Crítica | Rubber, O Pneu Assassino

Leiam a sinopse oficial desse filme, conforme a programação oficial do Festival do Rio 2010:

“Em algum lugar do deserto californiano, um pneu telepático acorda subitamente para uma missão demoníaca, isto é, assassinar todos os seres que vir pela frente. Os habitantes da região assistem incrédulos aos crimes cometidos por esta espécie de serial killer das rodovias, que se sente misteriosamente atraído por uma bela jovem. Em paralelo, uma investigação é lançada.”

Leram? Pois bem. Agora me digam: como no mínimo não ficar curioso para ver o que exatamente é isso?

Segundo longa do bizarro diretor francês Quentin Dupieux, Rubber, apesar de sua origem no Velho Mundo, é integralmente falado em inglês e passado nos EUA, em algum lugar desértico da Califórnia. E, diferente do que sua premissa nonsense deixa entrever, a obra consegue ser mais do que aparenta. Sim, a besteirada toda prometida pela sinopse está lá intacta, da maneira que se imagina (ou não), mas há algo além para ser apreciado em outras e intrigantes camadas.

O filme começa com a câmera focando umas 10 ou 12 cadeiras pretas colocadas em pleno deserto. Um contador (Jack Plotnick) segura vários binóculos nas mãos. Ao longe, um carro se aproxima vagarosamente, e começa a derrubar cadeira por cadeira, desmanchando-as ao mais leve toque. Depois desse ritual, o carro para e, do porta malas, sai um xerife (Stephen Spinella) todo paramentado, inclusive com os essenciais óculos escuros. Ele entrega os óculos escuros ao motorista que dá para ele um copo d’água. Em seguida, o xerife (seu nome é Chad) olha para a câmera e faz a pergunta: “Por que o E.T. de Spielberg é marrom?” Ele mesmo responde: “Não tem nenhuma razão” (no reason)”. E continua: “Por que em JFK, de Oliver Stone, JFK é assassinado?” E responde novamente: “Não tem nenhuma razão”. Faz mais umas cinco perguntas, até mesmo sobre a vida real (“Por que não enxergamos o ar que respiramos?”), respondendo a todas as perguntas com no reason. Termina seu discurso derramando o copo d’água no chão e a câmera se afasta para revelar que, na verdade, ele não estava falando conosco, mas sim com um platéia de 10 a 12 pessoas a quem são finalmente entregues os binóculos que estavam no contador que, ato contínuo, aponta na direção em que eles têm que assistir ao espetáculo, ao filme que nós então também passamos a assistir.

Ao estabelecer esse enquadramento – que não é rígido, valeu destacar – Quentin Dupieux fez mais do que ele poderia fazer com a sinopse que começa esta crítica. Ele transforma a proposta bizarra de Rubber em um filme metalinguístico, ou um filme dentro de um filme. E a razão para isso? Ora, talvez no reason seja a resposta certa. É a mesma resposta que se dá para as perguntas “por que um pneu?” e “por que telepático?”. Isso separa o filme da vala comum das idiotices completas que inundam o cinema mundo afora. Os espectadores dentro do filme estão cientes do que está acontecendo e acompanham o sanguinolento caminho do pneu assassino da mesma maneira que nós, espectadores fora do filme, acompanhamos o que acontece com nossas contrapartidas fílmicas.

E, com isso, Dupieux estabelece uma forte crítica sobre o Cinema como arte. Mais do que isso, ele desafia a nossa compreensão da Sétima Arte e brinca com nosso ímpeto natural de querermos explicações para tudo. No reason é uma bofetada em nossa ânsia por detalhes, é uma sacudida para deixar claro que nem sempre as coisas precisam ser destrinchadas para serem apreciadas. É uma frase que liberta, que nos deixa atravessar o batente da porta que nos deixa preso a literalidades.

Em termos narrativos diretos, ou seja, sobre o pneu telepático assassino em si, não há muito mais o que falar. O baixo orçamento da obra é um de seus charmes e um pneu velho como protagonista é curioso demais para desviar o olhar por um segundo sequer, ainda que a ação seja esparsa. Mas Dupieux não é bobo e sabe que sua premissa não ocuparia um longa completo. Por vezes o diretor surpreende, por outras é repetitivo quando o foco fica mesmo no borrachudo. Quando  a novidade começa a perder seu frescor e quando as mortes “telepneumáticas” começam a perder a graça, o que não demora muito para acontecer, devo ser honesto, Dupieux trata de acabar o filme. Novamente, ele mostra inteligência em sua arte.

Rubber é mais do que sua sinopse ou premissa. Trata-se de uma surpresa que diverte, mas, ainda mais importante, faz pensar. Algo improvável quando o protagonista é um pneu telepata assassino, não é mesmo?

Rubber, O Pneu Assassino (Rubber, França/Angola – 2010)
Direção: Quentin Dupieux
Roteiro: Quentin Dupieux
Elenco: Stephen Spinella, Roxane Mesquida, Wings Hauser, Roxane Mesquida, Ethan Cohn, Charley Koontz, Daniel Quinn, Devin Brochu, Hayley Holmes, Haley Ramm, Cecelia Antoinette, David Bowe, Remy Thorne, Tara Jean O’Brien, Thomas F. Duffy
Duração: 82 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.