Crítica | Roda Gigante

Independente do número considerável de pessoas que, anualmente, apontam os lançamentos de Woody Allen como a revitalização de sua carreira ou um retorno aos moldes de seus grandes tempos, a quase unanimidade é a de que o cineasta, dono de clássicos inapagáveis como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan, apenas citando dois títulos, se acomodou e assumiu a identidade de um contador de histórias sem muita criatividade, de textos menos afiados e reutilização constante de diversas opções estéticas que hoje soam mais como cacoetes.

Com um dedo de ouro para escalar atrizes que diversas vezes saíram premiadas de seus filmes (Dianne Keaton no já citado Noivo Neurótico Noiva Nervosa, Dianne Wiest por Hannah e Suas Irmãs, Penélope Cruz por Vicky Cristina Barcelona ou Cate Blanchett por Blue Jasmine), estabeleceu sua própria fórmula de narrativas tragicômicas, de personagens à beira do precipício e ambientados num cenário de identidade classicista (e isso até mesmo no modernoso e aborrecido O Homem Irracional) onde sempre encontramos aquele rosto que funcionará para Allen como um reflexo de si mesmo nas divagações, idealizações sobre o mundo, visão irônica e contestadora sobre tudo, etc. Na bola da vez, é Justin Timberlake (A Rede Social) que assume essa persona, enquanto uma história de traição, ciúmes e um crime inevitável se desnudam na tela. Algo completamente Woody Allen, para o bem ou para o mal.

Em meio a suas ideias que, mais uma vez, ficam pelo caminho, Allen faz de seu narrador e alter-ego um dramaturgo fracassado que sonha em escrever um grande clássico, salvando vidas numa praia de Coney Island nos anos 50 enquanto isso. Estabelecendo esta conexão que remete diretamente ao teatro, o cineasta se junta ao diretor de fotografia Vittorio Storaro, com quem já havia firmado parceria em Café Society, para filmar um balé de desenlaces furtivos que se passam, em 80%, na casa ao lado do parque, onde Ginny (Kate Winslet) vive com o filho Richie (Jack Gore), que mantém uma relação estranha com o ato de tacar fogo nas coisas, e o marido Humpty (James Belushi, de K-9 – Um Policial Bom pra Cachorro), que logo vê sua filha perdida Carolina (Juno Temple, de Desejo e Reparação) retornar após ter fugido das mãos de seu marido gângster. Ginny, então, conhece o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake) e inicia um tórrido romance secreto.

Em comparação ao seus últimos trabalhos, carentes de vida própria e extremamente dependentes de como seus atores iriam proferir os rápidos diálogos do roteiro com o mesmo cinismo que acompanhasse a sua escrita (os malfadados Para Roma, Com Amor e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos estão aí como primeira prova), Roda Gigante se faz notável com sua vontade de ser mais intenso e envolvente do que os mesmo desenlaces que já havíamos acompanhado anteriormente. Muito auxilia nisso o trabalho surreal de Storaro com os enquadramentos e iluminações, tornando as cores de suas luzes quase um personagem à parte de Roda Gigante, que acompanham os sentimentos dos personagens como códigos de entendimento sobre os desenlaces do roteiro, novamente aproximando aqui a obra de uma ambientação teatral. O resultado é impressionante e, por mais que algumas vezes soem como distração aos olhos, resulta numa funcionalidade inesperada, como no momento em que Ginny e Mickey conversam à noite debaixo de um cais. Allen ganhou aqui o seu filme mais bonito em anos.

Mas como qualquer cineasta que produz na mesma velocidade como quem troca de roupa, o roteiro de Allen novamente se faz defeituoso e carente de uma revisão que lhe aponte a milionésima repetição de artifícios, macetes e situações que jogam Roda Gigante no mesmo acúmulo de plots e personagens que, em algum momento, Allen perde o controle e deixa de conseguir dar conta. Se a mise-en-scène se mantém firme em sua economia (reparem na primeira conversa da família após a chegada de Carolina), os diálogos se afrouxam em sua condução e o caminhar das resoluções para o choque entre cada plot se revela superficial e apressado, com detalhes riquíssimos deixados aos vento pelo roteiro indeciso de Allen, como a piromania do filho de Ginny (o guri é, sem dúvidas, o que há de mais enigmático aqui) ou a opção em conferir a narração para um personagem tão desvalorizado como o de Timberlake, que somente caminha atrás de todos os personagens. E para o ator/cantor, a situação se complica diante da garra com que Winslet (em um tour de force que parece querer desafiar Cate Blanchett) defende a transitoriedade emocional de Ginny, numa caricatura equilibrada que lhe é indispensável para torná-la uma personagem palpável. Juno Temple sai de sua eterna posição de coadjuvante e encarna Carolina como uma fragilidade comovente, e James Belushi se enquadra fácil no papel do pai rústico que, independente de sua insensibilidade tipicamente máscula, sempre demonstra seu amor pela família através dos próprios métodos.

Roda Gigante poderia ter sido, sim, a revitalização na carreira estagnada na mesmice de Woody Allen, e havia vontade para tal com tantos talentos envolvidos, mas as aleatoriedades se acumulam perto do desfecho e não sustentam o texto sem muito brilho, e o resultado é uma experiência luxuosa, mas sem a vivacidade que tanto precisa.

Roda Gigante (Whonder Wheel) – EUA, 2017
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Kate Winslet, Juno Temple, James Belushi, Justin Timberlake, Debi Mazar, Max Casella, Tony Sirico
Duração: 101 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.