Crítica | Rogue One: Uma História Star Wars (Com Spoilers)

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estrelas 5,0

Obs: Leiam a crítica sem spoilers aqui. Sigam com a leitura sob sua conta e risco! E tenham paciência, pois o texto é longo e detalhado.

Depois de assistir Rogue One, a sensação que tive é que esta foi a primeira vez depois que a Trilogia Original foi encerrada em 1983, que algum filme da franquia realmente conseguiu recapturar aquilo que fez de Star Wars Star Wars. George Lucas tentou fazer algo diferente e destruiu os prelúdios. A Disney tentou fazer algo igual e… bem, fez algo igual que é bacaninha e tal, mas que, convenhamos, é apenas mais do mesmo lá no fundo.

Gareth Edwards (Monstros e Godzilla), com roteiro de Chris Weitz (Formiguinhaz, Um Grande Garoto e Cinderela) e Tony Gilroy (o grande nome por trás da franquia Bourne), conseguiram entregar um filme que tem a ousadia que O Despertar da Força evitou a todo custo e o respeito ao cânone que Lucas desprezou com os intragáveis Episódios I, II e II em um pacote cheio de personalidade e, principalmente, diferente de tudo que já vimos nessa galáxia muito, muito distante sem ser algo completamente à parte e divorciado de tudo que veio antes. Um feito que por si só já merece aplausos.

O filme, para começar, assim como foi o Guerra nas Estrelas original de 1977, é completamente autocontido. Ele conta uma história clara com começo, meio e fim (com direito a prólogo), apresentando um grupo de personagens quase que completamente inexistente até esse momento, fazendo-nos simpatizar com eles – ainda que não totalmente, como abordarei mais para frente – e, depois, liquidando-os mais do que completamente, sem dó nem piedade, no melhor estilo Os Sete Samurais e outras obras no estilo “grupo improvável se reúne em prol do bem comum e morre um a um na missão”, algo completamente inédito, nessa escala, em toda a franquia.

E o melhor é que o filme, assim como o primeiro, pode efetivamente funcionar como ponto de partida para todas as três ou quatro pessoas do mundo que ainda não assistiram os demais filmes, algo que nem mesmo O Despertar da Força permite completamente. Claro que assistir Rogue One conhecendo a Trilogia Original permite outra camada de apreciação, mas, em um sinal de roteiro bem escrito, nenhuma referência ao universo já conhecido dos fãs é intrusiva ou de alguma forma atrapalha a narrativa, algo que é um verdadeiro alívio para o mundo em que vivemos hoje, em que roteiros são praticamente escritos ao redor de referências.  E o melhor dessa constatação é que Rogue One, se pararmos para pensar, nada mais é do que uma imensa referência única, mas que, de tão bem estruturada e desenvolvida, funciona de maneira independente.

Rogue One, no entanto, não é um filme sem problemas, como, aliás, nenhum filme da franquia realmente é (ou, mais genericamente, nenhum filme é). Como justificar então as cinco estrelas? Muito simples. Assim como acontece em Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, os defeitos existentes ficam soterrados debaixo da sinfonia regida por Edwards em um trabalho hercúleo de “criação e destruição” de universo como raramente se vê por aí.

Como falei dos defeitos, talvez seja interessante, então, começar por eles.

Prefiro beijar um Wookiee!

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A Trilogia Original e, até certo ponto, – com ressalvas – a Trilogia Prelúdio têm como grande característica quebrar o molde pelos quais se fazem efeitos especiais. A Industrial Light & Magic praticamente estabeleceu as “regras” da nova geração de efeitos práticos e estabeleceu as bases para os hoje useiros e vezeiros efeitos em computação gráfica, tão diluídos por mau uso. Em Rogue One, o trabalho dos efeitos em geral volta a nos dar uma forte impressão de “mundo vivido”, mesclando muito eficientemente efeitos práticos com computação gráfica.

