Crítica | Runaways – 1X07: Refraction

Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Runaways, aqui.

Uma das missões dos produtores de Runaways é a de garantir que a série, enquanto adaptação televisiva, consiga traduzir bem o ritmo envolvente da versão em quadrinhos que, sob a habilidade rara de Brian K. Vaughan, constrói e coloca em movimento um elenco bastante extenso de personagens com uma rapidez e precisão incríveis. O fato de que Refraction retoma a dinâmica de praticamente todos os fios narrativos da temporada de forma satisfatória, encontrando ainda tempo para apresentar uma sólida unidade temática como episódio, atesta a favor do relativo sucesso da produção encabeçada por Stephanie Savage e Josh Schwartz em fazer frente ao desafio, ainda que permanecendo um claro espaço para melhoras.

Recobrando o pique após a arrastação de Metamorphosis, nosso foco recai nessa semana sobre os Stein, lidando com as consequências da descoberta (e subsequente divulgação em público) por parte de Victor Stein (James Marsters) a respeito do affair entre sua mulher, Janet (Ever Carradine), e seu colega de PRIDE Robert Minoru (James Yaegashi). Se essa recapitulação não foi capaz de evocar no leitor o logotipo da Televisa com clareza o suficiente, complementamos que, após o barraco e o climão todo no baile de gala, o patriarca dos Stein sofreu uma convulsão devido ao câncer cerebral que ele possuía (mas vinha escondendo da infiel mulher) – que felizmente foi curado em minutos pelo misterioso Jonah (Julian MacMahon). Novelismos à parte, o episódio ao menos encaminha relativamente bem o absurdo da questão ao dar a entender que os membros da PRIDE possuem alguma noção das capacidades curativas sobrenaturais de Jonah – ainda que permaneça incerto o quanto exatamente eles sabem a respeito de seu papel (ou sua real identidade) no culto de Gibborim.

O episódio continua a tendência em dar centralidade aos vilões, sendo que os membros da PRIDE ocupam aqui um tempo de tela provavelmente igual ao de nossos heróis (os “Fugitivos” que não fugiram e que provavelmente não vão fugir até o final dessa temporada). O episódio inicia novamente com um flashback, desta vez mostrando como Victor e Janet se conheceram (em uma cena que não adiciona muito, mas que ao menos dá mais contexto para a repentina invenção da “máquina do tempo” de Kingdom), seguindo com o nascimento de Chase (Gregg Sulkin) e um pouco do subsequente desenvolvimento da péssima relação entre o abusivo Victor e seu único filho. Contrastando com isso, no presente, acompanhamos a aparente mudança de personalidade de Stein após receber o soro milagroso de Jonah. É interessante como a série explora os pequenos momentos de caracterização: a reação de Chase, que, chocado, fica contra Janet ao descobrir a respeito da traição; enquanto que a nova personalidade “paz e amor” de Victor é explorada tanto pelo lado humorístico quanto pelo dramático, o que contribui para humanizar o odioso personagem.

Ao contrário das tensões românticas repetitivas entre os adolescentes, essas digressões novelescas têm um papel promissor para nossa trama principal, ao tornar mais complexas as relações intrafamiliares e, com isso, quem sabe emprestar mais peso ao racha de gerações que parece cada vez mais próximo. Conforme coloca Nico (Lyrica Okano), todos esses conflitos conjugais no fim das contas deveriam ser indiferentes já que, se tudo correr bem, todos os pais estarão nas mãos da justiça – provavelmente presos – o mais rápido possível. Só que eles não são indiferentes, e isso abala a resolução inicial dos jovens (advinda mais do choque do que de qualquer outra coisa) em tentar simplesmente destruir seus progenitores. A série tem conseguido balancear bem essas reações realistas com as situações mais estapafúrdias que envolvem os mesmos personagens, ainda que a superpopulação do elenco se faça sentir em alguns momentos, em especial nas cenas em que todos estão reunidos, onde por vezes acaba por predominar nos diálogos um tom mais genérico e com menos personalidade.

Com Chase e Nico lidando com as crises maritais de seus núcleos, os adolescentes veem se concretizar seus temores sobre o desmoronamento de suas famílias. Novamente surge o questionamento a respeito do que será de todos eles quando a PRIDE for exposta: Alex (Rhenzy Feliz) diz querer lavar as mãos e deixar por conta da justiça, enquanto que Chase tem sua hesitação atiçada pelos recentes eventos. Por outro lado, Nico mantém-se atenta a respeito de Alex, não comprando a ideia de que ele conseguiu sozinho e tão facilmente o acesso ao escritório de Tina (Brittany Ishibashi). Com Molly (Allegra Acosta) tendo dado com a língua nos dentes, o grupo se vê desunido e com sua única esperança em torno da decriptação dos vídeos de Alex (que realmente parece guardar algum segredo – qual será?).

