródia.

O roteiro, novamente co-escrito por Frank Miller, mas dessa vez com a ajuda de Fred Dekker, diretor do filme e que nunca havia feito – e nem viria a fazer – nada de relevante, lida com a aquisição da pré-falimentar OCP, a corporação vilanesca dos outros filmes, por uma ainda mais inescrupulosa empresa japonesa, a Kanemitsu Corporation, comandada por, claro, Kanemitsu (Mako). No entanto, para que a aquisição seja possível, a OCP tem que limpar parte de Detroit (e por limpar leia-se chutar para fora todos os habitantes) para abrir caminho para a construção da sonhada Delta City. Para isso, uma forca para-policial é criada, chamada de Reabilitadores Urbanos (nome bonito para nazistas malvados) e Robocop (agora vivido por Robert John Burke), juntamente com sua fiel escudeira Anne Lewis (Nancy Allen), acabam ficando do lado do grupo que tenta evitar que isso aconteça.

Nada muito sofisticado, mas, pelo menos, a questão da crítica às corporações volta com força total e o uso da mídia, aqui, respeita o que vemos na obra original. Além disso, Dekker consegue explorar sutilmente o passado de Murphy com sua família, além de ser hábil o suficiente para lidar com o assassinato de Lewis, tornando-o relevante para a narrativa e não algo jogado sem nenhum raciocínio por trás.

Mas o trabalho de direção é burocrático, sem qualquer arroubo de criatividade. Dekker não arrisca, mas, pelo menos, em termos de valores de produção, ele traz de volta um certo cuidado com detalhes. A armadura de Robocop é novamente prateada e com textura de metal e não aquela coisa plástica azul que vemos em Robocop 2. Os efeitos especiais são bons a todo o momento, talvez com exceção do voo do protagonista ao final (mas, também, aí já é querer demais da tecnologia da época) e Robert John Burke faz um convincente trabalho como Murphy/Robocop tanto quando vemos seu rosto quanto com seus movimentos corporais debaixo da armadura. Além disso, Dekker usa, novamente, a bela trilha sonora de Basil Poledouris, misteriosamente ausente do segundo filme.

Infelizmente, também, o roteiro se perde ao dar muito destaque ao robô ninja enviado pela Kanemitsu (vivido por Bruce Locke). É muita preparação, muito mistério e muita enrolação para um final completamente anticlimático e, em última análise, extremamente redundante, já que o grande inimigo é mesmo o nazista Paul McDaggett (John Castle), chefe da força de reabilitadores.

Robocop 3 não consegue reabilitar a franquia no cinema, mas, no mínimo, diverte o espectador que não estiver esperando muito do filme. É um passatempo que pelo menos não denigre o nome “Robocop” como o segundo capítulo da franquia fez. E isso já é alguma coisa.

RoboCop 3 (Idem, EUA – 1993)
Direção: Fred Dekker
Roteiro: Frank Miller, Fred Dekker
Elenco: Robert John Burke, Nancy Allen, Mako, John Castle, Remy Ryan, CCH Pounder, Stanley Anderson, Rip Torn, Shane Black, Stephen Root, Jeff Garlin, Robert DoQui, Felton Perry, Bradley Whitford
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.