Crítica | Rodan!… O Monstro do Espaço (1956)

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Contração de Pteranodonte (réptil que viveu no período do Cretáceo, na região da atual América do Norte; um dos maiores pterossauros que já existiram, com cerca de sete metros e meio de envergadura), Radon — que na versão em inglês em também em português foi mudado para Rodan, dizem que para não haver confusão com o elemento químico radônio — surgiu em 1956, como um complemento temático daquilo que Godzilla (1954) representou para o Japão.

Se no caso do lagarto atômico estava explícito os efeitos e o medo das consequências da bomba, no caso do pteranodonte esse medo permanece, mas vem acompanhado de possíveis aplicações políticas, agora com o Japão olhando para um de seus vizinhos, a União Soviética, que também tinha pesados armamentos e que, em sua Guerra Fria com os Estados Unidos, poderia desencadear efeitos indiretos capazes de causar grande destruição. Por maior apelo dentro do gênero kaiju somado a remodelagens da ficção científica e de filmes de desastre que a obra tivesse é impossível tirar de sua concepção o contexto em que o Japão e o mundo viviam naquela segunda metade dos anos 1950.

Sendo o primeiro filme de monstro filmado em cores no país dos samurais, Rodan também foi um dos primeiros a mostrar grandes criaturas com origem bagunçada — o próprio título em português é parte dessa bagunça, já que o pássaro não é “do espaço” coisíssima nenhuma — e um dos bichos mais difíceis de serem enfrentados. O roteiro, escrito a seis mãos, começa com um estranho mistério, dando conta de que muitos mineradores estão desaparecendo da mina número oito na vila de Kitamatsu. As suspeitas vão até o momento em que um inseto pré-histórico aparece e mostra a todos que o local é uma espécie de “viveiro do passado”, um lugar onde, pouco tempo depois, será chocado o ovo com [um dos] Rodan do filme.

Um dos grandes erros dos roteiristas na fita é justamente essa desorganização quanto ao tipo de vilão e o modo como eles aparecem. Contribuem para esta descida aos infernos cinematográficos a edição e montagem que não se resolvem quanto a ritmo, modelos de transição e cuidado com espaços mortos, muitas vezes estragando cenas que poderiam ter ficado muito boas. Voltando ao roteiro, nós somos “enganados” por pelo menos metade do filme, quando achamos que Rodan é, na verdade, um dos estranhos insetos de barulho irritante que vemos atacar os aldeões em torno das minas. De maneira igualmente vergonhosa, a investigação para se descobrir a origem dos animais é aleatória, trazendo declarações que nos fazem perguntar por um tempo muito maior que o necessário qual é, de fato, a origem de Rodan; o que são aqueles insetos vistos no começo do filme e por quê, de maneira milagrosa, aparece outro animal da mesma espécie se nenhuma indicação da existência de outro ovo havia sido dada?

Diferente das boas explicações fornecidas em Godzilla e até mesmo de uma parte da investigação mostrada em Godzilla Ataca Novamente (1955), Rodan não tem um bom princípio de explicações dentro de sua proposta, falha que infelizmente afeta a ação do filme, porque parece cada vez mais apelativa ou até sem sentido para o espectador. Evidente que não são todos os momentos e que o diretor Ishirô Honda faz uma boa mistura de takes reais em aviões e em espaços diferentes das locações com animação da criatura com um ator vestindo uma fantasia e gravando algumas cenas (aqui, Haruo Nakajima) e, claro, bonecos movidos com fios nas cenas da cidade em miniatura, que representam todo o bloco de ação da película, do bombardeio aos Rodans (que praticamente destrói toda a cidade só com o vento de suas asas e de seu grito — sim, é absurdamente hilário), até o bombardeiro de um vulcão da região, momento em que o monstro pré-histórico revivido pela bomba (???) encontra o seu fim. Ao menos por enquanto.

Apesar das atuações sofríveis da maioria do elenco, das péssimas justificativas do roteiro, dos diálogos e da montagem que não ajuda em anda, nós temos uma direção que consegue um espetáculos às vezes cômico — mesmo que a intenção não tenha sido essa, mas é impossível não rir em alguns pontos — e outras vezes muito instigante. Digam o que quiser desse dino voador fora de época, uma coisa é certa: ele já nasceu na lista dos monstros badass do cinema.

Rodan!… O Monstro do Espaço (Sora no daikaijû Radon) — Japão, 1956
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Takeshi Kimura, Ken Kuronuma, Takeo Murata
Elenco: Kenji Sahara, Yumi Shirakawa, Akihiko Hirata, Akio Kobori, Yasuko Nakada, Minosuke Yamada, Yoshifumi Tajima, Kiyoharu Onaka, Ichirô Chiba, Mike Daneen, Tsurue Ichimanji, Saburô Iketani, Saburô Kadowaki
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.