Crítica | Rota de Fuga 2: Hades

Hollywood faz continuação de tudo, mesmo quando a obra original simplesmente grita aos quatro ventos algo como “como assim uma sequência, seus aproveitadores sem escrúpulos???”, mas Hollywood tem vasta experiência nisso, volta e meia trazendo obras de qualidade. A China é um jogador razoavelmente recente nesse veio do cinemão arrasa-quarteirão e, como uma economia que finge ser de mercado, o país passou a institucionalmente derramar dinheiro em produções do gênero, com Hollywood, claro, correndo atrás do cheirinho dos cifrões além do Pacífico.

O resultado é o proverbial encontro do roto com o esfarrapado, da fome com a vontade de comer, o que tem resultado em co-produções sino-americanas de derreter o cérebro de ruins, o que só acrescenta às porcarias que Hollywood costumeiramente lançava sem ajuda de mais nenhum país. Rota de Fuga 2: Hades é apenas o mais recente exemplo dessas aberrações que, pelo menos, foi uma produção lançada diretamente em home video, evitando que se ocupasse salas de cinemas com lixo tóxico como a Globofilmes insiste fazer com suas comédias imbeciloides.

Sei que hoje estou especialmente amargo e venenoso, mas é que minha bile ferveu e meu Q.I. caiu (ainda mais) depois de assistir essa continuação do filme de fuga de prisão estrelando a dupla Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenneger, em 2013. Afinal, qual poderia ser a dificuldade de fazer algo pelo menos passável com base na premissa “brucutu tem que fugir de prisão impossível”? Absolutamente nenhuma, não é mesmo? Bastava colocar Stallone – mesmo todo botocado a ponto de ficar risível – quebrando prisioneiros e guardas e escapando das mais absurdas situações imagináveis. Qualquer orçamentinho de fan film e um diretor meio degrau de qualidade acima de um Uwe Boll da vida tiraria de letra essa tarefa. Mas, infelizmente, estava enganado, e Rota de Fuga 2: Hades (nome pomposo para uma prisão que nada mais é do que um octógono preto de lutas) é de um amadorismo tão grande que o filme com certeza seria o orgulho de Ed Wood.

Se o primeiro filme era uma bela desculpa para colocar os dois brutamontes juntos, esse segundo – que não conta com Schwarza, que deve ter lido o roteiro de duas ou três páginas e rido copiosamente enquanto mandava seu agente rejeitar a proposta – é uma bobagem sem tamanho que coloca não Ray Breslin (Stallone), mas sim os empregados de sua empresa em mais uma prisão em lugar incerto e não sabido, depois de um prelúdio em que ele é obrigado a demitir um dos seus por incompetência. Mas calma, pois a enganação não é completa e Breslin acaba sim chegando lá na tal prisão octógono, mas isso faltando só 30 minutos de projeção.

O problema, porém, não é Breslin ficar de lado, muito mais como um mentor do que alguém realmente envolvido na ação. O problema também não está somente no roteiro, já que Miles Chapman (que co-escreveu o primeiro filme), apenas repete a premissa simples anterior, ainda que a nova prisão seja muito menos criativa do que a Tumba e ganhe uma execução paupérrima na telinha.O ponto nodal é mesmo a mais completa e desconcertante incompetência da direção e da montagem. Aliás, minto. Incompetência não, pois incompetência dá a entender que a pessoa pelo menos estudou sua profissão em um nível basal que seja. Aqui, o problema está no desconhecimento básico do que é uma narrativa, do que é contar uma história com imagens, do que é construir personagens, do que é estabelecer tensão.

Nada do que faz de um filme um filme está realmente presente. O elenco, que conta com um Stallone já “passado”, dois chineses forçados goela abaixo como parte do pacote de investimento que são tão limitados na atuação quanto o o suposto protagonista, mas não têm seu carisma e Dave Bautista em uma ponta glorificada, é o que primeiro chama atenção ou, melhor dizendo, deixa de chamar atenção. Nem mesmo 50 Cent voltando para repetir seu papel de Hush consegue melhor a impressão geral considerando que ele não deve ter mais do que três ou quatro minutos de tela. Da mesma forma, a inclusão de Wes Chatham, que se mostrou surpreendentemente versátil em sua truculência como Amos em The Expanse, vale algo aqui, novamente por ficar soterrado debaixo de uma progressão narrativa completamente equivocada.

Steven C. Miller, o comandante dessa ignomínia cinematográfica, não tem ideia do que é uma elipse ou decupagem. Ele filma com uma câmera tremida sem preocupar-se com absolutamente nada que não seja a sua percepção enviesada do que ele considera ser uma obra audiovisual, ou seja, uma coleção de imagens desconexas, repetitivas e desnorteadoras que não seguem nenhuma lógica discernível. É o que equivalente a amarrar uma câmera na cabeça de um símio e deixar ele solto para fazer seu próprio filme “de floresta”. Se acham que estou exagerando, reparem no básico: a passagem de tempo. Miller, com o desgovernado trabalho de Carsten Kurpanek e Vincent Tabaillon na montagem, não consegue, em momento algum, transmitir qualquer tipo de sensação de passagem temporal. Não fossem os supostos deslocamentos necessários para os personagens, seria perfeitamente possível concluir que todo o filme se passa em uma questão de três ou quatro dias, aí incluído a ação preambular.

Além disso, é visível a falta de planejamento da pré-produção. Miller nunca deve ter ouvido falar de story boards e parece não saber o que e quanto filmar, como consequência disso. As sequências resultantes são episódicas ao ponto de frustrar o espectador, além de dar a perfeita impressão de faltar algo a todo momento, cortesia mais uma vez de uma montagem esquizofrênica que faz os cortes de obras de Michael Bay parecerem Arca Russa (perdão aos Deuses do Cinema por citar Arca Russa no mesmo parágrafo que escrevo o nome de Bay e de Miller e dentro de uma crítica desta atrocidade aqui). A fotografia azulada de Brandon Cox não ajuda também na progressão narrativa e mais parece completa falta de opção do que uma escolha do diretor de fotografia (ainda que obviamente não seja isso).

O roteiro, que eu absolvi da culpa, não é totalmente inocente também. Não só Chapman não tem a menor ideia de que uma patente é o exato oposto do que ele coloca no texto (não era difícil pesquisar a Wikipédia para isso, não é mesmo?), o que me fez ter espasmos de risos involuntários e nervosos, como ele não tem a menor preocupação em construir personagens. Se Breslin já tem a “bagagem” do filme anterior, que acaba ajudando um pouco quem o assistiu, os demais não têm esse benefício e parecem personagens feitos de cartolina que só não são completamente fungíveis em razão de suas aparências físicas.

Hollywood não precisava da China para produzir lixo tóxico, mas, pelo visto, considerando que Rota de Fuga 3 já está em produção, a parceria entre os dois países continuará firme e forte. É hora de fugirmos para as colinas ou nos escondermos em uma caverna bem profunda, pois prevejo que a avalanche dessas produções tóxicas só está começando…

Rota de Fuga 2: Hades (Escape Plan 2: Hades – China/EUA, 29 de julho de 2018)
Direção: Steven C. Miller
Roteiro: Miles Chapman
Elenco: Sylvester Stallone, Dave Bautista, Xiaoming Huang, Jesse Metcalfe, 50 Cent, Wes Chatham, Chen Tang, Tyron Woodley, Tyler Jon Olson, Titus Welliver, Shea Buckner, Jaime King
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.