Diversos alienígenas são criados unicamente com o uso inteligente de maquiagem e próteses e quando há fusão de efeitos digitais, eles funcionam de maneira transparente. Mesmo os efeitos exclusivamente digitais são bem utilizados aqui, sem exageros artificiais (talvez com exceção do monstro cheio de tentáculos que brevemente vemos torturando Bodhi Rook) e todos bem costurados com as imagens capturadas em “película”. As batalhas espaciais merecem particulares aplausos, por oferecerem fluidez e uma sensação de “peso” a cada nave, seja pequena, grande ou gigantesca, algo que fica patente nas aparições da Estrela da Morte – em sensacionais ângulos inéditos – e na manobra que a corveta Hammerhead faz ao “empurrar” um Destróier espacial à deriva para cima de outro, resultado na espetacular destruição mútua e, por consequência, do escudo de força ao redor do planeta Scarif.

E, contrastando com os pontos negativos que abordarei em seguida, a captura de performance de Alan Tuddyk – e seu trabalho de voz – para a criação do impagável androide imperial reprogramado K-2SO, é um tour de force magnífico tamanha é sua “realidade” ao contracenar com os atores e lidar com os cenários físicos ao seu redor.

Mas não há como deixar de fora os dois elefantes digitais que torpedearam a imersão no filme: o Grão Moff Tarkin e a Princesa Leia. E eles merecem análises separadas.

Tarkin foi vivido magnificamente por Peter Cushing em Uma Nova Esperança. O ator, que se notabilizou por suas atuações em clássicos do horror, faleceu, porém, em 1994 e sua volta – extremamente necessária para que Rogue One pudesse ser “encaixado” na mitologia já estabelecida – poderia acontecer de três formas: por meio de um novo ator e uso de maquiagem prática, por meio de truques de câmera e um roteiro que permitisse o uso de personagem em momentos cirúrgicos e apenas na penumbra ou – o mais arriscado e o que foi feito – por meio do uso pesado de CGI.

A não ser que o espectador não faça ideia que Cushing faleceu ou que tenha percepção visual prejudicada, é impossível não reparar que há algo errado com o personagem. Por mais que esforços tenham sido empregados para dar vida ao “boneco digital”, ele ainda parece o que é. A tecnologia talvez ainda não tenha chegado ao ponto para que seja possível trazer de vota à vida atores falecidos (imaginem as possibilidades!) e o uso relativamente extenso de Tarkin em Rogue One deixa isso à mostra. A própria Disney, ao rejuvenescer Michael Douglas em Homem-Formiga e Robert Downey Jr. em Capitão América: Guerra Civil, já havia impressionado com a tecnologia, mas o que é feito aqui ainda não tinha paralelo na Sétima Arte: a reconstrução total de um ator falecido e sua inserção efetiva em uma produção cinematográfica de peso. O resultado fica aquém do que se poderia esperar – personagens fictícios e não exatamente humanos como Gollum funcionam melhor justamente por não tentarem espelhar a realidade -, mas, tenho certeza, foi o melhor possível.

Mesmo, porém, com esse “elefante digital quebrador da quarta parede”, o caso de Tarkin é perfeitamente justificável e, muito sinceramente, prefiro sua presença assim do que sua ausência ou de seu uso limitado. Tarkin é o comandante da Estrela da Morte em Uma Nova Esperança, hierarquicamente ocupa a mesma posição de Darth Vader, contando com amplo respeito pelo Imperador, como vimos no livro canônico de James Luceno. Mesmo que o foco seja no Diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn) em Rogue One, era vital que o vilão que viria a destruir Alderaan fosse explorado, gerando tensão e um senso de conforto aos espectadores. Portanto, a troca, aqui, foi justa.

