Crítica | Logan Lucky – Roubo em Família

Qualquer comentário para afirmar (e há alguém que ainda duvide) a versatilidade de Steven Soderbergh atrás de cada um de seus projetos já seria, hoje em dia, chover na redundância. Desde sua estreia explosiva no independente Sexo, Mentiras e Videotape, passando por sua tão badalada vitória no Oscar de direção por Traffic e chegando até seus projetos mais experimentais, como Full Frontal, Confissões de uma Garota de Programa e Bubble – Uma Nova Experiência, o cineasta sempre se mostrou um curioso amante das possibilidades que as temáticas cinematográficas oferecem, já chegando ao ponto de migrar para a TV com a cinebiografia Minha Vida com Liberace (projeto que teria sido o canto do cisne de Soderbergh) e assumindo a cadeira de produtor na finada série The Knick. Mas claro, como qualquer profissional que anuncie sua aposentadoria antes do tempo, era visível que Soderbergh ainda não se sentia preparado para abandonar sua posição atrás das câmeras, e seu retorno à posição, Roubo em Família, comprova que o diretor ainda se mantém em boa forma mesmo após este hiato de quatro anos longe das telonas.

Visivelmente inspirado (ou seria apoiado?) na fórmula de seu veículo pop Onze Homens e um Segredo (e consequentemente, em suas sequências), Roubo em Família parte da premissa banal em que dois irmãos, Jimmy e Clyde Logan (Channing Tatum e Adam Driver, respectivamente), conhecidos na pacata cidade do interior em que vivem devido a fama de serem azarentos, decidem formular um assalto mirabolante durante um evento de corrida da Nascar, tendo ao seu lado Mellie (Riley Keough, de Mad Max: Estrada da Fúria), o carcerário Joe Bang (Daniel Craig) e seus irmãos, todos encarnando típicos estereótipos carregados de caipiras americanos, o que por si só já acentua o que há de rocambolesco e imprevisível nos planos dos personagens.

Apesar do risco em parecer uma mera repetição do que Soderbergh já teria feito no passado (a direção sóbria, os enquadramentos obsessivamente estáticos, a estrutura narrativa semelhante à trilogia Ocean’s), Roubo em Família injeta um bem-vindo sopro humorístico quando decide apostar nessas personalidades sem glamour para que o espectador acompanhe, algo muito distante do elenco charmoso composto por Brad Pitt, Matt Damon, George Clooney e outros na inspiração referencial de Soderbergh aqui (e o diálogo onde o roteiro deixa isso claro é de um teor cômico sutil e inusitado). Jimmy, Clyde e Joe são os típicos losers do interior, vítimas de uma escassez social (apesar deste foco estar longe do discurso do filme) onde Clyde exibe pouca vida em suas expressões após ter perdido uma mão na Guerra do Iraque, onde Jimmy perde o emprego simplesmente por mancar e tendo que auxiliar no sustento de sua filha, e onde Joe, o rosto mais atípico da projeção, aceita participar do plano de assalto dos Logan mesmo restando apenas cinco meses para abandonar a prisão. Tais figuras, tão à mercê do condenável e do moralmente questionável, são essenciais para que os elementos de Roubo em Família funcionem à favor de uma proposta que nos permite torcer por estes personagens fora da curva.

E não apenas o calibre do elenco facilita a fluência narrativa e humorística de Roubo em Família (Craig, em especial, tem o melhor papel de sua carreira aqui), mas o foco fragmentado de Soderbergh, que acompanha cada um dos núcleos que compõem a elaboração do assalto, ressaltando a coletânea ácida de tipos que a experiência reúne e nos deixa inteirados sobre os caminhos da execução do plano, mas claro, com direito há algumas pequenas surpresas em momentos pontuais. A direção seca e limpa de Soderbergh também engana, e na sua simplicidade, Roubo em Família se dota sutilmente de uma aura cool e estilizada que rivaliza forte com os exageros estilísticos de Edgar Wright em seu Baby Driver, por mais distantes que as duas obras possam parecer. E se há eventuais problemas de ritmo aqui (há mais momentos mortos que o necessário e o final se estende inexplicavelmente apenas para uma ponta de Hilary Swank), o roteiro da novata Rebecca Blunt nos presenteia com uma gama de momentos inusitados e com um timing invejável, como a explicação do material da bomba (Craig, mais uma vez, engraçadíssimo aqui) ou uma certa cena envolvendo o braço artificial de Clyde, sem dúvidas, dois dos grandes momentos do ano.

E mesmo diante de sua fórmula básica para contar uma história, é extremamente prazeroso ver Soderbergh de volta e notar o quanto o próprio, assim como todos seus envolvidos, visivelmente aproveitam a brincadeira para extrair sua própria dose de diversão. Roubo em Família é um filme calibrado, rocambolesco, deliciosamente caricato e inverossímil, mas capaz de arrancar grandes gargalhadas e uma extrema simpatia por seus personagens. Por si só, estes elementos já fazem deste retorno de Steven Soderbergh um pacote de entretenimento completo.

Roubo em Família (Logan Lucky) — EUA, 2017
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Rebecca Blunt
Elenco: Channing Tatum, Adam Driver, Daniel Craig, Riley Keough, Hilary Swank, Seth MacFarlane, Katherine Waterston, Sebastian Stan, Katie Holmes, Jack Quaid, Brian Gleesom
Duração: 119 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.