Crítica | Roma de Fellini

estrelas 3

Depois da Roma de Nero vista sob um prisma bastante caótico em Satyricon (1969), Fellini nos trouxe um outro retrato da cidade de Roma, uma visão alinear e sem um protagonista específico, apenas a cidade como o centro das atenções, mostrada em seus becos, seus pontos turísticos, seus espaços eclesiais e de prostituição, seus lugares de festa, brigas e descanso.

Roma é, em sua camada externa, um documentário fictício de Fellini sobre a cidade na qual ele vivia desde os 17 anos. A proposta inicial do filme era mostrar a cidade unicamente sob o olhar dos excluídos, dos subúrbios, dos que nunca são vistos. Mas o diretor ampliou o seu leque de opções e mostrou (quase) tudo o que acredita ser a face de Roma, e mesmo sob essa demonstração assumidamente incompleta, existe mais pluralidade do que se pode esperar. Ricos, pobres, velhos, crianças, homens, mulheres, travestis, palhaços, professores, donas de casa, atores, toda uma fauna romana desfila na tela, mostrando seus rituais, suas angústias e representações sociais.

Ao documentar de modo farsesco, porém real, uma cidade como Roma (eis a ironia, o paradoxo!), Fellini tem um grande sucesso. Escrevendo mais uma vez em parceria com Bernardino Zapponi, o diretor trabalha bem o caráter metalinguístico mostrado do início ao fim, desde a aparição das câmeras e a filmagem do trânsito, em uma noite chuvosa, até a aparição de Anna Magnani, ao final. Mas se olharmos para os outros pontos que o próprio diretor adicionou à obra (posto que ela não é, a rigor, um completo “documentário”), a realidade muda de figura.

O roteiro é mais uma vez o problema, assim como fora em Satyricon. O ponto crítico não é o trabalho alinear e nem a ausência de um protagonista, que de certo modo serviria como fio da meada para todo a obra. No caso de Roma, é possível visualizar com clareza a independência dos “bairros romanos”, digamos assim. Cada espaço recebe a sua sequência, cada situação inusitada, cada momento de reunião de pessoas, festas, danças ou atitudes políticas tem a câmera por perto, tratando cada um desses momentos como pontos individuais (mesmo se considerarmos o garoto que é um personagem recorrente, possivelmente um alter ego do jovem Fellini). Mas esses espaços, numa análise fria, não são completamente independentes, e este é o erro do roteiro.

Ao passo que não permite o rompimento completo com os elementos dramáticos exibidos individualmente (com o aparecimento de praticamente todos os ingredientes do filme no começo, no meio e no final, mudando apenas a sua composição – como exemplo, cito a sequência road com os carros, no início, e a sequência road com as motos, no final), o roteiro tenta desesperadamente mostrar a ideia de ciclo, mas aí encontra dois grandes problemas. O primeiro é o fato de que, sem o rompimento entre os “atos” e sem um fio da meada que os conecte – a não ser Roma, mas ela é, por si só, a personagem que dá a aura do filme, portanto seria preciso algo mais do que um conceito-base para víssemos alguma ligação concreta entre todos os pontos e eles passassem a fazer maior sentido, dando enfim a clara ideia de ciclo vicioso. O segundo problema consiste na reformulação que seria preciso fazer, caso Roma fosse um filme em episódios, algo como pequenos curtas metragens dentro de uma temática X.

No fim das contas, nem fazendo essa ligação clara e nem fechando cada espaço em si mesmo, Fellini deixa aberto cada conceito, o que faz perder muito de seu conteúdo geral, sobrando apenas dois grandes momentos de puro deleite, tanto estético quanto crítico: a sequência dos trabalhadores do metrô, que nos traz a modernidade, o desenvolvimento, o novo mundo literalmente apagando o passado, reescrevendo a história tornando pálidas as cores do que um dia esteve vivo (e toda a sequência é maravilhosamente filmada); e o desfile de moda religiosa, uma sequência ao mesmo tempo cômica e irônica, trazendo a pompa e circunstância eclesiástica com uma pitada de decadência. Só essas duas sequências valeriam o filme inteiro.

Roma é um exercício bastante pessoal de Fellini – não tanto quanto Amarcord, mas mesmo assim, pessoal – uma visão séria e ao mesmo tempo escarnecedora de uma cidade de muitas vidas, muitos costumes e muitos ideais espalhados através dos séculos. O problema narrativo do filme é um ponto negativo que realmente incomoda, mas nada como a terrível experiência de se ver Satyricon, ou nada tão ruim que não se possa ver até o fim. Trata-se apenas de um bom filme que tropeça no modo de se fazer ver.

Roma de Fellini (Roma) – Itália, França, 1972
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Bernardino Zapponi
Elenco: Peter Gonzales Falcon, Fiona Florence, Britta Barnes, Pia De Doses, Marne Maitland, Renato Giovannoli, Elisa Mainardi, Stefano Mayore, Galliano Sbarra, Anna Magnani, Ginette Marcelle Bron, Gore Vidal
Duração: 128 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.