Crítica | Rogue One: Uma História Star Wars (Sem Spoilers)

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estrelas 4

Obs: Leiam a crítica com spoilers aqui.

Qualquer um que tenha lido pelo menos uma das histórias do Universo Expandido de Star Wars sabe o quão imensa pode ser a franquia . Apesar dos até agora sete filmes “numerados” contarem com uma atmosfera similar, essas outras obras, à parte, que ampliam a mitologia dessa galáxia muito, muito distante, nos trazem desde narrativas muito similares ao que vemos na tela grande, até roteiros que, de vez, em quando, nos fazem esquecer que estamos falando da criação de George Lucas, seja pelo seu tom diferenciado, ou até a própria maneira como a trama se desenrola. Rogue One é um desses casos, um verdadeiro spin-off que se distancia de tudo o que vimos sobre a saga, nos cinemas, desde 1977 e isso pode causar um grande estranhamento.

Digo isso, pois, por um bom tempo da projeção, fiquei com um nítido desconforto. Sabia que estava diante de um longa-metragem da franquia, mas, ao mesmo tempo, ele não soava como tal. Essas diferenças já começam com a ausência do clássico opening crawl que marcou não somente os sete filmes anteriores, como a esmagadora maioria de obras literárias, quadrinhos e games da série. Essa nova aposta da Disney já nos joga direto na história, sem qualquer aviso prévio a não ser o clássico Há muito tempo atrás… A partir daí, acompanhamos a grande jornada de Jyn Erso (Felicity Jones), que deve, junto de um grupo de rebeldes, parte da grande Aliança que conhecemos em Uma Nova Esperança, arranjar uma forma de impedir a construção da temida Estrela da Morte ou roubar seus planos para que seja possível encontrar uma maneira de destruí-la.

O trecho inicial de Rogue One já demonstra uma audácia inexistente em todo O Despertar da Força. Pulamos de planeta em planeta, com direito a flashbacks que nos inserem diretamente nos eventos principais a serem desenvolvidos pelo filme. Não há aviso ou preparação qualquer e o texto de Chris Weitz e Tony Gilroy não trata o espectador como ignorante em momento algum: ele assume que sabemos previamente da situação presente na galáxia (pós-queda da República e Ascensão do Império) e oferece o necessário para que o iniciante nesse universo coloque sua cabeça para funcionar e aprenda tudo o que é necessário para o pleno entendimento da obra. Mas, convenhamos, se você não sabe o mínimo sobre Star Wars, então você viveu em uma caverna, em Tatooine, Hoth ou Jakku a sua vida inteira e somente nesse caso não conseguirá acompanhar a linha narrativa deste spin-off.

Por outro lado, é justamente nesses trechos iniciais que somos pegos mais de surpresa e o turbilhão de eventos que começam a se desenrolar apenas aumentam o nosso estranhamento de não ver a abertura clássica da franquia. Naturalmente, a montagem paralela é uma das marcas da saga, mas o orgânico dinamismo apresentado no Episódio VII não acontece aqui, criando a percepção de algo exageradamente fragmentado – não dificulta nosso aproveitamento da trama, mas certamente nos faz questionar a necessidade de algumas sequências, visto que, de fato, em nada elas acrescentam. É gerado, portanto, um certo cansaço no espectador logo no início da projeção.

Felizmente, isso vai sendo revertido conforme a narrativa vai se tornando mais linear, antes mesmo da metade da duração do filme. Aos poucos somos fisgados pela história do longa e a sua constante agitação, que a todo momento traz uma diferente fonte de tensão, nos envolve e passamos, de fato, a nos importar com o que acontece nas imagens projetadas à nossa frente. Definitivamente, Rogue One conta com uma urgência que não vemos desde a Trilogia Original, que nos faz sentir como se a falha da missão da equipe principal pode significar o fim da galáxia como a conhecemos e, é claro, a vitória absoluta do Império.

Esse sentimento é ainda ampliado pela forma como todo esse universo é retratado, de forma inédita nos cinemas. Os três filmes clássicos nos ofereciam uma noção de um universo vivido, com veículos e naves sucateadas, marcadas pelo combate, ao contrário da limpeza e beleza que enxergamos nos prelúdios. Isso é elevado à décima potência aqui no primeiro spin-off – de Stormtroopers empoeirados até uma protagonista que vai se sujando conforme passa por situações de ação, sentimos uma dose maior de realismo, como se tudo aquilo não estivesse muito longe de nós. Isso, evidentemente, se expande para cada morte e explosão, que ganham pesos maiores – a destruição de um Tie ou X-Wing efetivamente soa como algo palpável, sendo mostrado de forma crua e não dramático, como estamos acostumados. Se algum filme faz jus ao “Guerra” de Guerra nas Estrelas é este daqui.

