Crítica | Rogue One: Uma História Star Wars, por Alexander Freed (adaptação literária)

estrelas 5,0

Apesar de não gostar de ler adaptações literárias de obras cinematográficas, sempre abri uma exceção para tudo relacionado a Star Wars e por duas razões. A primeira é que é Star Wars e não é necessário mais explicações sobre isso. A segunda é mais complexa e tem ligação direta com a dificuldade de se adaptar algo tão rigidamente controlado por George Lucas e, agora, pela Disney. O autor precisa saber driblar as restrições naturalmente impostas para encontrar sua voz, ao mesmo tempo tendo que se manter adstrito ao material que chegou às telonas. Se isso não foi verdade na adaptação literária do primeiro filme, diante do futuro ainda enevoado da franquia, essa regra certamente foi seguida nos demais livros, com a recente adaptação de O Despertar da Força, pelo aclamado Alan Dean Foster (pioneiro em Star Wars, tendo famosamente adaptado Uma Nova Esperança), sendo um desapontamento por justamente não conseguir ser muito mais do que um roteiro levemente transformado do filme.

Foi, então, com um certo grau de trepidação que comecei a ler a adaptação de Rogue One, que ficou ao encargo de Alexander Freed, conhecido roteirista de quadrinhos e escritor de livros relacionados ao Universo Expandido de Star Wars. Mas essa minha hesitação logo foi embora com a leitura dos dois capítulos iniciais da obra, pois foi o suficiente para que ficasse evidenciado que seu trabalho era inspirado, mesmo que restrito aos ditames do roteiro. O que imediatamente chama a atenção do leitor é como Freed consegue penetrar na mente dos protagonistas e oferecer visões levemente diferenciadas para os mesmíssimos eventos que já vimos e revimos no cinema e em casa.

O grande destaque fica, lógico, para Jyn Erso, que ganha uma belíssima voz interior que faz um paralelo metafórico com o esconderijo para onde vai logo depois que sua mãe é assassinada por ordens do Diretor Orson Krennic, no planeta Lah’mu. A escotilha disfarçada de pedra que ela usa e que depois é aberta por um ainda jovem Saw Gerrera, que vem salvá-la, é um elemento utilizado repetidas vezes para mostrar ao leitor o estado de espírito da guerreira fugitiva que é subitamente lançada no coração de uma rebelião em que seu pai – tido como traidor – é elemento central. É assim que aprendemos bastante sobre suas motivações, sobre sua vida como rebelde radical da facção de Gerrera sem que Freed tenha que recorrer a flashbacks. Ele utiliza pensamentos, impressões de momento de Erso como uma maneira de salpicar a narrativa de uma muito bem-vinda riqueza de detalhes que ajudam a entender as exatas motivações da jovem em embarcar nessa perigosa jornada para roubar os planos da quase mítica Estrela da Morte, planos esses que conteriam uma fraqueza estrutural propositalmente inseria por seu pai durante seu trabalho para o Império como uma forma de se vingar de Krennic e da ditadura imposta pelo Imperador.

Mas Alexander Freed também é muito feliz ao abordar a rivalidade entre o Diretor Orson Krennic e o Grão-Moff Tarkin sem que ele tenha que escrever sequências de embate verbal entre os dois que já não estejam no filme, o que quebraria as regras restritivas de “seguir o roteiro” certamente impostas pela Disney. Da mesma forma que com Jyn, ele mergulha na mente de Krennic, lidando com suas ambições, com sua frenética e meticulosa forma de pensar, construindo, aos poucos, um formidável e egoísta vilão cuja narrativa caminha, na grande maioria do tempo, em paralelo à de Jyn e do grupo rebelde que acaba se juntando a ela e Cassian Andor, capitão da Aliança Rebelde e do brutalmente sincero K-2S0, droide imperial reprogramado.

Uma pergunta justa é se Freed, afinal de contas, teria adicionado efetivas cenas novas à adaptação. A resposta sincera é que sim, ele acrescentou, mas nada que faça um fã do filme salivar em termos de revelações. O que o autor faz é cirúrgico e que aumentam o drama e o escopo narrativo, mas nada que mude a história ou revele mais do que está no filme. Por exemplo, quando da destruição de Jedha, não só vemos o que acontece pela perspectiva de Krennic no espaço e de Gerrera e Jyn na superfície do planeta, como também a partir de uma senhora de 93 anos preparando seu café da manhã, um pai levando a filha no colo para a escola (a mesma menina que Jyn salva na ação em Jedha logo antes) e, finalmente, a partir de um esquadrão de Stormtroopers na vizinhança da cidade, pois aprendemos que a evacuação do planeta pelas forças imperiais não chega ao total, mas sim, apenas, a 97%, com os 3% que ficam sendo considerados como perdas aceitáveis. São pequenos momentos assim que populam o livro e dão uma impressionante profundidade à narrativa sem que a história macro sofra interferências.

O mesmo vale dizer das longas batalhas em Scarif, tanto em sua órbita quanto em sua superfície. A batalha espacial, por exemplo, é abordada integralmente a partir da visão do General Raddus (o Mon Calamari que primeiro chega para ajudar), o que ajuda a organizar os eventos a partir de uma visão avantajada e superior. Já em campo, lá embaixo, Freed tem a oportunidade de dar voz a cada um dos elementos do Rogue One, além de Cassian e Jyn, claro. Todos têm oportunidade de ganhar alguns parágrafos, às vezes páginas, para passar ao leitor suas impressões sobre os acontecimentos, acrescentando ainda mais elementos humanos e pessoais à pancadaria.

Em outras palavras, a adaptação literária de Rogue One é um deleite que, em muitos momentos, consegue até mesmo melhorar uma já excelente história, pois o autor soube encontrar sua forma muito particular de contar uma história que todos conhecem, acrescentando excelentes camadas narrativas. É uma pena que a obra não tenha sido ainda publicada no Brasil, mas, quem tiver domínio do inglês e for fã de Star Wars, deve a si mesmo a leitura desse grande trabalho de Alexander Freed.

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, EUA – 2016)
Autor:
Alexander Freed (baseado em roteiro de Chris Weitz, Tony Gilroy)
Lançamento no Brasil: não lançado quando da publicação da presente crítica
Lançamento nos EUA: 16 de dezembro de 2016 (livro eletrônico), 20 de dezembro de 2016 (versão em capa dura), 1º de agosto de 2017 (versão em brochura)
Editora nos EUA: Del Rey
Páginas: 352

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.