Crítica | Rocky II: A Revanche

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estrelas 4

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Levou apenas três anos para que Rocky ganhasse uma sequência após seu estrondoso sucesso de crítica, público e nas premiações. Como não poderia deixar de ser, o tema era óbvio: a aguardada revanche entre Apollo Creed e Rocky Balboa. Um pitch simples que seria aprovado na hora por qualquer produtora. A outra principal novidade é a direção de Sylvester Stallone.

Novamente voltando ao cargo de roteirista, Stallone já define o molde do longa assim que ele tem início ao retomar boa parte da primeira luta entre Rocky e Creed – Stallone usa o trecho do filme anterior. Depois, o longa começa imediatamente de onde Rocky parou. Já nos primeiros dez minutos, Stallone consegue justificar o motivo da revanche e pautar a rivalidade entre os dois lutadores. Agora, Apolle Creed, é o antagonista motivado. Tudo que tange o personagem a respeito de sua gana em vencer é bem apresentado, porém é uma pena que Stallone não explore muito Creed deixando o personagem pouco complexo durante o filme inteiro, afinal, essa era a oportunidade de conhecermos de fato, Apollo.

Depois, Stallone começa a elaborar mesmo a história deste filme que, por incrível que pareça, se trata de uma ótima narrativa. O roteirista se preocupa em já apresentar as sequelas da luta com Apollo. Agora Rocky já não pode lutar como antes pois parte de sua visão foi comprometida, além das recomendações médicas para que ele se aposente.

Então Stallone passa a trabalhar com contrastes com o primeiro filme constantemente. Vemos Rocky, antes um pobretão, finalmente a ter algum luxo na sua vida. Compra casa, carro, joias, etc. Porém, o mais interessante nesses pequenos contrastes é como ele trabalha a relação de Adrian com Rocky. Conhecemos o casal a fundo em sua dinâmica familiar. Ela, apesar de ser a razão do relacionamento, cede nos devaneios ingênuos de Rocky. Acredito que o relacionamento dos dois, em seu tom encantador e esquisito, seja um dos melhores que já vi na vida. Uma pena que nos filmes posteriores, a figura de Adrian perca importância com participações menores. Felizmente temos esse filme, o último em que Rocky ainda é um bobalhão inocente em seu romance tão puro e simples com Adrian.

Aliás, Stallone tem alguma coragem em usar Adrian como força motriz em diversas decisões de Rocky. Toda a problemática do filme segue na perturbação psicológica de Rocky em falhar com Adrian diversas vezes: contrariar sua vontade para que ele deixe os ringues, não se manter em diversos empregos secundários, na necessidade de Adrian voltar a trabalhar mesmo grávida, estar longe depois do parto e também sentir-se responsável pelo coma que acomete a mulher.

É um conflito relevante que nos conquista pouco a pouco, além de denotar o declínio financeiro e pessoal de Rocky em contraponto com a sua ascensão no primeiro filme. Rocky ganha complexidade por conta disso, além da revelação dele ser praticamente analfabeto em uma cena bem dirigida e do perigo da cegueira.

Além de Rocky e Adrian, temos o crescimento da figura de Mickey, o velho marrento treinador do personagem. Para mim, esse papel foi o qual marcou Burgess Meredith para sempre. O ator continua excepcional com seus olhares malucos e sua voz carregada ao proclamar frases de efeito excelentes: Your’re gonna eat lightning and crap thunder! O interessante é que logo a melhor frase do longa é inserida em outra cena para revelar como Rocky está desmotivado a treinar, ou seja, um uso de ironia refinada. Essa desmotivação do protagonista é contrastada diretamente com a obstinação, inserida pontualmente, de Apollo. Dessa vez a luta será para valer.