Já no caso de Leia, ainda que seu rosto seja visto por apenas uns três segundos e ao final da projeção, o momento é como um trem sendo descarrilado (com o espectador como passageiro). Nesses três segundos, um nome me passou pela cabeça: Robert Zemeckis. Várias vezes provando-se um grande diretor, ele tentou desbravar o mundo da captura de performance criando, no processo, pavorosos personagens digitais em filmes como O Expresso Polar e A Lenda de Beowulf. A Princesa Leia parece saída de um desses pesadelos cartunescos de Zemeckis…

E o pior é que, diferente de Tarkin, sua presença era desnecessária à trama. Sua presença de frente, digo. Bastava termos visto a heroína de costas para que toda a mensagem fosse passada. Quando a câmera foca em seu rosto, porém, todo o esforço de se conectar Rogue One com Uma Nova Esperança (com a repetição da palavra “esperança” umas 500 vezes ao longo da projeção…) quase vai por água abaixo. Quase.

Novamente, porém, o resultado do conjunto me impede de tirar pontos do filme por esse problema (Leia especificamente), ainda que eu o reconheça e o execre.

Aquilo não é uma lua…

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Weitz e Gilroy trabalharam em cima de uma história criada por John Knoll e Gary Whitta que, francamente, nada mais é do que um amontoado de clichês clássicos constantes de um sem-número de filmes desde a invenção do cinematógrafo. Mas clichês, quando bem usados, podem ser uma dádiva e isso é exatamente o que acontece aqui.

Quantos filmes já vimos que reúnem um bando de desajustados que, de forma hesitante, formam uma equipe em uma missão suicida? Essa é premissa básica de Rogue One, com Jyn Erso (Felicity Jones) sendo recrutada pelo comandante rebelde Cassian Andor (Diego Luna) para ajudar em um plano que envolve seu pai que não vê há 15 anos, um rebelde extremista que cuidou dela como se filha fosse e o ponto fraco de uma estação espacial mortífera do Império cuja construção está chegando ao fim, ameaçando toda a Aliança Rebelde.

O que separa o roteiro do filme da temática batida é como ela é abordada e como seus personagens são construídos. Vão pela janela o didatismo extremo e as conveniências do tipo “ele é especialista em facas, ela é especialista em demolição” e, em seu lugar, entra uma organicidade muito elegante para cada um dos membros da equipe rebelde de um lado e do Império de outro.

Quando o filme começa, vemos um prólogo que estabelece a separação de Jyn de seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen) e a morte de sua mãe Lyra (Valene Kane). A informação que recebemos em seguida, já no presente, é que Galen, agora, depois de recrutado por Krennic, é o engenheiro responsável pela construção da Estrela da Morte e que um piloto imperial desertor tem uma mensagem que possivelmente vem de Galen endereçada a Saw Gerrera (Forest Whitaker), rebelde de táticas radicais que não compactua com a Aliança Rebelde.

Com isso, a missão é bipartida, como em uma caça ao tesouro. Primeiro uma hesitante Jyn, um frio Cassian e um sarcástico K-2 precisam localizar a tal mensagem, algo que é usado de forma dramática para reunir os demais “membros” da equipe: os Guardiões dos Whills Chirrut Îmwe (Donnie Yen, da franquia Ip Man), cego e “ninja” e Baze Malbus (Wen Jiang), a versão humana do Rocket Raccoon, além do piloto desertor Bodhi Rook (Riz Ahmed, de The Night Of). Reparem como a coisa é feita de maneira orgânica e precisa, sem qualquer artifício narrativo clássico como recrutamento ou coincidências exageradas. Ao contrário, há uma confluência natural e costurada em cima de um ataque contra o Império orquestrado por Gerrera.

O grupo é diverso e cada um tem seu objetivo particular. Na verdade, não é ainda um grupo e eles precisam aprender a lutar como um. Ao mesmo tempo, vemos em Saw Gerrera uma visão de futuro, alguém que, ao longo das décadas, literalmente sacrificou partes de seu corpo, tornando-se uma versão cospobre de Darth Vader, para uma causa que ele sabe tem poucas chances de dar em algo. Seu sacrifício, sua resignação diante da destruição de Jedha é, de certa forma, uma passagem de bastão para Jyn Erso e as ideias da Aliança Rebelde que ele mesmo desgosta em um sinal de que seus métodos no estilo “terrorista” são equivocados.

