Crítica | Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos

Rosencrantz and Guildenstern Are Dead 600x400

estrelas 3

Para se ter um mínimo de chance de apreciar Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos, faz-se necessário o conhecimento mais do que trivial de Hamlet, uma das  mais famosas peças de William Shakespeare. E, nesse ponto, talvez subsista o maior problema dessa fita, dirigida por Tom Stoppard (sua primeira e única experiência como diretor de longas) que não só escreveu o roteiro como, também, escreveu a peça de teatro encenada pela primeira na Escócia, em 1966.

O hermetismo do trabalho de Stoppard cria dificuldades de compreensão na fita, mas, mesmo aqueles que conhecem Hamlet, também encontrarão problemas na fluidez da narrativa, que talvez tenha funcionado bem no teatro, mas que, em filme, perde sua força.

No entanto, a ideia que dá luz à peça e ao filme é cativante. É Hamlet visto pelos olhos da dupla Rosencrantz e Guildenstern. Quem são eles? Ora, são os famosos personagens coadjuvantes e alívios cômicos da peça de Shakespeare, usados pelo Rei Claudius e pela Rainha Gertrude para secretamente descobrir a causa do comportamento estranho de Hamlet (eles são estudantes amigos do prìncipe dinamarquês), além de acompanhá-lo em seu exílio na Inglaterra. São personagens importantes para a narrativa (ainda que Laurence Olivier, em sua magnífica adaptação da peça, os tenha extirpado por completo) que ganharam notoriedade na sátira de W. S. Gilbert, no século XIX.

A interação dos dois com Hamlet na peça original é limitada e Stoppard mantem-se fiel ao material base nesse tocante, criando um novo universo para os dois coadjuvantes transformados em protagonistas. Logo no início, Rosencrantz e Guildenstern (vividos por Gary Oldman e Tim Roth – o “quem faz quem” formal existe nos créditos do filme, mas faz parte da narrativa a confusão entre os nomes e pessoas, pelo que eu a manterei aqui) são vistos cavalgando para o castelo de Elsinore, depois de convocados por Claudius (Donald Sumpter) e Gertrude (Joanna Miles). Não demora e Stoppard já revela o tom de seu trabalho, com Rosencrantz achando uma moeda e fazendo quase 200 “cara e coroa” em que o resultado é apenas “cara”, com uma ótima discussão entre os dois sobre probabilidades. É o teatro do absurdo em Hamlet, o que dá todo um frescor à obra, ainda que Stoppard saiba usar esses aspectos sem “atrapalhar” a narrativa paralela da peça “principal” propriamente dita.

Encontrando uma trupe de artistas também a caminho de Elsinore (a mesma que viria a encenar uma versão alterada de O Assassinato de Gonzago para o rei/tio/assassino a pedido de Hamlet), os dois, então, passam a assistir à diversas encenações comandadas pelo diretor, vivido muito bem por Richard Dreyfuss. Isso deixa a entrever que talvez o filme seja uma peça e se passe inteiramente na carroça dos artistas nômades. Será?

Quando Rosencrantz e Guildenstern interagem com Hamlet (Iain Glen bem antes de Game of Thrones) e Hamlet logo descobre as verdadeiras intenções dos dois, vemos os coadjuvantes/protagonistas também quase que imediatamente deduzindo o porquê de Hamlet ter mudado seu comportamento. Afinal, seu tio “estranhamente” se casara com sua mãe, depois da morte em circunstâncias estranhas de seu pai. Quem não mudaria o comportamento, não é mesmo? E são esse momentos geniais que fazem a fita valer a pena, com especial destaque para a peça-dentro-da-peça que aqui não é O Assassinato de Gonzago, mas sim Hamlet encenada da mesma forma, sem falas e criando uma perfeita ligação com a efetiva história trágica do príncipe dinamarquês que vemos um pedaço aqui e outro ali, sempre pelos olhos da dupla absurda de Rosencrantz e Guildenstern. Ah, e eu já mencionei que Rosencrantz passa toda a projeção fazendo descobertas e invenções científicas, includindo o avião? Pois faz e isso consegue ser muito bem inserido na trama dando um ar leve e cômico à tragédia que se avizinha.

Mas é claro que, como deixei entrever no início, o filme não é sem problemas. Mesmo que esqueçamos, por um momento, seu hermetismo, a fita é ainda cheia de desvios de ritmo. A montagem básica, sem muita imaginação, preguiçosa mesmo, acaba contribuindo para um encadeamento lento de cenas que demoram a realmente mudar. Os diálogos, apesar de divertidos, perdem sua força na produção, tornando-se longos demais e crivados de silêncios inexplicáveis. Com isso, o trabalho de Stoppard se arrasta pela tela, alternando poucos momentos de brilhantismo como muitos momentos de passividade que acabam detraindo do conjunto. Aqueles que conhecem Hamlet saberão apreciar mais. No entanto, mesmo esses verão que a fita, quase chegando a duas horas de duração, poderia ter sido 40, 50 minutos mais curta.

Pelo inusitado, Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos poderá agradar em um primeiro momento, mas, depois, o pouco material realmente interessante dará a impressão que os eternos coadjuvantes deveriam continuar exatamente como Shakespeare os imaginou.

Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos (Rosencrantz & Guildenstern are Dead, Reino Unido/EUA – 1990)
Direção: Tom Stoppard
Roteiro: Tom Stoppard
Elenco: Gary Oldman, Tim Roth, Richard Dreyfuss, Joanna Miles, Donald Sumpter, Iain Glen, Joann Roth, Ljubo Zecevic, Livio Badurina, Tomislav Maretic, Mare Mlacnik
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.