Crítica | Roma (2018)

Produzido pela Esperanto Filmoj mais a Participant Media e distribuído pela Netflix (exceto na China) Roma é o filme de Alfonso Cuarón que sucede o seu aclamado Gravidade (2013). Fazendo História por ser a primeira produção de distribuição em plataforma streaming a vencer um grande festival, abocanhando o Leão de Ouro em Veneza, Roma se passa no início dos anos 1970, na Cidade do México. Com uma mescla de Amarcord e outros filmes de exploração de ambientes familiares ao longo de um determinado período de tempo (alguns espectadores até podem fazer relações com Fanny & Alexander, mas vale dizer que a abordagem familiar e até social aqui é de outra ordem), Roma é um filme sobre laços. Uma longa memória de infância.

No centro das atenções temos Cleo (Yalitza Aparicio) uma doméstica que trabalha na casa de Sofia (Marina de Tavira). A casa é grande e há quatro filhos, de diferentes idades. No texto, Cuarón assumidamente trabalha com sua memória familiar e dedica o filme a Libo, antiga babá da família. Visualmente, a película é um esplendor. O plano de abertura nos treina para um tipo de contemplação e expectativa que se mantém ativas ao longo de toda a trajetória, com a direção explorando a profundidade de campo, os reflexos, o preenchimento dos quadros com duas ou três ações acontecendo ao mesmo tempo e movimentações sempre elegantes, combinando com a escolha anamórfica para captura (a razão de aspecto simula o 2.35:1, que hoje é 2.39, com larga expansão capaz de destacar bem o espaço cênico ou grandes paisagens).

Considerando que o foco central do enredo é mostrar a “crônica de uma vida”, a assinatura do diretor não deixa escapar essa visão em nenhum momento. Cada plano é brilhantemente pensado e mesmo que na montagem (assinada por ele e por Adam Gough) sobrem cenas de contexto espacial — que às vezes duram mais do que deveriam ou não são realmente necessárias –, a verdadeira marca do filme é o mergulho do público na vida dessa família protagonista e das empregadas da casa, com destaque para Cleo, que recebe em Yalitza Aparicio uma excelente construção de personagem, delicada, introspectiva, absolutamente amável. No filme, ela é tratada com todo o carinho que uma personagem pode ser tratada na tela, e serve como um laço às vezes invisível entre os membros da família.

No desenvolvimento, Cleo é mostrada como alguém que sofre e ama, dois dos polos que vão permear a vida dos adultos e atingirem, de maneira muito forte, os pequenos. Há um delicado e emocionante momento em que a mãe conta algo para os filhos, numa viagem à praia e, na mesma viagem, acontece uma das cenas mais angustiantes e mais inspiradoras da safra 2018 de filmes, recebendo um tratamento poderoso de Cuarón, que também encontra grandeza estética na direção e na fotografia em uma cena de incêndio e noutra de reunião numa fazenda, na noite de Ano-Novo. Acostumado com esse rigor estético desde a primeira sequência, o espectador busca por algo mais no texto. Um ponto diferente da crônica, uma discussão em outra esfera, um foco, caminho, sentido geral maior. Mas o roteiro não arreda o pé de sua inicial deixa. A crônica de uma memória de infância é aquilo que, em tudo, compõe Roma.

O imenso clamor positivo em relação ao filme talvez leve em consideração a reflexão sobre desigualdades que, querendo ou não, é a base da camada ligada a Cleo. Mas não há posicionamento político ou moral do diretor. As relações humanas são tudo o que importam para ele. O significado, a força, a problematização disso aparecem na leitura do espectador, que pode rejeitar tudo isso e ver a obra “apenas” de maneira nostálgica. O fato é que Roma está com os pés muito fundos no solo da realidade do dia a dia. A impressão geral, para mim, foi de um aparato técnico para se aplaudir com muito gosto, mas com um conteúdo que não basta apenas por ser bem narrado.

Os símbolos aqui não são enigmas indecifráveis. As relações pessoais na fita são coisas com as quais podemos nos identificar, e os flertes fellinianos não passarão batido para alguns. Todavia, exposta a situação de vivência de uma realidade, pergunta-se: para onde ela vai? O diário dramático em imagem-movimento de Alfonso Cuarón está abarrotado de cenas exuberantes, todas bem musicalizadas e fotografadas, com uma direção de arte que remete a qualquer casa de avó pelo mundo afora. A atmosfera familiar e a humanidade da temática são patentes. Mas o conteúdo que tudo isso condensa não acompanha a grandeza da forma. Ao longo de 2h15 existe até um certo cansaço pela vertente cíclica com que o roteiro vai abordando as manifestações político-sociais da cidade e as vivências da família. Há muita coisa sobre amadurecimento, natureza humana, empatia e noção de comunidade em Roma. Um olhar para um passado que não parece tão longe assim e que se sustenta nas duas mais velhas colunas que conhecemos desde que nos tornamos um animal social: os muitos tipos de violência… e o amor.

Roma (México, EUA, 2018)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Marco Graf, Daniela Demesa, Nancy García García, Verónica García, Andy Cortés, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero
Duração: 135 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.