Crítica | Rolling Stones: São Paulo – Olé Tour 2016

estrelas 4,5

Desde 1998, São Paulo não recebia a ilustre presença de uma das bandas de rock mais aclamadas da História, os Rolling Stones. Esse longo hiato de dezoito anos acabou ontem com o excelente show da banda para os sessenta mil presentes, incluindo eu, no estádio do Morumbi.

Tendo adquirido o hábito de assistir a mais shows desde a última visita de Paul McCartney no Brasil, consegui ter um parâmetro melhor para analisar esses eventos importantíssimos. Logo de cara, percebe-se a diferença na energia e presença em palco de Mick Jagger, Keith Richards— ambos com 72 anos, Ron Woods, 68 anos, e Charlie Watts, com gloriosos 74 anos, se comparado a vibração de McCartney ou até mesmo do contido David Gilmour – seu show no ano passado foi o melhor dentre os três, creio.

A diferença nos shows de todas essas lendas vivas do rock é especialmente nítida com a presença incandescente de Mick Jagger no palco e também do som mais potente. Ele respeita a clientela e entrega o que cumpre: uma noite inesquecível e repleta de memórias gostosas graças a uma setlist de qualidade. A performance dele é invejável – quisera eu ter tanta energia quanto ele. O homem não perde o fôlego enquanto pula para lá e para cá, explora o carnavalesco palco em sua totalidade com muitos passeios na tradicional passarela, além de dançar a todo o momento. Saltitante e resplandecendo alegria enquanto lança olhares de profunda concentração durante a cantoria.

Jagger e a banda trabalham dentro dos conformes. É um showman nato que não arrisca muito nem mistura sua arte com politicagens. É um trabalho único e exclusivo de entretenimento visando a agradar gregos e troianos. Sua fórmula funciona muito bem e, logo, o show também.

Em 19 músicas, Jagger passeou com onze álbuns no Morumbi iniciando com eficiência com Start Me Up fazendo a plateia acordar um pouco depois de ser castigada pela chuvinha chata que caia até então. Depois começa sua interação básica com a plateia. Durante o show, Jagger teve facilidade em pronunciar um portunhol razoável, porém com poucos momentos de inspiração. Ele perguntava diversas vezes se todos estavam gostando do show, de estar lá ou se estavam bem. Na quinta vez, já começava a cansar. Porém, ele tratava tudo com carinho inclusive lembrando da última vez que a banda esteve em Sampa como ele gosta de chamar nossa cidade.

Nas surpresas que ele guardava na manga, Jagger soltou um “seus lindos!” e um “beijinho no ombro” simulando parte da coreografia de Valeska Popozuda. Até mesmo Keith Ricchards quebrou o gelo agradecendo em português nas duas músicas nas quais ele assumiu o vocal – You Got The Silver e Happy.

Em Happy ficou evidente que a parte técnica sonora do show passava por apuros – até então já havia tocado dez músicas dentre elas Paint it Black, Bitch, Beast of Burden e Out of Control. Foi algo grave que manchou a apresentação da banda. Richards até mesmo lançou olhares de impaciência enquanto cantava, pois somente em Happy já havia acontecido ao menos três problemas de microfonia – quando o microfone é alimentado pelo som que ele mesmo está captando provocando um loop que resulta em som de frequência alta.

Um show desse porte e principalmente por conta do preço não pode ter, de forma alguma, problemas de microfonia. Muito provavelmente isso aconteceu por conta de som desalinhado e também pelo formato do show onde Jagger sempre se posiciona à frente das caixas de som. Enfim, depois de Happy quando o problema deixou de ser um incômodo e virou uma irritação, a produção do show trocou, finalmente, o microfone. Porém, é notória a preguiça em não solucionar o problema logo no primeiro sinal. Esperar até mais da metade do show é grave.

Quisera fosse apenas a microfonia a única penúria técnica do show. Houve problemas menores que podem ter passado despercebidos por muita gente que estava vidrada na música. Era até comum, em alguns momentos, o som estourar um pouco em acordes graves perdendo as características acústicas da canção. Em outra situação, a equalização do som deixava Jagger eclipsado por outros instrumentos, algo que também não deve acontecer. Enfim, muitos problemas técnicos na parte sonora que provaram ser um desrespeito com o público pagante e também com a própria banda. Não queria estar na pele do supervisor de som após a apresentação.

Após Happy, o show que estava um pouco morno, esquentou bastante. Finalmente a experiência catártica em ver essas lendas vivas tocando tornou-se única. A setlist passou somente a crescer até o final do show (sem o bis) com Jumpin’ Jack Flash. Até chegar lá, tivemos o prazer de escutar Midnight Rambler, Miss You, Gimme Shelter, Brown Sugar e a fenomenal Sympathy for the Devil – certamente o ponto mais inspirado apontando o clímax da performance.

Nessa segunda metade, diversos integrantes da banda tiveram a oportunidade de brilhar e serem ovacionados individualmente após solos memoráveis. Ron Wood, guitarrista, recebeu uma das ovações mais acaloradas e impressionantes da noite. Se deleitou com o prestigio do público brasileiro.

