Crítica | “Run The Jewels 3” – Run The Jewels

runthejewels3

estrelas 4,5

“Eu disse a todos vocês, otários, eu disse a vocês no RTJ1, depois disse de novo no RTJ2, e vocês ainda não acreditam. Então aqui vamos nós, RTJ3”
Talk To Me – Killer Mike

O caminho pavimentado pela dupla Run The Jewels – do cenário independente até uma modesta ascenção ao mainstream – é impressionante. Conquistar turnês internacionais, shows lotados, homenagens em capas de HQs, participação em marketing de jogos e multidões fazendo o símbolo do grupo com os punhos: RTJ virou uma febre para os apaixonados por hip-hop feito com atitude. Depois de dois discos aclamados, a dupla formada por Killer Mike e El-P chega ao fim de uma excelente trilogia. Run The Jewels 3, lançado de surpresa no Natal, sabe se diferenciar de tudo que a dupla fez, mas mantendo sua essência tão marcante.

A própria capa do disco serve para mostrar tudo que conseguiram nos últimos dois anos. As mãos já não seguram mais a corrente, elas se tornaram a corrente. Diante de tantas mudanças era normal esperar o duo oferecer um material diferente de suas obras anteriores, fugir da zona de conforto, surpreender. E talvez por isso mesmo RTJ3 talvez não agrade tanto alguns fãs. Veja que a faixa de abertura, Down, causa estranheza com suas batidas leves e clima negativo nos versos de Killer Mike cheios de lembranças dizendo que não quer voltar a vender drogas. E seguindo o avançar do álbum, é visto naturalmente que este é o mais maduro feito pela dupla, o mais denso e crítico.

Esse clima mais centrado e crítico, perpassado por batidas leves, segue firme em outras faixas. O single 2100, retorno da parceria com o produtor BOOTS e lançado um dia depois da eleição de Trump, é uma dissertação sobre a triste campanha presidencial estadunidense, um soco de mão fechada sobre as atuais políticas mundiais. Killer Mike questiona logo na entrada: “Quanto tempo até que o ódio que seguramos nos leve a outro holocausto?”. Já Thieves (Screamed The Ghost), com direito a samples de Além da Imaginação e Martin Luther King, é possivelmente a canção mais complexa já oferecida pelo grupo, abordando a fundo a importância de protestos e a luta por representatividade. Outra a seguir um caminho nunca visto pelo Run The Jewels é a belíssima Thursday In The Danger Room, com pegada jazz e participação do brilhante saxofonista Kamasi Whashington. Métrica excelente, clima melancólico e versos emocionantes marcam a canção onde Mike e El-P contam casos de amigos que perderam a vida.

Ah, mas não se engane, Run The Jewels continua a mesma saga sonora de seus discos anteriores. Talk To Me e Legend Has It, singles deste álbum, possuem a marca da produção finíssima do grupo, feita por El-P, cheia de batidas pesadas até o talo, rimas agressivas, ostentatórias e inteligentes. Panther Like A Panther, usada na divulgação do jogo Gears Of Wars 4 (que aliás, conta com skins da dupla), é outra que passa um groove impressionante em meio a seus beats frenéticos, uma chuva ácida de sintetizadores furiosos e rimas divertidas. No entanto, há espaço também para novos experimentos, veja que as bases de faixas como Everybody Calm e Call Tricketon são curiosas, quase minimalistas, soando como bombas ou alarmes de incêndio prestes a disparar. Atente como Killer Mike em Call Ticketron executa um de seus melhores e mais velozes raps, enquanto a letra imagina a dupla fazendo show no Madison Square Garden, talvez a maior das arenas de shows americana.

“Você fez meus tímpanos sangrarem e eu te sufocarei”. sample da criança no fim da ótima Hey Kids (Bumaye) – com presença do sempre espetacular rapper Danny Brown – parece resumir o som agressivo e forte da dupla, que certamente não é para fracos. No fim, RTJ3 fecha com chave de ouro: um medley de A Report To The Shareholders / Kill Your Masters. Fortemente política e contando com referências de Mike a sua ativa e crítica participação na campanha presidencial de 2016, a canção inicialmente marcada por base levemente descontraída recebe um curto-circuito em sua metade e faíscas surgem frente a entrada da fantástica Kill Your Masters, com direito a participação furiosa de Zach De La Rocha – que reprisa seu papel em RTJ2 – e versos sobre os rumos que a sociedade vem seguindo e seus eternos conflitos, com direito a referências que vão desde Guerra dos Mundos a Filhos da Esperança.

Run The Jewels 3 é ousado, experimental e sem medo de colocar o dedo na ferida. Uma nova etapa estabelecida pelos dois e um grande presente dedicado aos fãs. Killer Mike e El-P seguem fazendo história no hip-hop, mostrando que definitivamente não estão de brincadeira. RTJ3 é uma surra de rimas e bases fortes, a consolidação de uma brilhante trilogia de álbuns, embora a melhor obra ainda continue sendo o Império Contra Ataca da dupla, RTJ2.

Aumenta!: A Report To The Shareholders / Kill Your Masters
Diminui!: Down
Minha Faixa Preferida: Thursday In The Danger Room

Run The Jewels 3
Artista: Run The Jewels
País: Estados Unidos
Lançamento: 25 de dezembro de 2016 (versão digital)
Gravadora: Mass Appeal
Estilo: Hip-Hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.