Crítica | Rocky V

rokov

estrelas 2

Obs: Leiam as demais críticas dos filmes da franquia Rocky, aqui.

Em 1990, não havia muito o que Rocky Balboa podia fazer. Já havia lutado com Apollo Creed duas vezes, treinou com o antigo oponente, enfrentou o feroz Mr. T e praticamente acabou com a Guerra Fria com seus próprios punhos e boca torta ao derrotar o brutamontes Ivan Drago na União Soviética. Para a quinta aparição de Balboa nos cinemas, Sylvester Stallone recorreu ao velho amigo John G. Avildsen, que começou tudo ao dirigir o primeiro Rocky. Receita para o sucesso? Exatamente o oposto.

Depois de todos esses eventos citados acima, é mais do que compreensível que Rocky comece o filme anunciando (novamente) sua aposentadoria do boxe. Dedicando mais tempo à esposa Adrian (Talia Shire) e o filho Rocky Jr (Sage Stallone), o ex-lutador percebe que não conseguirá ficar tão afastado do esporte, e acaba por voltar aos ringues como treinador de um jovem prodígio: Tommy Gunn (Tommy Morrison).

Parecia a desculpa perfeita para um novo filme da franquia: Rocky como lutador. Aliás, tão eficiente que o vindouro Creed: Nascido para Lutar resgata justamente essa ideia, mas com sorte teremos algo mais interessante do que aconteceu em Rocky V. Novamente roteirizado por Stallone, a trama aqui é tediosa e digna de uma novela de pior qualidade, confundindo a realista melancolia do boxeador do primeiro filme com puro drama barato. Por algum motivo nunca claro, Rocky e a  família são forçados a voltar para as origens humildes na Filadélfia, trazendo de volta o velho figurino e outros elementos consagrados – como a bandinha de rua que ganha um remix anos 90 de “Shake it back”.

O grande problema é mesmo com os personagens. Dividido entre o filho e o aprendiz, é difícil escolher qual das figuras juvenis é mais irritante. Tommy Morrison é inexpressivo e caricato como Gunn, sem falar que sua caída para o “lado negro dos negócios” parece saída de um desenho animado, tendo na figura do George Washington Duke de Richard Gant um dos mais aborrecentes e cartunescos personagens da História do cinema, algo tão crível quanto a visão de Stallone para a União Soviética no longa anterior. Já Sage Stallone surge apenas como um jovem chorão e sem o carisma ou ao menos a simpatia de seu pai, transformando todas as (muitas) cenas em que Rocky Jr é o foco da atenção em um festival de tédio.

Os fãs provavelmente só lembram da briga final, que é revolucionária na franquia por trocar os ringues do boxe profissional por uma viela da Filadélfia. Rocky e Tommy trocam o pugilismo por uma estranha briga de rua, curiosa por seus golpes improvisados e uma direção nada envolvente de Avildsen, que parece despreocupado em conferir o mínimo de tensão (até o observador mais desleixado vai notar a falsidade dos socos e chutes), mas oferece espaço para frases como “Acaba com ele pai, ele pegou meu quarto!”.

Se há um momento bom aqui, é o inesperado flashback que conta com Burgess Meredith. Ambientada durante o treinamento de Rocky para seu primeiro duelo com Apollo Creed, a cena é delicada e conta com uma pérola de Meredith, quando presenteia Rocky com um honesto discurso motivacional e uma abotoadora do lutador Rocky Marciano. O design de produção acerta por nos mostrar o ginásio do Mighty Mick abandonado e caindo aos pedaços, e a fotografia adota um melancólico preto e branco para a cena, tal como um diálogo de Rocky com seu próprio passado. Funciona pela simplicidade.

É um raro bom momento em um filme deprimente. Rocky V é sem graça, arrastado e sem a empolgação de seus anteriores, chegando a ser uma dupla decepção por tratar-se do retorno de Avildsen na direção. É sem dúvida o pior filme da série.

Rocky V (Rocky V, 1990 – EUA)

Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Sage Stallone, Burgess Meredith, Tommy Morrison, Richard Gant, Tony Burton
Duração: 104 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.