Crítica | Runaways – 1X01 a 1X03: Reunion, Rewind e Destiny

A ótima primeira temporada de Demolidor, distribuída pela Netflix, criou esperanças para o futuro da Marvel na televisão, o que apenas aumentou com a substancial melhoria de Agents of S.H.I.E.L.D. e a infelizmente cancelada Agent Carter. De uns anos para cá, no entanto, esse sentimento foi se dissipando, fruto da baixa qualidade das mais recentes séries, mais notavelmente, Punho de FerroDefensores e, claro, InumanosA esperança tornou-se medo, pois o padrão estabelecido no seriado sobre o Demônio de Hell’s Kitchen não estava sendo seguido. Esse temor, contudo, não foi aplicado a Runaways,  baseado nos quadrinhos de Brian K. Vaughan, principalmente por essa ser exibida no Hulu, serviço de streaming que, recentemente, nos trouxe a ganhadora do Emmy de Melhor Série Dramática, The Handmaid’s Tale.

Essa nova série, no entanto, assim como aquelas que a precederam, foi produzida pela ABC e Marvel Television, em conjunto com a Fake Empire Productions, essa última mais conhecida por produzir Gossip Girl. É seguro afirmar, portanto, que todas essas produções, apesar dos canais nas quais são exibidas, são “farinha do mesmo saco”, com suas diferenças de tom, é claro, como foi deixado bem evidente na também fraca O Justiceiro. Dito isso, não podemos deixar de enxergar, nesses três primeiros episódios liberados no mesmo dia alguns dos problemas das recentes obras da Marvel-Netflix em Runaways. Mas, antes de entrarmos nesses fatores, vamos à trama.

A série acompanha jovens amigos que, após a morte de uma das garotas do grupo, acabaram se afastando. Dois anos se passam e Alex Wilder (Rhenzy Feliz), incentivado pelos seus pais, acaba tentando reunir sua antiga turma. Apesar de estudarem na mesma escola, contudo, todos seguiram por caminhos distintos, alguns fazendo novas amizades, enquanto outros decidiram isolar-se. Apesar do receio inicial, eles acabam cedendo e vão até a casa de Alex, onde acabam descobrindo que seus pais parecem ter sacrificado uma jovem da igreja fundada pelos pais de Karolina (Virginia Gardner). Juntos, eles precisam ir até o fundo dessa história, enquanto outros estranhos acontecimentos começam a aparecer em suas vidas.

Essencialmente, Runaways não passa de uma série teen. Todo o seu lado fantasioso/sobrenatural serve apenas como justificativa para reunir os amigos, ao menos nesses três capítulos inaugurais. Dessa forma, o verdadeiro foco permanece na relação entre cada um deles. O grande problema é que, mesmo em quase três horas de série, nenhum desses personagens é, de fato, desenvolvido – não passam de estereótipos dos mais ordinários, cujos maiores problemas giram em torno da morte da amiga anos atrás. Mesmo as situações apresentadas soam extremamente clichês, tornando toda a narrativa extremamente previsível e superficial, quebrando nosso engajamento com a série.

Tais aspectos poderiam ser contrabalançados por um maior cuidado com o visual, o que, infelizmente, não ocorre. Assim como foi em O Justiceiro, a série carece de qualquer identidade, apresentando imagens pasteurizadas, sem elementos que, efetivamente, chamem a atenção. A fotografia apresenta apenas uma iluminação bastante padronizada, da mesma forma que a direção de arte – não existe qualquer apreço por criar algo facilmente identificável, seja pela paleta de cores ou pelos ambientes. Além disso, o seriado não conta com planos que, de fato, nos absorvem, despejando toda a responsabilidade de nossa imersão no roteiro, que, como já dito antes, é bastante falho.

Para piorar, nenhum dos atores parece estar realmente à vontade no papel, meramente cumprindo suas funções, como se lessem um texto colocado à frente deles. Não bastasse isso, alguns deles apresentam atuações verdadeiramente exageradas, excessivamente dramáticas, como se tivessem sido tirados de um filme B sem passar por um bom diretor de atores antes. Seguro dizer, pois, que não conseguimos nos identificar com qualquer um desses indivíduos, a tal ponto que sequer seus nomes conseguimos lembrar tamanha é a superficialidade da representação de tais personagens dos quadrinhos.

Com tudo isso em mente, os únicos elementos que, de fato, fazem com que retornemos para assistir mais um capítulo da série é a curiosidade levantada pelo mistério que gira em torno dos pais desses jovens. Continuar vendo Runaways, no entanto, demonstra ser uma verdadeira provação, que reitera nosso temor em relação ao futuro das séries baseadas em quadrinhos da Marvel. Certamente o canal em que são exibidas não afeta o declínio da qualidade dessas produções, que mais parecem ter saído de uma linha de montagem do que da mente de artistas. Resta torcer para que a série melhore em seus posteriores capítulos, fazendo jus à obra de Brian K. Vaughan.

Runaways – 1X01/02/03: Reunion, Rewind e Destiny — EUA, 21 de outubro de 2017
Criação: 
Josh Schwartz, Stephanie Savage
Showrunner: Josh Schwartz, Stephanie Savage
Direção: Brett Morgen, Roxann Dawson, Nina Lopez-Corrado
Roteiro: Drew Pearce, Drew Pearce, Kalinda Vazquez
Elenco: Rhenzy Feliz, Lyrica Okano, Ariela Barer, Cris D’Annunzio, Cody Mayo, Virginia Gardner, Gregg Sulkin, Allegra Acosta, Angel Parker, Ryan Sands, Annie Wersching, Kip Pardue
Duração: aprox. 45 min. cada episódio

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.