Tudo isso é bastante condizente com a direção de Gareth Edwards, que utiliza uma linguagem muito similar a filmes de guerra, fazendo-nos sentir, em alguns trechos, como se estivéssemos vendo alguma obra sobre a Segunda Guerra Mundial. Naturalmente, isso dialoga com toda a questão do Império, que cria um paralelo evidente com a Alemanha Nazista. Não posso deixar, é claro, de comemorar o fato de que o diretor não cai nos típicos maneirismos de hoje em dia e nos entrega sequências de ação que conseguimos entender plenamente, elaborando cenas que são de tirar o fôlego, especialmente no trecho final da projeção.

Essa mais sombria realidade que o filme busca retratar estende-se para seu foco na política. A Aliança Rebelde não é mais mostrada como um bando de soldados unidos sob uma mesma causa, todos em perfeito uníssono. Aqui, cada um tem uma agenda diferente, um modus operandi diferenciado – não é porque estão lutando pela democracia que não sujam suas mãos constantemente, algo perfeitamente representado por Cassian Andor (Diego Luna) e o general Draven (Alistair Petrie), duas figuras que abandonam completamente o maniqueísmo vigente na saga e mostram que há muito mais na guerra que apenas o bem e o mal. Os rebeldes, portanto, funcionam muito mais em uma área cinzenta que o lado da luz com o qual estamos acostumados a vermos os Jedi, que estão quase todos extintos aqui.

O Império, por outro lado, consiste em algo muito mais profundo que o clássico “vamos seguir as ordens de Lorde Vader”. Sentimos, de fato, o peso da hierarquia militar aqui presente, mas conseguimos enxergar os indivíduos como pessoas seguindo o que acreditam. Orson Krennic, vivido brilhantemente por Ben Mendelsohn, é o personagem imperial mais bem explorado de todos os filmes lançados até agora (excluindo o Imperador e seu aprendiz, claro) – ao mesmo tempo que ele consegue ser ameaçador, vemos nele uma pessoa que enxerga esse governo como uma forma da galáxia entrar em paz e ordem. Outro ponto interessante é como a liderança do Império soa como algo distante aqui. Mesmo com a presença de Vader, sentimos como se ele estivesse em um patamar muito superior. E já que entramos no Lorde Sombrio dos Sith, já adianto, sem estragar nada, que ele deixará a todos sem fôlego.

A maneira mais aprofundada como essas duas facções são retratadas, contudo, não se estende para o tratamento dos personagens principais do longa. Ainda que gostemos da grande maioria deles, Rogue One não consegue nos aproximar desses indivíduos da mesma forma que O Despertar da Força ou Uma Nova Esperança o faz, o que acaba prejudicando nosso envolvimento dramático com o que se passa na tela. Felizmente, a urgência da missão retratada permite um engajamento com a narrativa, mas definitivamente gostaríamos de conhecer mais de Jyn e seu bando de rebeldes. Mesmo o carismático dróide K-2SO (Alan Tudyk)  não faz nos apaixonar por ele como um BB-8, por exemplo, ainda que algumas risadas sejam inevitáveis.

Por outro lado, se o filme conta com um grande acerto, é como ele se une ao Episódio IV. Não estamos falando de um falso prelúdio como Prometheus e sim algo que se encaixa como uma luva com os eventos do filme de 1977, que já beira seus quarenta anos. Isso, porém, não impede que o spin-off funcione por conta própria. Ele certamente deixa um grande gancho, mas conta a história que propõe contar desde seu início, de tal forma que um iniciante na saga pode começar tanto por esse quanto pelo Guerra nas Estrelas original, ainda que a ordem de lançamento funcione melhor para que todas as muitas das referências e easter-eggs sejam captadas, isso sem falar na presença de um icônico personagem revivido com o auxílio da tecnologia, que mostra como ela pode ser utilizada por uma causa que não só causar grandes explosões e robôs se transformando sem qualquer valor narrativo.

A trilha de Michael Giacchino, ainda que não nos traga nenhum tema que seja verdadeiramente memorável, cumpre sua função narrativa e muito herda das icônicas melodias compostas por John Williams. Seu trabalho, como fora apontado pelo Slash Film, é bastante similar ao trabalho de Kevin Kiner em Star Wars Rebels, que introduz novas composições, ao mesmo tempo que nos entrega versões novas de outras pré-existentes da saga. O fã de longa data de Star Wars certamente irá esboçar um sorriso ao reconhecer algumas delas.

No fim, Rogue One: Uma História Star Wars é o longa-metragem mais diferente de todos os que já vimos da saga. Todos os riscos que a Disney optou por não tomar em O Despertar da Força, a empresa decide ousar aqui. Um filme sombrio, com nítida urgência, que coloca a história acima de seus personagens e acaba prejudicando nosso envolvimento com eles, mas, não por isso, perde nossa atenção. É uma obra que custa um tempo a nos fisgar, mas, quando o faz, permite que nos apaixonemos pela história contada, fiquemos tensos, empolgados e até aterrorizados com o que vemos. Não é um experimento perfeito. Tem, sim, seus erros, mas definitivamente representa um grande passo na direção certa para a saga.

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story) – EUA, 2016
Direção:
 Gareth Edwards
Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy
Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Wen Jiang, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen,  Jimmy Smits, Alistair Petrie, Genevieve O’Reilly
Duração: 134 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.