Crítica | ROM #1 (2016)

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estrelas 1,5

Foram 30 anos de ansiosa espera, de enorme antecipação e de dolorosa abstinência. Trinta anos para que ROM voltasse gloriosamente às páginas dos quadrinhos desde que o último número de sua série original na Marvel Comics foi publicado e é isso que a IDW Publishing tem a oferecer? Sério?

rom_1_2016_capa_plano_criticoO que temos é um começo apressado que está muito mais preocupado em estabelecer um universo compartilhado para já engatar em uma saga do que com o próprio personagem titular. A referida saga é Revolution, que começa em breve e que reunirá todas as licenças de brinquedos da editora: as já bem estabelecidas TransformersG.I. Joe, além das mais recentes Micronautas (assim como ROM, outra criação de Bill Mantlo para a Marvel), Action Man e M.A.S.K. Nada contra o estabelecimento de um universo compartilhado, algo comum nas duas grandes editoras mainstream, mas a questão é que, com isso, a IDW não tem tempo para “cozinhar” suas novas séries e deixá-las no ponto para um grande evento como esse. Serão só dois números de ROM antes do efetivo início e essa pressa é sentida muito claramente no número inaugural.

Para quem está um pouco perdido por não conhecer ROM, calma. Em brevíssimas palavras, o personagem é um ciborgue espacial (ou, mais exatamente, um Cavaleiro do Espaço), líder de uma força de ciborgues que luta há 200 anos contra os Espectros, seres malignos que controlam magia e têm como características principal a habilidade de mudar sua aparência. Usando esses poderes, os seres dominaram o planeta de ROM e somente ao deixar de lado sua humanidade e transformando-se em um robô superpoderoso, os vilões foram derrotados por lá. Agora, ROM singra o universo para libertar outros planetas desta ameaça. ROM nasceu como um brinquedo que foi logo licenciado para a Marvel Comics, que então produziu uma extensa série de 75 números entre 1979 e 1986, criando diversos novos personagens no processo. Com o fim da licença, ROM ficou no limbo e, agora, finalmente volta aos quadrinhos. No entanto, todo o rico universo criado pela Marvel não pode ser usado, já que permanece com a editora. Só mesmo ROM e a denominação “Cavaleiro do Espaço” é que passou agora para a IDW (mais detalhes sobre a série original o leitor encontrará aqui).

A missão de Chistos Gage e Chris Ryall, responsáveis pelo roteiro, é óbvia: apresentar o personagem na menor quantidade de páginas possível. A história reúne o #0 da publicação, com 11 páginas, lançado no último FCBD (Free Comic Book Day) e mais 30 páginas do #1 propriamente dito. E tudo o que é necessário aprender sobre ROM realmente está encapsulado nessas páginas. Mas isso é péssimo. Afinal, para que isso tenha sido possível, Gage e Ryall recorreram à muleta dos roteiristas, ou seja, o texto expositivo ao extremo, em que vilões explicam o que são antes de atacar e o herói se defende relatando cada movimento seu, exaustivamente e repetidas vezes, como por exemplo quando os aparelhos clássico de ROM – o Analisador e o Neutralizador – se materializam (ou, no caso dessa releitura, são formados como “mini-Transformers” a partir de sua armadura). E, com isso, todo e qualquer ritmo, todo e qualquer mistério logo desce pelo ralo.

Uma das versões do novo Neutralizador está nos punhos do personagem.

Uma das versões do novo Neutralizador está nos punhos do personagem.

A culpa, aqui, parece ser muito mais da editora do que dos roteiristas justamente em razão da saga a ser iniciada muito em breve. Não há espaço para uma desenvolvimento mais orgânico, para revelações mais lentas e para a introdução de coadjuvantes relevantes. Aqui, uma policial “marcada” por um Espectro e uma combatente com estresse pós-traumático são jogadas na narrativa sem cerimônia e envolvidas com ROM de qualquer jeito, sem que a chegada de um ser extraterrestre de armadura matando criaturas monstruosas cause qualquer tipo de comoção. O material fonte é utilizado de maneira banal e pouquíssimo inspirada, transformando ROM em um personagem que só está lá em função de algo maior do que sua própria história. Isso fica mais do que claro do que as menções veladas aos Transformers ao longo do texto e a revelação “inesperada” dos G.I. Joe na última página.

Talvez – e realmente só talvez – quando Revolution tiver acabado, seja possível ter esperança de uma série do saudoso personagem metálico sem as amarras narrativas que soterraram sua história neste primeiro número. É realmente uma pena ver tanto potencial narrativo reduzido a veículo apressado de construção de um universo compartilhado (ares de Batman vs Superman perpassaram toda a edição durante a leitura…).

E o que dizer do redesenho de ROM em si?

Aqui dou pontos positivos para David Messina, que soube atualizar o personagem sem deixá-lo descaracterizado. Sua elegante armadura continua claramente conectada com sua versão original em quadrinhos, mas o que antes era mais quadrado, ganhou traços mais arredondados e fluidos, além de uma muito bem-vinda imponência, ainda que para isso toda a região da cintura de ROM tenha que ter sido afinada ao ponto de ficar um pouco incômodo. As pernas, no lugar de apenas um lustre prateado, ora com botas, ora sem, ganharam versões mais parecidas com as do que seriam em uma armadura. Mas talvez a mais “polêmica” das modificações estejam nas mãos do ciborgue. Na versão clássica, ela era composta de um polegar, com os quatro dedos remanescentes formando quase que uma daquelas luvas “sem dedo” de invernos inclementes. Messina tratou de dar dedos de verdade para ROM em sua revisão, o que deixou muito fã transtornado. Não compartilho, porém, dessa visão e acho que faz muito mais sentido que os dedos seja separados mesmo, o que abre possibilidades narrativas melhores, além de parecer algo mais natural e lógico.

Espectros vegetais. Uma novidade na mitologia do personagem.

Espectros vegetais, uma novidade na mitologia do personagem.

No entanto, o restante da arte deixa muito a desejar. Messina peca nos traços humanos, pasteurizando-os completamente com poucos detalhes e uma plasticidade equivocada, que fica em um meio termo entre o realismo e a caricatura. Além disso, às vezes sua progressão de quadros é confusa, algo particularmente visível na sequência em que somos apresentados a Darby, a combatente com estresse pós-traumático. O mergulho na situação da personagem não só é apressado no texto, como os quadros não ajudam na compreensão exata da progressão narrativa breve que vemos. E, finalmente, talvez o maior problema esteja mesmo nas cores do mesmo Messina, que trabalha com pintura digital e acaba emprestando um ar extremamente artificial aos humanos e Espectros. A frieza metálica de ROM funciona, mas as sombras nada benevolentes e a textura plástica dos demais personagens criam estranheza e dificultam a já complicada tarefa de o leitor simpatizar com os personagens.

Se era para ROM voltar desse jeito, era melhor que não voltasse. A luz no fim do túnel, se existir, provavelmente só virá ao final da saga que a IDW inventou para vender seus quadrinhos. A esperança não é muito grande, mas ela é sempre a última que morre, não é mesmo?

ROM #1 (EUA, 2016)
Autor: Christos Gage, Chris Ryall
Arte: David Messina
Arte-final: Michele Pasta
Cores: David Messina
Letras: Shawn Lee
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: 27 de julho de 2016
Páginas: 44

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.