Crítica | Romeu & Julieta (1968)

estrelas 5

Romeu e Julieta é, certamente, a obra mais popular do bardo inglês William Shakespeare. Longe de ser seu trabalho mais complexo, a tragédia romântica baseada em conto italiano vertido para o inglês por Arthur Brooke arrebatou e ainda arrebata os corações apaixonados por seus temas de amor impossível e sacrifício.

Sendo a mais famosa obra de Shakespeare, ela já foi adaptada incontáveis vezes para o cinema e televisão, incluindo uma versão com trilha sonora de rock e outra com adoráveis gnomos de louça. No entanto, se Shakespeare escreveu a versão definitiva de Romeu e Julieta, pode-se dizer que Franco Zeffirelli dirigiu a versão cinematográfica definitiva da obra que, em março desse ano, fez aniversário de 45 anos.

Quando nos lembramos de Julieta, a imagem que nos vem à cabeça é a de um rosto angelical, com longos cabelos lisos pretos. E esse rosto, quase que invariavelmente, é o de Olivia Hussey, então com apenas 15 anos. O mesmo acontece quando nos lembramos de Romeu. O rosto que logo vem à tona é o de Leonard Whiting, com seu cabelo de príncipe valente, seus olhos hipnotizantes e apaixonados por Julieta.

E isso não é à toa.

Franco Zeffirelli, diretor toscano que, um ano antes, havia adaptado A Megera Domada, também de Shakespeare, com Elizabeth Taylor e Richard Burton, nos apresenta Romeu & Julieta em um ambiente perfeito, filmado em locação em diversas cidades italianas (mas curiosamente não Verona, onde se passa a história). No entanto, o grande cuidado de Zeffirelli foi mesmo na escolha dos jovens que viveriam os imortais personagens. Quase completamente inexperientes, Hussey e Whiting foram escolhidos depois da exaustiva análise de dezenas de candidatos e eles não poderiam ter sido mais perfeitos.

E talvez a razão para essa perfeição toda seja que os dois jovens atores não possuíam experiência. Afinal, Romeu e Julieta são, também, jovens inocentes, inexperientes. Romeu é o primeiro amor de Julieta e, ainda que Julieta não seja exatamente o primeiro amor de Romeu, ele esquece Rosalinda como se ela jamais tivesse existido no momento em que vê Julieta no baile de máscaras. Essa inocência na atuação para viver dois jovens inocentes provavelmente fez com que Hussey e Whiting incorporassem de tal maneira seus personagens que, mesmo hoje em dia, é difícil olhar para qualquer um dos dois e não se lembrar desses papéis.

Mas o grande apuro técnico de Zeffirelli não parou no elenco. Além das locações escolhidas a dedo para dar autenticidade à fita, ele soube trabalhar magistralmente com três outros grandes profissionais. O primeiro deles foi Danilo Donati, responsável pelos figurinos (ele ganhou o Oscar nessa categoria por esse filme). Vemos as cores vibrantes dos vestidos da realeza contrastando com as cores pesadas da roupa da criadagem, sem que nenhum dos dois tipos de roupa tenha o condão de apagar os vestidos especialmente selecionados para adornar Julieta, esses sim o ponto central de cada cena em que ela está presente.

Outro profissional responsável pela qualidade desse filme foi Pasqualino de Santis, o diretor de fotografia. O trabalho dele em planos abertos, como a fatídica briga entre Capuletos e Montéquios na praça central, completamente iluminada, assim como em cenas íntimas com a iluminação fazendo a mímica da natureza, é de um lirismo impressionante. Reparem só na cena do “dia seguinte”, quando Romeu e Julieta acordam envelopados por lençóis. Percebam como a luz entra pela janela realçando o semblante (não mais) virginal de Julieta e como isso ajuda na comunicação com o público de que o que vemos em cena é a encarnação do amor mais puro e devoto. Mas Pasqualino não para por aí e alcança seu clímax artístico juntamente com o clímax da obra, na cena da cripta em que os sacrifícios por amor acontecem. A iluminação deixa o entorno escuro, triste, mas mantém os rostos dos amantes ainda iluminados.

Finalmente, fechando o trio, há a inesquecível trilha sonora de Nino Rota, especialmente a canção de amor What Is Youth?, que ouvimos pela primeira vez de forma diegética, como parte da narrativa do filme. Ao mesmo tempo em que o viés é de trilha romântica com notas suaves – claro – Nino Rota consegue passar a tensão nas sequências de rivalidade entre as famílias e um profundo sentimento de tensão misturado com melancolia e finalidade na cena do suicídio duplo. Não é todo compositor que tem a flexibilidade para gerar tantos sentimentos em uma trilha coesa, que ritmicamente pertence ao mesmo filme, sem parecer repetida ou apelativa.

Shakespeare, tenho certeza, aplaudiria essa obra-prima de Zeffirelli.

Romeu & Julieta (Romeo and Juliet, Reino Unido/Itália, 1968)
Direção: Franco Zeffirelli
Roteiro: Franco Brusati, Masolino D’Amico, Franco Zeffirelli, William Shakespeare (peça)
Elenco: Leonard Whiting, Olivia Hussey, John McEnery, Milo O’Shea, Pat Heywood, Robert Stephens, Michael York, Bruce Robinson, Paul Hardwick, Natasha Perry, Antonio Pierfederici, Esmeralda Ruspoli
Duração: 138 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.