Em Gimme Shelter, o público foi pego completamente desprevenido quando a backing Sasha Allen passa a fazer um solo fantástico no microfone ao cantar o refrão. Eu que estava um pouco desatento, tomei até mesmo um susto. A substituta de Lisa Fisher mostrou para o que veio ali e conquistou toda a plateia. Foi incrível que elevou a música para outro patamar. Porém, após tamanho espetáculo individual, a mulher parecia um pouco esgotada no restante do show, mas nada que chegasse a ofuscar seu brilho.

A interação entre os integrantes da banda também é sempre ótima. Também em Gimme Shelter, Jagger e Allen passaram a cantar um para o outro. Em outros diversos momentos Wood e Richards tocavam juntos frente a frente ou até mesmo com o histórico baterista Charlie Watts.

Com Sympathy for the Devil houve uma transformação na iluminação e no melhor uso do telão que se limitava apenas em exibir uma live dos artistas para toda a plateia poder observar melhor os integrantes da banda – um uso descritivo e pouco inspirado perto das animações exibidas por David Gilmour ou na psicodelia de McCartney. Assim que a música surge, todo o palco é afundado pela luz vermelha, as telas passam a exibir uma breve animação com pentagramas e Baphomets para todos os lados para dar às boas vindas a Mick Jagger vestindo uma suntuosa capa preta e vermelha.

A iluminação do show sempre foi funcional e bem feita com direito a muitos efeitos em sincronia com os músicos. Somente em Sympathy for the Devil e Honky Tonk Women houve efeitos mais elaborados incluindo até mesmo no uso de certa hipnose pela variação ritmada entre a luz azul e vermelha causando uma breve ilusão de ótica que fazia os arredores do palco e do estádio contraírem e dilatarem, respectivamente. No show de Gilmour havia uma variação deste efeito pelas coreografias da iluminação que circundava todo o círculo que era o telão. Um ótimo trabalho de luz, sem dúvidas.

No bis, tivemos a presença das sempre esperadas You Can’t Always Get What You Want e seus agudos muitíssimos bem cantados pelo Coral de São Paulo (foi algo espetacular mesmo) e do imortal sucesso (I Can’t Get No) Satisfaction acompanhado de uma bela queima de fogos. Foram os momentos mais mágicos da noite fazendo o estádio vibrar e se iluminar, literalmente. Os Rolling Stones entregaram um show fantástico mesmo com as falhas técnicas, mas em contramão da qualidade de seu rock, a organização do evento foi um completo lixo, como de costume.

Falta de sinalização, falta de policiamento – não vi nem de perto o contingente de 300 policiais prometidos para auxiliar a população no local, falta de staff da organização em orientar o público para os portões corretos, nenhuma ou poucas lixeiras na rua resultando em uma imundice de inúmeras garrafas de vidro acumuladas no meio-fio dos arredores do estádio podendo cortar alguém que fosse empurrado – como sempre, a “educação” de muita gente não falha em me surpreender, completa falta de noção em não controlar a saída do público após o show e, claro, os banheiros químicos que deveriam se chamar depósitos de lixo radioativo. Parece que só se preocupam em pegar o dinheiro gasto do público e torrar em Ibiza em vez de fazer um trabalho bem feito e minimamente organizado. Ao menos, dentro do estádio, havia um posto médico.

A saída desses shows é sempre um evento traumático pela falta de cordialidade e gentileza da nossa gente. Sabendo que é um momento ingrato de ir embora devido a vazão de sessenta mil pessoas, deveriam ao menos ter a noção de não empurrar os coleguinhas que estão na frente. Me perguntava, durante os meus tropeços, o que aconteceria se alguém caísse ou desmaiasse graças àquela aglomeração absurda de gente. Será que iriam pisotear todo mundo pela pressa em chegar a casa? Eu, sinceramente, não duvido. Mesmo depois de ter passado por uma situação semelhante há mais ou menos seis anos, as mesmas indelicadezas permanecem dentro do pessoal. Se comportam como os peixes capturados durante o clímax de Procurando Nemo. A diferença é que ninguém estava preso ou correndo risco de morte, não é?

Qualquer um dotado de lógica entende que não precisa empurrar ninguém, pois o próprio fluxo acaba levando você para onde deseja ir. Nessa muvuca ensandecida, levei mais ou menos uma hora e meia para percorrer uma distância pífia de três quilômetros.

Mesmo com esses poréns e descaso completo da organização, o primeiro show em São Paulo dessa nova turnê dos Rolling Stones foi memorável. O mérito das boas memórias que carregarei pelo resto da minha vida é somente deles e de seu trabalho atemporal. Uma verdadeira festa que celebrou a boa música. Espero que essa não tenha sido a primeira e última vez que tenha apreciado as lendas fazerem mágica ao vivo.

Rolling Stones: America Latina – Olé Tour 2016
Data do Show:
24/02/2016
Local:
Estádio do Morumbi – São Paulo (SP)
Duração: pouco mais de duas horas.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.