Encerrada a construção da equipe, a segunda missão começa: a captura (para Jyn) ou assassinato (para Cassian) de Galen em Eadu. Essa sequência funciona como o ponto de virada, como a efetiva formação da equipe. Cassian revê sua vida a serviço da Aliança somente obedecendo ordens sem discutir, Chirrut e Baze tornam-se protetores de Jyn, Bodhi, conforme K-2SO deixa claro, torna-se um rebelde e Jyn, finalmente, tem seu breve, trágico e revelador reencontro com seu pai, Galen, quando ela finalmente percebe quem ela realmente é. Ou melhor, quem ela sempre foi. Afinal, ela foi treinada a vida toda para lutar contra o Império e apenas não ligou os pontos. É como se sua vida começasse ali, na plataforma de pouso chuvosa e escura, segurando o corpo inerte de seu pai.

Com o prólogo e as duas missões iniciais tomando praticamente pouco mais da metade do tempo de projeção, Edwards calibra a narrativa a partir desse ponto para trazer questões políticas de ambos os lados do conflito. A hierarquia imperial é abordada, com o Diretor Krennic entrando em conflito com o Grão-Moff Tarkin (espiritualmente Peter Cushing) e sendo convocado por Lorde Vader para explicar-se, o que inteligentemente já insere o grande vilão da franquia na história de forma a evitar que seu triunfal aparecimento ao final pareça aleatório ou um mero e jogado fan service (que fique claro: é fan service, mas do melhor tipo, já que é um script service também, pois serve à narrativa de forma redonda). Do lado dos Rebeldes, descobrimos exatamente o porquê que eles se chamam Aliança Rebelde, algo que nunca paramos para pensar de verdade, com diversas facções em constante conflito sobre que estratégia tomar e quase completamente se fragmentando diante da ameaça da Estrela da Morte.

A pegada adulta do roteiro se faz presente já aqui, com o esfacelamento daquela imagem clássica dos mocinhos maiores que a vida e sempre certos e resolutos. Cassian é um assassino – quando ele mata seu informante a sangue-frio no entreposto comercial, isso já fica mais do que claro – e os vários membros da Aliança pensam mais de forma egoísta do que no bem de todos e tudo depende da coragem demonstrada pela novata Jyn tentando homenagear a memória do pai para que a maré volte a beneficiar o grupo. E é depois desse “interlúdio” que, então, há o ingresso na terceira e suicida missão: uma ataque à base imperial em Scarif, onde os planos estruturais da Estrela da Morte estão arquivados.

Aqui, a fluidez é de uma sinfonia. Toda a longa e complexa sequência que vai eliminando os personagens um-a-um e caminhando para um desfecho que esperamos, mas não sabemos exatamente como acontecerá, mostra a equipe de Jyn pela primeira vez trabalhando 100% em prol de um único objetivo. Cada personagem tem sua função e ninguém é simplesmente esquecido pela câmera de Edwards. Seja a fé de Chirrut ou a lealdade de Baze ou ainda a vontade de se redimir de Bohdi, cada elemento que fora apresentado em “pedaços” antes ganha sua forma final aqui, tornando relevante cada morte, cada gota de sangue derramada em nome da Rebelião.

O “posfácio” com Darth Vader (voz do octogenário James Earl Jones) é como a proverbial cereja no bolo. Em última análise, lá no fundo, a costura que é feita com Uma Nova Esperança é desnecessária sob o ponto de vista dramático e narrativo, mas ela é tão perfeita, tão fluida e tão bem estruturada que não há como não prender a respiração esperando ver exatamente aquilo que Edwards entrega: ação que vai até poucas horas antes da perseguição da Tantive IV pelo Destróier Imperial de Vader. Um coup de grâce inesquecível da produção.

