Crítica | RoboCop – O Policial do Futuro (1987)

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estrelas 5

Lembro-me claramente da primeira vez que ouvi falar de Robocop. Era o ano anterior ao lançamento e eu estava viajando. Olhei para cima, em uma paisagem tomada de cartazes gigantes de shows e filmes, com luzes piscando para todo lado e reparei no cartaz (hoje) clássico desenhado do então vindouro filme, com o protagonista saindo de seu carro de polícia e a inscrição “Part man, part machine, all cop.” (“Parte homem, parte máquina, todo policial.”) do lado esquerdo, e de onde tirei a imagem que ilustra essa crítica. Absolutamente não liguei. Imediatamente achei que era um desenho animado de um androide policial. Nada que fosse automaticamente espetacular.

Afinal de contas, fazer um filme com atores reais seria impossível. Pelo menos em 1987. Claro, já havia assistido o primeiro O Exterminador do Futuro, mas lá era um homem com pedaços de robô e não um robô com pedaços de homem. A tecnologia analógica da época jamais permitiria algo decente que não fosse em animação e o poster, todo desenhado, deixava claro isso.

Essa minha reação, que está profundamente enraizada em meu cérebro (ou o que restou dele, depois de todos esses anos), já deixa muito claro o quanto além de seu tempo era e continua sendo Robocop. Mas esse é apenas um dos elementos que coloca esse filme no panteão de grandes lançamentos oitentistas.

O holandês Paul Verhoeven, em sua primeira obra hollywoodiana, não só entregou ao mundo um grande filme de ação, como, também, uma fita com enorme carga temática, visionária mesmo. Se pensarmos bem, a obra é quase literalmente clarividente: com anos de antecedência, o filme previu a falência da cidade de Detroit, a intensificação da violência urbana no mundo (o Rio de Janeiro, hoje, não é lá muito diferente do que vemos no filme), a privatização de serviços essenciais, a onipresença das empresas privadas, escândalos de corrupção e, claro, a influência da mídia na vida das pessoas, seja para o emburrecimento total (I’d buy that for a dollar!), seja para o controle das massas (repare nos destaques dos telejornais).

E Verhoeven, aproveitando-se do preciso roteiro de Edward Neumeier e Michael Miner, ainda joga nesse mix saudáveis doses de filosofia e drama humano. Afinal, o que faz um homem ser um homem? Suas memórias, seu corpo, sua vida pregressa ou suas ações presentes? E isso tudo em meros 102 minutos, sem se esquecer de muita ação e muita violência exagerada, estilizada, justamente para servir de crítica ao status quo que, claro, gerou reclamações de gente míope – inclusive críticos de renome – que não perdeu tempo em tachar o filme de fascista, algo que ele está longe de ser para qualquer pessoa que saiba ler nas muitas e profundas entrelinhas dessa fantástica obra.

A premissa todos conhecem (ou deveriam conhecer): Alex J. Murphy (Peter Weller), policial novato, é violentamente destroçado pelo sádico vilão – um dos vilões, na verdade – Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) e sua gangue logo em sua primeira missão. A OCP, empresa privada que controla a polícia e que tem um ambicioso executivo, Bob Morton (Miguel Ferrer), querendo passar a perna no vice-presidente Dick Jones (Ronny Cox), usa os restos mortais de Murphy para criar o Robocop, projeto concorrente ao de ED-209, um robô gigante desengonçado patrocinado por Jones que tem uma demonstração mortalmente desastrosa logo no começo do filme. Mas, depois que Robocop passa a agir, ele começa a relembrar sua humanidade e, junto com sua parceira, a oficial Anne Lewis (Nancy Allen), parte para capturar os culpados por sua condição. É, segundo seus criadores (Neumeier e Miner), uma mistura do violento Juiz Dredd da 2000 AD, juiz, júri e executor, com ROM, o cavaleiro espacial da Marvel, uma mistura de homem e máquina.

