Crítica | Rocco e Seus Irmãos

estrelas 5,0

O regime fascista deixou marcas na Itália que até hoje são vigentes. O cinema, é claro, acabou influenciado pelos anos de totalitarismo encabeçado por Benito Mussolini. A vontade de libertar-se das amarras desse regime que matou e escravizou milhares de pessoas que um movimento surgiu na Itália do Pós-Guerra. O Neorrealismo italiano chegou para marcar uma época e trazer grandes clássicos para os amantes da Sétima Arte como Roma, Cidade Aberta e Ladrões de Bicicleta. O movimento se caracteriza por contar a história com ainda mais verdade, se assemelhando em alguns momentos a um documentário, e expressa os sentimentos e dificuldades da classe operária italiana, que aos poucos se reerguia e tentava encontrar o seu lugar no mundo. Além disso, o movimento normalmente trazia um ambiente cheio de injustiças e fatalidades que cruzavam a vida de seus protagonistas, que buscavam uma melhora nas suas condições de vida, mas que esbarravam com as atrocidades do homem e do sistema.

É dentro dessa temática que Luchino Visconti nos brinda com Rocco e seus Irmãos, exemplar dessa nova onda do cinema italiano. O filme acompanha a família Parondi e sua chegada a Milão. Vindos de uma pequena cidade ao sul da Itália, a mãe e os filhos chegam ao norte trazendo a morte do pai na bagagem e também a busca de uma vida melhor, fugindo da miséria e da fome que assolava quase todo o continente europeu nesse período.

A mãe, Rosaria, interpretada brilhantemente por Katina Paxinou, é a típica figura materna italiana: amorosa, apaixonada pela sua prole, e de uma ingênua que comove. Junto com ela, os filhos Rocco, Simone, Ciro e Luca chegam a Milão para viver com Vincenzo, o irmão mais velho que já vive na cidade. Aos trancos e barrancos a família consegue um lugar para morar e os irmãos sobrevivem de pequenos bicos, como retirar a neve que cai pelas calçadas da cidade, em fábricas de automóveis e lavanderias. Mas será no boxe que dois desses personagens terão a oportunidade de mudar suas vidas: Simone e Rocco. O primeiro, um lutador em ascensão não consegue lidar com a fama repentina, dinheiro, vícios e mulheres e acaba se envolvendo em vários problemas que irão refletir na vida de todos os membros da família. Rocco, no entanto, é dedicado à família e coloca seu amor pelos irmãos acima de tudo, inclusive de sua própria felicidade.

A chegada de Nádia, uma prostituta que se envolve com Simone e Rocco, é o estopim para uma série de tragédias que assolam a família Parondi e regem também o andamento do longa, dividido em cinco partes, uma dedicada a cada um dos irmãos.

A fotografia de Giuseppe Rotunno torna toda a saga dos irmãos ainda mais penosa e dolorida. Os planos fechados nos personagens centrais, a exploração bem feita da profundidade de campo nas cenas externas e ainda a montagem um tanto moderna para a época tornam Rocco e seus irmãos uma verdadeira obra-prima. Isso sem contar a trilha magistral de Nino Rota, que anos depois se tornaria ainda mais famoso e imortal com O Poderoso Chefão.

Só o elenco do filme daria uma crítica completa: Annie Girardot se entrega de corpo e alma vivendo a prostituta Nadia. Sua personagem navega por águas turbulentas e calmas durante todo o filme. O ar de deboche quando esnoba Simone e o olhar apaixonado quando está com Rocco tornam essa personagem um misto de alegria e tristeza, um pouco de como as pessoas se sentiam em uma época em que a liberdade enfim chegara, mas a felicidade parecia estar a milhas de distância. Cláudia Cardinale nos brinda com a sua beleza como a noiva de Vincenzo Parondi e já mostrava que era uma grande atriz, mesmo com apenas 22 anos. Mas é Alain Delon quem realmente nos deixa de boca aberta na frente da tela. O ator francês, que foi dublado no filme, é uma força da natureza como Rocco. Seu personagem começa muito tímido e muitas vezes esquecido no meio de tantas histórias interessantes. Mas quando se dedica ao boxe para salvar o irmão Simone, Alain Delon nos entrega uma interpretação primorosa e mostra Rocco como um homem atormentado pelo amor pela família, um homem capaz de largar toda a sua felicidade e seus sonhos para salvar quem ama. Pode-se pensar até como uma metáfora interessante que o personagem viria a se tornar um grande boxeador. Dentro do ringue Rocco era uma máquina, nocauteava todos os adversários sem medo, dó ou piedade. Fora dali era um homem com medo, que colocava seu passado e sua história antes de tudo.

É difícil dizer o que faz de Rocco e seus irmãos o grande filme que ele é. Pode a direção certeira de Luchino Visconti, as referências ao pós-guerra da Itália, o roteiro cheio de nuances ou ainda a montagem diferenciada. Isso sem falar de Alain Delon e sua beleza que hipnotiza, sua interpretação que comove. Mas seria injusto com essa grande obra ressaltar apenas uma dessas razões. Afinal, um clássico não se faz de apenas um motivo. E Rocco e seus irmãos tem motivo de sobra para se tornar um dos maiores filmes já feitos no cinema italiano.

Rocco e Seus Irmãos – (Rocco i suoi fratell) França, Itália – 1960
Direção: Luchino Visconti
Duração: 180 minutos
Roteiro: Luchino Visconti
Elenco: Alain Delon, Annie Girardot, Renato Salvatori, Paolo Stoppa, Renato Terra, Nino Castelnuovo, Katina Paxinou, Claudia Cardinale

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.