Boa garoto, mas não fique convencido!

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O elenco mais diverso de um blockbuster nos últimos anos e que não precisou se valer de estratégias de marketing para que essa questão fosse abordada, como muitos gostam de laurear por aí, entregam um fabuloso conjunto harmônico que convence a cada momento diante das câmeras. É como ver improváveis escalações para um filme da franquia encaixando-se milimetricamente em um jogo de Tetris. Cada personagem é cuidadosamente composto na medida do necessário para fazer a narrativa avançar e envolver o espectador nessa versão “micro” do vasto universo já criado ao redor, sem que o investimento sentimental atrapalhe a compreensão das funções de cada.

Peguem o veterano Forest Whitaker, por exemplo. Seu personagem é fisicamente fascinante e chama atenção sem que ele precise esboçar qualquer tipo de reação, mas, nos pouquíssimos minutos que ele tem de tela, o ator entrega toda a dor, a paranoia, o peso de uma vida inteira cercada de mortes, fugas e sacrifícios pessoais. Sua dedicação por Jyn fica patente apenas com seu olhar no primeiro quadro do reencontro dos dois. Sua voz alquebrada entrega a emoção na dose necessária para que entendamos o recado sem que Gerrera perca sua figura lendária. Reparem só: um parágrafo inteiro para uma participação de três, talvez quatro minutos, caros leitores…

Ben Mendelsohn, excelente ator que ainda não tivera seu grande papel no cinema o tem aqui em Rogue One. Talvez alguns possam dizer que ele é o vilão unidimensional da história, mas eu diria que esse adjetivo se encaixaria mais para Tarkin e até mesmo Vader. O Krennic de Mendelsohn tem um coração negro, sem dúvida, mas ele, em seu âmago, muito provavelmente age movido pela efetiva crença de que os fins justificam os meios. Se ele tiver que destruir uma meia dúzia de planetas para alcançar a paz na galáxia, ele assim o fará. Por isso sua frieza ao tratar com seu amigo Galen, ao mandar matar Lyra e ao ordenar que seus Death Troopers executem os engenheiros em Eadu. Ele só perde sua compostura quando sua posição na hierarquia imperial é ameaçada, algo que é mais caro a ele do que qualquer outra coisa e que Mendelsohn deixa claro com sua inflexão de voz que mistura deboche com arrogância, seu olhar perfurante e seu perturbador sorrisinho depois de ser enforcado por Vader.

A protagonista, Jyn Erso, vivida por Felicity Jones é uma espécie de anti-Rey. Não há inocência em sua atitude ou sua voz, apenas mágoa, tristeza e conformidade com o status quo, algo que ela reputa como inevitável até a grande virada com a morte de Galen. Seu arco dramático é, sem dúvida, o mais completo, ainda que, possivelmente por direção de Edwards, Jones não componha a personagem de maneira a torná-la alguém com quem o espectador simpatizará automaticamente como acontece com Daisy Ridley e sua Rey. Se duvidar, o objetivo não é fazer o espectador simpatizar com Jyn, mas sim respeitá-la e no mesmo passo que Cassian passa a respeitá-la. Como não tirar o chapéu para uma escolha arriscada como essa, que Jones tira de letra, hein?

Eu poderia dizer o mesmo de Diego Luna e seu Cassian. Sua curva de crescimento é bem menor que a de sua parceira de luta, mas ela existe e é catalisada pela percepção de Chirrut sobre a “prisão interna” que ele carrega consigo para onde quer que vá. Ele é um homem preso às suas convicções e à uma estrutura de comando rígida. Ele não foi feito para duvidar de ordens recebidas. Luna, ainda que tenha de certa forma pouco espaço para trabalhar seu personagem, consegue estabelecê-lo já cedo na narrativa, com a química dele com Jones funcionando muito bem e convencendo-nos da inevitável união pré-incineração ao final.