Em uma época pré-efeitos digitais, o que vemos é o design da armadura literal e integralmente vestindo o corpo de Weller, sem efeitos digitais para afinar a cinturinha como acontece no remake de Padilha. Desenhado pelo mago Rob Bottin (que trabalhara em Star Wars e viria a trabalhar em O Vingador do Futuro, Instinto Selvagem, Missão Impossível e Clube da Luta), conta a lenda que ela passou por diversas modificações posteriores pelas mãos de várias pessoas, mas que o design final foi quase que integralmente o primeiro que ele havia criado. O resultado, na verdade, gerou atraso na produção, pois a armadura final só ficou pronta exatamente no primeiro dia de filmagem em que ela era necessária e Peter Weller, que havia treinado mímica corporal com Moni Yakim, da famosa escola de dança e música Juilliard e que passou por 11 horas ininterruptas de tortura só para “vestir” a roupa, se recusou a usar o traje sem antes treinar com ele, levando à paralisação quase que por completo das filmagens. Mesmo considerando os movimentos lentos e robóticos que Weller conseguiu fazer com a armadura, é basicamente impossível não ficar admirado com sua dedicação e deixar de ficar fascinado com o que vemos na tela.

O trabalho de stop-motion de Craig Hayes (Jurassic Park, Tropas Estrelares) e Phil Tippett (Star Wars IV e V e Indiana Jones e o Templo da Perdição) é impecável ao trazer vida ao robô ED-209, transformando-o em um animal feroz (com ajuda da perfeita edição e mixagem de som tirada mesmo de sons de animais) no início e um débil produto defeituoso que nem escada consegue descer mais ao final. O cuidado no trabalho de efeitos visuais analógicos conseguem, com apenas uma exceção (a queda pela janela ao final) tornar o filme atemporal, um grande sobrevivente dos anos 80 que não deixa muita coisa a desejar aos filmes inflados de efeitos em computação gráfica que só fazem transformar tudo que vemos em desenhos animados.

Mas o mais importante é que todo e qualquer efeito em Robocop está a serviço da história. Nada existe apenas pelo espetáculo, apenas pela pirotecnia. São os efeitos a serviço do roteiro e não o contrário e o equilíbrio que Verhoeven traz entre show e drama é de fazer diretores atuais sentirem vergonha. Reparem, por exemplo na sequência em que Murphy, já transformado em Robocop, volta para sua casa, apenas para encontrá-la vazia, à venda. São cinco minutos em que aprendemos detalhes sobre sua vida pregressa e notamos o quanto ele agora sofre por não ter mais a companhia de sua esposa e filho amados. Não há diálogos (além do corretor virtual, chato que só), apenas imagens e a absorção de informação pelo espectador é enorme e perfeitamente suficiente para impulsionar a história sem paralisá-la com “momentos de doçura”. O filme não pede isso e Verhoeven (que havia descartado o roteiro e só voltou a ele por insistência de sua esposa) sabe disso e entende que as imagens – todas elas – têm que estar a serviço da narrativa.

Assim, o diretor, usando-se do econômico trabalho de montagem de Frank J. Urioste (Duro de Matar, Instinto Selvagem, O Vingador do Futuro), faz um filme esperto, redondo, sem arestas a aparar. É quase que, literalmente, uma máquina precisa de reunião de narrativa com visuais impressionantes que expõe interessantes debates sobre a violência, influência da mídia, privatizações, corrupção, autoritarismo, “gentrificação” e o que é ser humano, tudo encapsulado em frenéticos e satíricos 102 minutos.

Mas Robocop talvez não fosse a mesma coisa sem a poderosa trilha sonora composta por Basil Poledouris, que compusera, em 1982, a inesquecível trilha de Conan, o Bárbaro e comporia a de Caçada ao Outubro Vermelho. Usando brilhantemente uma mistura de música sintetizada com música orquestral, o compositor conseguiu passar muito bem, musicalmente, o embate entre homem e máquina, sendo que o tema principal, o de Robocop/Murphy, é inesquecível, daqueles que o espectador cantarola obsessivamente dias depois de assistir à película.

Apesar de ter ido a contra-gosto ao cinema em 1987, sabendo que um filme efetivamente bom com um robô policial não era possível, saí da sessão de olhos esbugalhados, sedento por mais e intrigado com o que havia visto. É claro que eu era jovem e estava mais deslumbrado com os efeitos de ponta e a pancadaria sem fim, mas temas mais complexos viriam, ao longo dos anos, se amontoando em minha mente a cada nova visita a esse seminal trabalho de Verhoeven. Robocop é tão atual hoje quanto era na década de 80 e é um dos grandes clássicos modernos da ficção científica.

*Crítica publicada originalmente em 16 de fevereiro de 2014.

RoboCop – O Policial do Futuro (Robocop, EUA – 1987)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Edward Neumeier, Michael Miner
Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Dan O’Herlihy, Ronny Cox, Kurtwood Smith, Miguel Ferrer, Robert DoQui, Ray Wise, Felton Perry, Paul McCrane, Jesse D. Goins, Del Zamora
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.