No segundo plano da narrativa temos o enfoque nos Dean e na Igreja de Gibborim, mais especificamente nas consequências trazidas pelo retorno de Jonah. Leslie (Annie Wersching) toma um chega-pra-lá da auto-proclamada deidade recém-revivida, que por sua vez continua sua aproximação com o pobre Frank (Kip Pardue). Aqui arma-se mais um conflito interessante, com Frank descobrindo as verdades a respeito de Jonah – de que ele é não é humano e de que ele tem um caso com sua mulher – ao mesmo tempo em que ela descobre que não tem tanta importância no grande plano da criatura. Resta saber como isso tudo amontoará com os objetivos finais da PRIDE, que permanecem envoltos em mistério. Ainda mais com o twist no final, com a revertida de Victor em sua pior versão possível após a ressaca do soro de Jonah – bem explicada com o paralelo comédico com o divertido Dale Yorkes (Kevin Weisman) – que leva ao desfecho dramático onde ele aparentemente acaba morto por Janet.

Por fim, em um episódio dedicado aos dramas dos adultos, quem rouba a cena do lado adolescente do elenco é a sempre adorável Molly, lidando com as consequências em ter sugerido aos Wilder que ela sabia a respeito do porão secreto em sua casa. A subtrama com o clube de dança não foge dos lugares comuns que se pode esperar, ainda que contribua para nos informar mais a respeito da atitude sempre positiva de Molly, que se revela mais próxima de uma defesa contra a rejeição e o abandono do que como ingenuidade propriamente dita. Por sua vez, a cena em que ela descobre que os Yorkes mandarão ela para viver com uma parente distante é muito bem entregue, representando mais um acerto na frente dramática do capítulo.

Todos esses conflitos internos complexificam o que, no início da temporada, parecia ser uma adaptação mais fiel do conceito original, muito mais linear, onde os adolescentes se unem e… bem… fogem. Essa fuga não é tão fácil aqui – provavelmente é justo até mesmo dizer que não é tão divertida quanto nos quadrinhos, onde a tonalidade se presta a algo mais levemente alegórico e menos pé-no-chão. Mas não chega nunca  a deixar de ser interessante ao seu próprio modo, na medida em que vamos nos perguntando o papel que cada participante terá nesse jogo complexo de forças. Ficamos na expectativa a respeito de como os três episódios finais darão encaminhamento para tantas pontas soltas. Afinal de contas, armar tantos microconflitos de interesse e situações com personagens hesitantes a respeito de suas ações pode levar a uma desfecho genuínamente interessante onde tudo pode acontecer, ou pode amontoar num exercício de pura redundância narrativa, caso as coisas acabem por se encaminhar no final como poderiam ter se encaminhado há seis episódios atrás.

Assim, Refraction trabalha bem nos pontos onde a série tem acertado, tomando seu tempo para preparar um cenário cujo desfecho ainda estamos por presenciar. Runaways tem acertado no drama e na caracterização, mantendo um bom balanceamento de tempo de tela para o extenso elenco, ainda que não sem suas falhas, em especial no que diz respeito à ausência de cenas de ação ou mesmo de uso de habilidades especiais (que surpreende dada a premissa básica da série), bem como de momentos de maior descontração que não se limitem ao romance. A impressão que fica a essas alturas da temporada é uma distância entre o que se poderia esperar da adaptação e o material original – uma distância praticamente diametral. É quase como se a série encaminhasse para fazer de uma eventual segunda temporada aquilo que poderia ter sido a temporada de estreia – o que não significa necessariamente um problema. Resta saber o quanto o desfecho terá sucesso em encaminhar bem toda a construção de mundo e personagens feita até aqui, e se a resposta do público será suficiente para que possamos acompanhar as jornadas dos jovens Fugitivos para além de sua jornada de estreia.

Runaways – 1X07: Refraction – EUA, 19 de dezembro de 2017
Criação: 
Josh Schwartz, Stephanie Savage
Showrunner: Josh Schwartz, Stephanie Savage
Direção: Peter Hoar
Roteiro: Michael Vukadinovich
Elenco: Rhenzy Feliz, Lyrica Okano, Ariela Barer, Cris D’Annunzio, Cody Mayo, Virginia Gardner, Gregg Sulkin, Allegra Acosta, Angel Parker, Ryan Sands, Annie Wersching, Kip Pardue, Ever Carradine, James Marsters, Brigid Brannagh, Kevin Weisman, Brittany Ishibashi, James Yaegashi, Julian McMahon, DeVaughn Nixon, Nathan Davis Jr.
Duração: 45 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.