Mads Mikkelsen é a intensidade em pessoa nos pouquíssimos minutos que tem para mostrar seu trabalho. Seu semblante de dor o acompanha em cada frame e nos identificamos e sofremos com isso a partir dos primeiros segundos dele em câmera no prelúdio. É interessante como o mistério sobre seus propósitos só fica realmente escondido do alto comando rebelde, já que, para nós – e para Jyn – é claro que ele sempre atuará tendo a Rebelião (ou o melhor para Jyn, como ele diz ao deixá-la ainda jovem) em mente.

De forma muito semelhante a Mikkelsen, mas de um lado mais iluminado, temos Donnie Yen que nos mesmeriza com suas habilidades com artes marciais (reza a lenda que ele criou um estilo de luta específico para Rogue One) e cria um Chirrut que é ao mesmo tempo alívio cômico e consciência, em uma mistura de Grilo Falante com “bobo da corte” travestido de ninja-quase-Jedi-mas-mais-Jedi-que-muito-Jedi que rouba toda as cenas em que aparece.

Quando eu o deixei, era apenas um aprendiz; agora sou o mestre.

jedha

Mais intensamente do que em O Despertar da Força, Rogue One emula com muita proximidade – e mais realismo ainda – o “espaço vivido” que é marca registrada da franquia (se descontarmos a Trilogia Prelúdio, que mais parece a versão sanitizada desse universo, com seus efeitos especiais de desenho animado). O design de produção é extremamente cuidadoso ao retomar praticamente tudo o que vemos em Uma Nova Esperança sem adicionar invencionices.

O quartel-general rebelde em Yavin-4 é a maior prova disso. As tomadas interiores parecem que foram filmadas com props do filme original. Os computadores, as telas, os botões, os figurinos, tudo ali presente nos transporta de volta a 1977 e nos coloca no exato mesmo universo sem qualquer quebra de continuidade. O mesmo vale para os interiores das naves e bases imperiais que acompanham o desenho já conhecido da Estrela da Morte do primeiro filme. O que é acrescentado – naves diferentes de um lado e de outro do conflito, criaturas inéditas, novas armaduras de tropas imperais e assim por diante – não quebra a impressão original, não nos desloca para fora da narrativa. Muito ao contrário, o que é criado aqui acrescenta ao que já está estabelecido de forma transparente, como se sempre tivesse estado lá.

A fotografia de Greig Fraser é um mundo à parte. Ou vários mundos à parte. Suas experiências como diretor de fotografia em A Hora Mais Escura, Foxcatcher: uma História que Chocou o Mundo e O Homem da Máfia, ajudam na sua composição dos diferentes planetas pelos quais passeamos ao longo da projeção. De um planeta verdejante no prelúdio para um entreposto comercial apinhado de gente em um cinturão de asteroides, passando por um planeta semi-desértico, outro com rochedos e chuvas torrenciais, culminando com um paraíso caribenho, vemos seu trabalho mudar completamente e adaptar-se às demandas da narrativa. Planos gerais são contrapostos a planos médios e americanos usados para trabalhar o tom de ameaça e a proporção do poder bélico do Império vis-à-vis a pequenez corajosa da Aliança Rebelde. Super wide-shots com a Death Star-rise no horizonte de Scarif ou em proximidade a um Destróier criam a desesperança necessária para criar a urgência das missões de Jyn e equipe, algo amplificado pela maestria na composição das sequências de batalha em terra, o grande foco da fita.

No mesmo diapasão, a montagem de John Gilroy, Colin Goudie e Jabez Olssen coloca o espectador no meio do conflito, mas sempre mantendo-o ciente do que o cerca, sem que cortes velozes demais façam as sequências perderem sua lógica narrativa quando isto não é necessário. Até mesmo a clássica montagem paralela final, com ações dentro da torre, no solo e em órbita de Scarif mantém uma estrutura compassada e perfeitamente distinguível a todo momento. Nesse aspecto, basta comparar com a confusão do final de A Ameaça Fantasma para notarmos rapidamente como um bom trabalho de planejamento prévio faz diferença sempre e isso considerando que Rogue One passou por extensas refilmagens e alterações da montagem na pós-produção.

