Crítica | Run The Jewels – Pitchfork Music Festival 2015

estrelas 5,0

Nessa décima edição do Pitchfork Music Festival, realizado em Chicago, o festival seguia sua ideia tradicional e trazia tanto figuras ascendentes do cenário independente da música quanto alguns artistas de mais renome. E a dupla de rap/hip-hop formada por El-P e Killer Mike parecia ser uma das atrações que mais levou gente para o terceiro dia (domingo). Você podia perguntar a uma pessoa randômica qual o maior motivo pra ele estar alí e existia grandes chances dele te dizer: Run The Jewels.

Seguindo a tradição e abrindo o show com a clássica We Are The Champions do Queen sendo tocado, o duo entrou em palco e levou o público fã – que aguardava ansioso o começo do show – a loucura. Logo em seguida, a dupla foi logo afirmando que estavam com algumas surpresas para aquele show. Na sequência, o que se viu foi Killer Mike mandar um: “Hoje vamos colocar essa cidade abaixo” dando a largada para a faixa homônima do duo fazer o público virar uma explosiva tsunami humana de agitação. Bastou terminar e já emendaram na fantástica Oh My Darling Don’t Cry que fez o que parecia impossível: duplicou aquela tsunami e fez uma enorme onda de fúria contagiada pelos refrões agressivos e a performance forte da dupla. Parecia impressionante ver como o Run The Jewels explodiu os músculos do público logo nas duas primeiras músicas. Faixas do primeiro álbum como a ótima Sea Legs, foram escolhidas para a sequência e diminuíram a maré (ainda que a intensidade do público continuasse grande) e ajudaram muitos a se recuperarem da pancada inicial. O descanso foi rápido e só durou até começar a batida pesada de Blockbuster Night Pt 1 e possuir toda a multidão.

Em um dos momentos mais memoráveis do show, El-P fez piadas e pediu a todos pra guardarem no bolso seus celulares, óculos e quaisquer objetos. “Porque depois da próxima canção não vai restar mais nada por aqui”, completou. Era implantada alí uma bomba chamada Close Your Eyes And Count To Fuck que levou o público a loucura cantando o samplerRun The Jewels Fast, Run The Jewels Fast!“. O que ninguém sabia era que uma das “surpresas” já estaria alí: na metade da faixa Zach De La Rocha (Rage Against The Machine) entra em palco pra cantar sua parte da canção, o que foi uma baita injeção de adrenalina no público. E não parou por alí. O que se viu depois foram outras surpresas: The Boots entra em cena com sua guitarra para contribuir nos refrões da ótima Early e Gangsta Boo entra para cantar a terceira parte de Love Again e contagiar o público com seu rebolado e sua moral estratosférica nos versos cômicos do fim da canção.

A coisa mais perceptível do show é o poder de controle e carisma do grupo (isso pois incluo aqui também o DJ, sempre incentivando o público a fazer o gesto símbolo do Run The Jewels). Killer Mike e El-P tinham todos na mão. Fazendo piadas e pedindo diversas atitudes das pessoas, dominaram o show e deram uma aula de verdadeiros animadores. O que acaba lembrando os primórdios do Hip-Hop, seja no poder de crítica (destaque para Lie, Cheat, Steal onde os dois estipularam o que disseram ser “os 5 mandamentos desse país”) ou no sentido de controlar/animar festas, onde os primeiros DJs também surgiram.

Fechando com A Christmas Fucking Miracle – do primeiro álbum – El-P pediu ao público para levantar seus punhos para o alto e lembrar de quem cada um desejava que estivesse alí. Os trechos revezados entre os dois rappers e a conexão forte com o público montaram uma apresentação extremamente impactante que prometia ser a despedida do duo naquele dia. Deixando o palco e os fãs um tanto órfãos, o que restou foi ao público levantar as mãos fazendo o gesto clássico da dupla e gritar “RTJ” massivamente. Pra felicidade dos que estavam presentes, o pedido foi aceito e a dupla voltou para mais uma música. Dessa vez seria fechado com Angel Duster, canção cheia de críticas pesadas a governo e religião e faixa final do segundo álbum.

Killer Mike e El-P não eram a headline do domingo, mas funcionaram como uma. Depois da apresentação da dupla o que se viu foi um cansaço imenso de parte do público, que pulou, cantou e permaneceu conectado com a dupla durante toda apresentação. O que viria em seguida era Chance The Rapper, a grande headline do dia, que mesmo com uma super produção, uma execução fantástica com a presença de sua banda de apoio Donnie Trumpet & Social Experiment, não conseguiu conquistar o público com tanta simplicidade como Run The Jewels fez. Quem esteve alí teve a certeza que presenciava um dos maiores duos que a América já viu.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.