Porém, toda a construção desse treinamento desmotivado é proposital para entregar a melhor guinada motivacional da história da saga. Assim que Adrian acorda do coma, convenientemente semanas antes da luta, ela clama por Rocky e pede para ele ganhar. O momento é fortíssimo e ganha ainda mais força quando Stallone lança a sequência de treinamento em montagem com a icônica Gonna Fly Now. Não satisfeito, logo depois insere outra cena com a típica corrida de aquecimento. Dessa vez, a corrida de Rocky não é solitária: diversas crianças o perseguem até todos chegarem na escadaria do Museu de Arte da Filadélfia. Brega e potente, coisas que Stallone consegue entregar. Aliás, a sequência é diversificada e apresenta novos treinamentos além do concluir a antológica perseguição à galinha – Cidade de Deus né?

Já na direção, Stallone não inventa muita coisa. Mantém o tom realista, esteticamente rude e cru do longa anterior. Porém é nítida a diferença da adição de poucos milhões de dólares entre um filme e outro. Dessa vez a fotografia consegue preencher as ruas na profundidade de campo nas externas noturnas assim como a câmera se movimenta melhor. Também temos, enfim, figurantes para preencher a plateia da segunda luta do século. Dessa vez o embate foi travado com gente no set.

Stallone também emenda muitas sequencias em montagem por falta de criatividade e aplicar um dinamismo no filme. Temos montagens de treinamento, montagens de Rocky trabalhando e comprando. Porém, a melhore de todas é a montagem que demonstra o carinho de Rocky e Mickey com Adrian durante o coma. Verdade, há excesso de montagens, mas nada que prejudique muito. Enquanto faz sem inspiração muitas cenas, com enquadramentos simples, Stallone brilha no clímax do filme e na poderosa cena na qual Rocky pede para Mickey treiná-lo – dessa vez acontece o oposto do ocorrido no primeiro filme.

Para o clímax, temos uma excelente luta, talvez a melhor de todos os filmes, com altos e baixos muito bem dosador por Stallone, além de um trabalho de câmera excepcional com diversos planos que circundam o ringue. Dessa vez há a presença de slow motions bem inseridos sendo o melhor deles na reviravolta fantástica que se dá no último round, aliás, este, com pouquíssimo uso da trilha musical de Conti. Nos momentos finais da luta, Stallone acerta em nos deixar completamente aflitos para ver quem levanta da lona primeiro. É mais um momento brilhante que faz o coração bater forte enquanto nós torcemos por Rocky. A cena clama para nós gritarmos “Levanta, Rocky! Levanta! Falta pouco!!!” enquanto a música explode quando ele finalmente levante e vira campeão! Só nós sabemos como é divertido quando um filme provoca isso na gente.

Rocky II é um ótimo filme embora tenha uma mensagem menos poderosa que a transmitida pelo primeiro longa. Também não há mais aquelas sutilezas corajosas. Encaro esse segundo filme como um desenvolvimento e aprofundamento de três personagens – Rocky, Adrian e Mickey. Paulie, irmão de Adrian, continua um personagem perdido e pé no saco com pouca função narrativa. Já Apollo é desperdiçado, resumindo o trabalho em torno o oposto que o personagem era no longa anterior: de falastrão, feliz e eufórico para um homem fechado, violento e sóbrio. Teríamos um tremendo potencial com Apollo nesse filme.

Também na essência, Stallone procura muito ficar espelhando seu trabalho anterior e trabalhar com opostos e contrastes. Ainda que seja interessante, torna o filme óbvio, infelizmente. Enquanto desperdiça ideias nessas jogadas bobas, Stallone entrega mais uma montanha russa de emoções já que somos muito apegados aos personagens, acabamos sentindo suas dores, suas perdas, suas risadas e, principalmente, a glória de suas conquistas. Simples, mas poderoso.

Rocky II: A Revanche (Rocky II, EUA, 1979)
Direção: Sylvester Stallone
Roteiro: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burgess Meredith, Burt Young, Carl Weathers, Tony Burton, Joe Spinell, Frank McRae.
Duracão: 119 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.