Você não é um pouco baixo para um Stormtrooper?

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Rogue One é o primeiro longa-metragem de cinema da franquia Star Wars que não conta com trilha sonora composta pelo mitológico John Williams. Uma escolha arriscada, mas correta. Assim como houve a eliminação dos famosos letreiros de abertura que marcam os filmes, séries, quadrinhos e games neste universo (algo que, confesso, trouxe-me estranhamento ao mesmo tempo que admiração), a substituição de Williams era importante para quebrar a “linha melódica” dos filmes “numerados”. Rogue One é para ser diferente e a manutenção da linguagem musical deste grande compositor poderia engessar o filme.

Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste, Godzilla) foi o escolhido para compor a música do filme, mas as refilmagens atrasaram a montagem e ele precisou seguir seu próprio caminho com outros compromissos. Um grande nome se foi, mas outro grande nome entraria no barco já próximo de ser atracado: Michael Giacchino, compositor de carreira meteórica e responsável pelas trilhas de Lost, Up – Altas Aventuras, Ratatouille, os três filmes do reboot de Star Trek e Doutor Estranho.

Mesmo assim, dois fatores conspiraram contra ele: tempo e expectativa. Afinal, ele foi chamado para “tapar buraco” e teve que correr com seu trabalho em um espaço de tempo menor do que o já costumeiramente curto tempo que os compositores têm para entregar suas obras para filmes. Mas a expectativa era seu maior inimigo talvez e é muito fácil descartar o que Giacchino fez por não ter nenhuma composição bombástica como a faixa título de Star Wars ou a Marcha do Império. E, de fato, não há.

A trilha de Giacchino, aqui, faz algo corajoso. Teria sido um caminho mais simples se eles simplesmente retrabalhasse temas clássicos de Williams, dando seu toque. Mas, assim como ele fez com o reboot de Star Trek, ele escolheu partir substancialmente do zero. Pode ser que ele não tenha alcançado a mesma qualidade do que ele fez na franquia rival, mas uma nova música tema não era necessária aqui. Suas notas primam pela sutileza, pelo silêncio quebrado por uma trilha de cunho utilitário que ele constrói em cima dos conceitos musicais de Williams.

Mas ele faz sim sua própria marcha, uma que é específica para Rogue One e que perpassa toda a trilha depois de apresentada na faixa inicial do prelúdio sobre o título em tela. Esse tema, que se confunde – propositalmente – muitas vezes com o de Jyn, carrega o peso de um drama militar e de uma história que sabemos que não pode acabar bem. Ecos de Marcha Imperial aqui, de tema de Luke Skywalker ali e o resultado é um conjunto harmônico que, se não ficará na memória, certamente é um trabalho mais do que digno para receber o selo John Williams de qualidade.

Esses não são os droides que vocês procuram…

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Rogue One é Star Wars em seu coração, mas algo completamente novo em sua execução. A obra de Gareth Edwards faz extenso uso de uma biblioteca de clichês cinematográficos e de referências ao universo criado por George Lucas em um pacote de narrativa cirúrgica repleta de personagens interessantíssimos, ação, drama, momentos inesquecíveis e, sim, um profundo – diria inigualável – senso de respeito a tudo o que veio antes, que consegue apenas ampliar a urgência da Trilogia Original, visto que agora o sacrifício de todos que vieram antes de torna mais palpável.

Este é o filme de Star Wars que esperávamos de verdade. E ele automaticamente se torna o padrão pelo qual todos os próximos serão medidos.

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story – EUA, 2016)
Direção:
 Gareth Edwards
Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy
Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Wen Jiang, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen,  Jimmy Smits, Alistair Petrie, Genevieve O’Reilly
Duração: 134 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.