Crítica | Romeu + Julieta (1996)

estrelas 3,5

Quatro anos depois de Vem Dançar Comigo, o diretor Baz Luhrmann dá um passo bastante ousado em sua carreira, ao tentar adaptar a tragédia mais famosa de Shakespeare – Romeu e Julieta – para as telas grandes. Hoje, quem olha para trás e lembra do resultado provavelmente achará mais do que natural o trabalho de Luhrmann, considerando suas extravagantes obras posteriores, Moulin Rouge, Austrália e a recente O Grande Gatsby, mas Romeu + Julieta é uma adaptação bastante interessante e inovadora do trabalho do bardo inglês.

Usando estética de videoclipe, Luhrman, que co-escreveu o roteiro com Craig Pearce (que trabalhou em todos os seus filmes), traz a história trágica de amor para os tempos atuais em um local chamado Verona Beach, que muito bem poderia ser em algum lugar de Los Angeles. As famílias – agora gangues – rivais continuam idênticas à obra original e o texto shakespeareano também foi mantido, ainda que resumido. Assim, o resultado é um anacroniscmo delicioso, com diálogos e monólogos rebuscados, misturados com os dias atuais, mas sem que a realidade nua e crua seja efetivamente replicada.

É que essa Verona Beach é algum lugar claramente distópico, estranho, que em muitos momentos lembra o trabalho de Richard Loncraine em Ricardo III. Só que Luhrmann acrescenta música ao mix e não música clássica como seria de se esperar e é aí que o aspecto de videoclipe da obra fica mais latente: ouvimos música rock/pop o tempo todo, pontilhando e comentando as situações. É uma espécie de versão embrionária do que o diretor viria a magistralmente fazer em Moulin Rouge.

Só que em Romeu + Julieta os personagens não cantam. A música é a trilha do filme de maneira semelhante ao que Quentin Tarantino faz tão bem em seus trabalhos. E a questão da estranheza aumenta ainda mais com tudo isso, já que os personagens continuam falando em versos tirados diretamente da pena de William Shakespeare.

Contando com Leonardo diCaprio em seu primeiro papel realmente de destaque (o ator voou pagando seus custos para a Austrália para fazer testes de câmera para o diretor) e Claire Danes (Carrie, a agente bipolar de Homeland) também muito novinha, o filme encapsula momentos importantes desses dois atores que viriam a mostrar muito potencial. Não são os melhores papeis de suas respectivas carreiras, mas eles são suficientemente competentes para envolver o espectador na trama de amor impossível, com especial destaque para a ótima sequência em que Romeu vê Julieta através do vidro do aquário da festa onde se conhecem, culminando com o beijo que une a anjinha ao guerreiro (suas fantasias).

Contando ainda com um elenco formado por John Leguizamo (Tybalt), Harold Perrineau (Mercutio), Pete Postlethwaite (Padre Laurence), Paul Sorvino (Fulgencio Capulet) e Brian Dennehy (Ted Montague), além de Paul Rudd (Dave Paris), a fita é redonda nesse quesito, ainda que muito do foco nos personagens coadjuvantes seja completamente retirado por Luhrman para que em razoavelmetne curtos 120 minutos – considerando o tamanho da peça – seja possível contar, com grande fidelidade, os principais acontecimentos da obra de Shakespeare.

Mas o filme tem uma edição muito apressada e histérica. Sim, isso se dá certamente em razão da tal estética de videoclipe que mencionei, mas Luhrman não precisava exagerar. Basta comparar os cortes de suas duas obras musicais imediatamente anteriores e posteriores (que formam sua “Trilogia da Cortina Vermelha”, como se convencionou chamar) para se notar que ele poderia ter trabalhado com sequências mais longas e menos cinéticas.

O mesmo vale para o ataque visual que o filme representa. Ainda que seja original e interessante trocar espadas por pistolas, os exagerados figurinos e os ângulos incomuns que Luhrmann procura usar acabam desviando demais a atenção do espectador da trama central. Com isso, o filme fica na fronteira entre algo como Amor, Sublime Amor e Romeu & Julieta, de Zeffirelli, parecendo muito mais um exercício de estilo e forma, do que um longa metragem baseado em uma famosa tragédia.

Mas é aquele olhar para trás que nos faz aceitar e finalmente gostar do resultado final. O trabalho de Luhrmann, queira ou não, é peculiar e característico dele. Não pode haver dúvidas quanto ao cuidado que ele tem com seus filmes e Romeu + Julieta é uma película que respeita o texto original sem deixar a inovação de lado. Se o espectador no mínimo não ficar de queixo caído – mesmo com todos os defeitos – talvez seja o caso de verificar sua pulsação.

Romeu + Julieta (Romeo + Juliet, EUA/Austrália, 1996)
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, William Shakespeare (peça)
Elenco: Leonardo diCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Harold Perrineau, Pete Postlethwaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Paul Rudd, Vondie Curtis-Hall
Duração: 120 minutos

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.