Crítica | Run & Jump

estrelas 3,5

Filmes que lidam com tragédias familiares geralmente pesam e comovem seus espectadores, levando-os às lágrimas. Run & Jump, quase que invertendo a lógica do que podemos esperar, apresenta uma família em frangalhos sob uma luz otimista, de franca reconstrução, com um tom positivo, apesar dos problemas.

Vanetia (Maxine Peake) é uma mulher de belos cabelos cacheados entre o louro e o ruivo em uma cidadezinha na Irlanda, com dois filhos e um marido que acaba de receber alta depois de passar cinco meses se recuperando de um derrame. Mas Conor (Edward MacLiam) não saiu sem sequelas. Seu derrame o alterou profundamente, afastando-o da família e sua profissão de marceneiro. Mesmo assim, seu caso é peculiar e raro e um neuropsiquiatra americano, Ted (Will Forte) vem pesquisar o desenvolvimento de Conor e, sob essas lentes, vemos a família lidar com seus problemas diários.

O filme começa muito bem com dois tipos de filmagem. A primeira delas é a fotografia com filtros, externa à família e a Ted, que nos coloca como observadores daquela situação no mínimo peculiar, já que Ted, quieto e recluso, passa a pernoitar na casa de Vanetia e Conor, como parte de seu pacote, que envolve pagamento para a família, algo muito bem vindo em razão da incapacidade de Conor para o trabalho. A segunda é a fotografia “com câmera na mão”, sem filtros e digital, que representa a câmera de Ted, o olhar dele para aqueles acontecimentos. Estranhamente, porém, essa diferenciação de técnicas é logo abandonada por Steph Green, mas essa escolha pode ser entendida se a interpretarmos como a intensificação da intimidade que Ted passa a gozar no seio familiar, com o filho do casal se afeiçoando mais a ele do que ao pai e com o romance platônico com Vanetia. Isso enevoa sua visão e nós, espectadores, passamos a ver tudo pelo olhar externo, da câmera com filtros.

E esse trabalho é particularmente acentuado pela fotografia de cores fortes, com grande ênfase no amarelo, que banha e toma as sequências às vezes completamente, seja com a decoração dos ambientes, seja com o belo uso de contra-luz nessa tonalidade, que funciona particularmente bem para acentuar as madeixas de Peake. As cores frias, mas não escuras, ficam restritas a Ted enquanto ele ainda é puramente o cientista e não um membro da família. Na medida em que sua personalidade se abre, as cores esquentam, emulando a energia de Vanetia, que parece ser infindável, assim como sua capacidade de lidar com todos os problemas ao seu redor.

O roteiro, enquanto foca nesse mergulho de Ted no seio de uma família que, se no começo o acolhe com relutância, logo o recebe de braços abertos, funciona de maneira azeitada e sem interrupções. Mas Aibhe Keogan, que escreveu o filme com auxílio de Green, acaba tentando abordar diversas outras questões, como a relação do pai de Conor com a nova versão dele, a sexualidade do filho mais velho de Venetia, o olhar enciumado de uma amiga de Venetia e outros ainda. Com isso, a fita começa a se perder, ainda que, se considerarmos cada assunto separadamente, a narrativa consiga resolvê-los satisfatoriamente, mesmo que, para isso, tenha que exagerar nos acontecimentos externos nos curtos dois meses que dura o trabalho de Ted. Chega quase a ser uma alegoria de toda uma vida condensada nesse curto espaço de tempo, o que pode realmente ter sido a intenção, mas que não deixa de transparecer como forçado e exagerado.

Mas Will Forte, que contracenou com Bruce Dern no excelente Nebraska e que veio, curiosamente, do Saturday Night Live, mais uma vez sabe equilibrar leves e delicados traços cômicos com uma espécie de contenção de emoções rara de se ver por aí. Entendemos o que ele está sentindo sem que ele precise alterar sua expressão, apenas observando seus olhos e movimentos corporais. Mas é Maxine Peake, para mim uma ilustre desconhecida, que realmente rouba os holofotes. Sua Vanetia é forte, durona, mas extremamente compreensiva, sem um pingo sequer de preconceito. Ela trata o marido mudado radicalmente da mesma maneira que provavelmente o tratava antes (se isso é um erro, são outros quinhentos). Sua aproximação a Ted é perfeitamente justificada – e inevitável mesmo – dentro da narrativa e, por isso, nós conseguimos aceitar seu dilema moral. Vanetia é quem recebe, literalmente, a carga da iluminação que mencionei. É como se ela fosse a bateria que carrega aquela família – agora com mais um membro – com certa facilidade, ainda que também seja visível o preço que ela paga. Peake transita entre frustração e pura alegria com uma atuação contagiante e humana.

Mesmo com um roteiro que se desvia demais ao tentar abraçar o mundo, Run & Jump é um drama eficiente que literalmente joga uma luz quente sobre a relação familiar sacudida por uma tragédia. É uma tentativa, talvez, de olhar positivamente sobre aquele velho e de certa forma pessimista adágio que diz que a “esperança é a última que morre”. Em Run & Jump, a esperança não só não morre de jeito algum como ela está presente de maneira constante em cada fotograma.

Run & Jump (Idem, Irlanda/Alemanha – 2013)
Direção: Steph Green
Roteiro: Steph Green, Ailbhe Keogan
Elenco: Ciara Gallagher, Maxine Peake, Edward MacLiam, Will Forte, Ruth McCabe, Brendan Morris, Sharon Horgan, Michael Harding, Kelby Guilfoyle, Ri Galway, Clare Barrett, Tim Landers
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.